Levantamento revela avanço dos óbitos desde a pandemia e aponta crescimento da frota de motocicletas como um dos fatores que ajudam a explicar a tendência
O número de mortes em acidentes de trânsito associados ao consumo de álcool voltou a crescer de forma consistente no Brasil após a pandemia e alcançou, em 2024, o maior patamar registrado nos últimos oito anos. A constatação faz parte de um estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), divulgado às vésperas dos 18 anos da Lei Seca.
Segundo o levantamento, a taxa nacional chegou a 6,2 mortes por 100 mil habitantes em ocorrências relacionadas à ingestão de bebidas alcoólicas. O índice é o mais elevado desde 2016, quando o país registrou 6,4 óbitos por 100 mil habitantes.
A pesquisa utiliza dados do DataSUS, sistema que reúne informações da rede pública de saúde em todo o território nacional.
Expansão das motocicletas preocupa especialistas
Especialistas avaliam que o aumento expressivo da circulação de motocicletas nos últimos anos pode estar entre os fatores que contribuíram para a retomada do crescimento dos indicadores.
De acordo com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), a frota de motos passou de 23,6 milhões de unidades em 2019 para 28,3 milhões em 2024, um avanço de aproximadamente 20%. No mesmo período, a quantidade de automóveis cresceu 12%.
Para a socióloga Mariana Thibes, coordenadora do Cisa, a mudança no perfil da mobilidade urbana tornou o trânsito mais vulnerável.
“Os desafios aumentaram, o trânsito está mais complexo”, afirma Mariana.
Ela destaca que condutores sob efeito do álcool tendem a apresentar menor capacidade de atenção, ampliando os riscos para motociclistas, especialmente aqueles que utilizam o veículo como instrumento de trabalho.
“Há ainda motociclistas que já enfrentam um cenário difícil de trabalho, no caso dos entregadores, que se beberem, podem ficar ainda mais expostos”, acrescenta.
Embora o estudo não detalhe quantas vítimas eram motociclistas, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, em 2023, quatro em cada dez mortes no trânsito envolveram ocupantes de motocicletas.
Mato Grosso está entre os estados com maiores índices
A análise identificou que 18 estados brasileiros registraram taxas de mortalidade superiores à média nacional. Tocantins, Piauí e Mato Grosso aparecem entre as unidades da federação com os indicadores mais elevados.
Os homens concentram a maior parte das vítimas. Segundo o levantamento, eles representam 86,7% das mortes e 81,8% das internações relacionadas a acidentes de trânsito envolvendo álcool.
Ao todo, o Brasil contabilizou 13.075 mortes em 2024, número 6,2% superior ao registrado no ano anterior.
Fiscalização cresce, mas número de vítimas continua avançando
Mesmo com o reforço das ações de fiscalização, os registros de mortes seguem em alta. No estado de São Paulo, por exemplo, o Departamento Estadual de Trânsito ampliou significativamente as operações voltadas à identificação de motoristas alcoolizados.
O número de blitze passou de 565 para 1.272 em apenas um ano, crescimento de 125%. As autuações por alcoolemia também aumentaram, chegando a aproximadamente 20 mil registros em 2025, frente a 12,8 mil no período anterior.
Para Mariana Thibes, os resultados demonstram que a legislação continua sendo uma ferramenta essencial, mas que precisa estar acompanhada de outras estratégias.
“A Lei Seca do Brasil serve de exemplo para o mundo e tem salvado vidas, mas ela sozinha não faz milagres”, diz.
Álcool compromete reflexos e aumenta gravidade dos acidentes
O diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Flávio Adura, alerta que os efeitos do álcool afetam diretamente a capacidade de condução e potencializam as consequências dos acidentes.
“O álcool faz com que o motorista tenha sua capacidade visual e de percepção comprometidas, reaja mais lentamente, tome decisões mais arriscadas e, caso ocorra um acidente, tenha maior probabilidade de sofrer ferimentos graves ou fatais”, afirma.
Segundo especialistas, a redução consistente da mortalidade depende da combinação entre fiscalização contínua, atendimento rápido às vítimas e campanhas educativas voltadas especialmente ao público masculino, grupo mais afetado pelas estatísticas.
“Isso significa que é preciso haver intensificação das ações de fiscalização, acesso a atendimento de emergência e ações de prevenção que alcancem especialmente o público masculino. Adotar essas medidas conjuntas à lei potencializa a queda da mortalidade”, afirma Mariana.
Educação e mudança cultural são os próximos desafios
Passadas quase duas décadas da implantação da Lei Seca, especialistas defendem que o próximo passo é ampliar a conscientização social e adaptar as políticas públicas às novas dinâmicas da mobilidade urbana.
Para Flávio Adura, o debate já não está centrado na eficácia da legislação, mas na forma de ampliar seus resultados.
“A pergunta não é mais se ela funciona, mas como pode funcionar melhor. O futuro passa por mais educação, tecnologia e fiscalização eficiente. É preciso também construir uma cultura em que dirigir após beber seja socialmente inaceitável”, afirma.
Em nota, a Senatran informou que mantém ações permanentes de educação, conscientização e fiscalização em todo o país para reduzir acidentes e mortes relacionados ao consumo de álcool e direção.
O que prevê a legislação para quem dirige após beber
A legislação brasileira estabelece punições administrativas e criminais para condutores flagrados sob efeito de álcool.
Dirigir alcoolizado configura infração gravíssima, com multa de R$ 2.934,70, suspensão da carteira de habilitação por 12 meses e possibilidade de multa em dobro em caso de reincidência dentro de um ano.
Quando o teste do bafômetro aponta concentração igual ou superior a 0,34 miligrama de álcool por litro de ar expelido, o caso passa a ser enquadrado como crime de trânsito, sujeito à pena de seis meses a três anos de detenção, além de multa e suspensão ou proibição da obtenção da CNH.
A recusa em realizar o teste também gera penalidades severas, incluindo multa elevada, suspensão do direito de dirigir e, dependendo dos sinais apresentados pelo motorista, enquadramento criminal.

