Liderança do grupo xiita considera entendimento um marco estratégico, enquanto especialistas apontam ganhos políticos e financeiros para a organização apoiada por Teerã
O memorando de entendimento firmado entre Estados Unidos e Irã para interromper a escalada militar no Oriente Médio foi recebido pelo Hezbollah como uma conquista significativa. Para o secretário-geral da organização xiita libanesa, Naim Kassem, o acordo representa uma “grande vitória” e um elemento decisivo para o futuro do Líbano.
Segundo o líder do grupo, Teerã teve papel central ao incluir a situação libanesa nas negociações e ao pressionar por medidas que, na avaliação do Hezbollah, poderão restringir as operações militares israelenses no território do país.
Fundado em 1982 com apoio iraniano, o Hezbollah surgiu durante a ocupação israelense do sul do Líbano. Ao longo das últimas décadas, consolidou-se como uma das principais forças políticas e militares do país, exercendo influência significativa sobre a comunidade xiita e ocupando espaço relevante na estrutura de poder libanesa.
Acordo coloca o Líbano no centro das negociações
Apesar da assinatura do entendimento entre Washington e Teerã, os confrontos entre Israel e Hezbollah continuaram no sul do Líbano. Ainda assim, ambos os lados anunciaram posteriormente a intenção de respeitar um cessar-fogo.
O pacto prevê um período inicial de 60 dias para negociações detalhadas, que deveriam ter começado na Suíça. No entanto, o início das conversas foi adiado após objeções do governo iraniano relacionadas à continuidade das operações militares em território libanês.
Para analistas internacionais, mesmo diante das incertezas, o texto preliminar tende a favorecer os interesses estratégicos do Irã e, consequentemente, de seus aliados regionais.
James M. Dorsey, especialista da Escola de Estudos Internacionais Rajaratnam, em Singapura, avalia que o entendimento atende a grande parte das demandas iranianas.
“Esse memorando de entendimento praticamente dá ao Irã tudo o que queria e a Trump tudo o que ele tinha [antes de atacar o Irã, junto com Israel, em fevereiro]“, afirmou. “E certamente, pelo menos no início, parece uma vitória para o Hezbollah.”
Retirada israelense pode representar ganho estratégico
Um dos pontos mais relevantes do documento estabelece o encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes do conflito, incluindo o território libanês.
O memorando também prevê garantias à soberania e à integridade territorial do Líbano, cláusula que vem sendo interpretada por autoridades iranianas como um compromisso indireto para a retirada das tropas israelenses do sul do país.
Israel mantém atualmente uma área de aproximadamente 600 quilômetros quadrados sob seu controle no sul do Líbano, classificada por Tel Aviv como uma zona de segurança destinada a impedir ataques do Hezbollah contra comunidades israelenses próximas à fronteira.
Caso uma eventual retirada venha a ocorrer, especialistas apontam que o Hezbollah poderá capitalizar politicamente o resultado. A região concentra grande parte da população xiita libanesa e sofreu forte destruição nos últimos meses, com deslocamento de mais de um milhão de moradores.
Recursos iranianos podem ampliar influência do grupo
Outro aspecto considerado favorável ao Hezbollah é o compromisso de flexibilização econômica previsto no acordo.
O texto menciona o desbloqueio de recursos iranianos e a retomada mais ampla das exportações de petróleo pelo país persa, o que poderá aumentar significativamente a disponibilidade financeira de Teerã.
Fontes diplomáticas ouvidas pela agência Reuters afirmaram que autoridades iranianas sinalizaram a possibilidade de ampliar o apoio financeiro ao Hezbollah após a liberação desses recursos.
Para observadores políticos, essa perspectiva reduz a capacidade do governo libanês de pressionar pelo desarmamento da organização.
O comentarista Karim Chebaklo argumenta que as restrições financeiras impostas ao Irã vinham funcionando como um dos principais instrumentos indiretos para limitar o fortalecimento do Hezbollah. Com a entrada de novos recursos, esse cenário tende a mudar.
Governo libanês e Israel observam acordo com preocupação
Embora o entendimento tenha repercussão direta sobre o conflito no Líbano, nem o governo libanês, nem Israel, tampouco o próprio Hezbollah, figuram como signatários do documento.
Em Beirute, setores políticos avaliam que o acordo reforça a percepção de que o Irã continua exercendo forte influência sobre os rumos estratégicos do país.
Nos últimos meses, o governo libanês havia iniciado conversas inéditas com Israel para discutir mecanismos de desarmamento do Hezbollah e criar condições para uma eventual estabilização da fronteira. A iniciativa encontrou forte resistência da organização xiita.
Do lado israelense, o memorando também foi recebido com reservas. Autoridades do governo afirmaram que não pretendem abandonar imediatamente as posições ocupadas no sul do Líbano, mesmo diante da pressão crescente dos Estados Unidos.
Cessar-fogo permanece cercado de incertezas
Horas após o anúncio de um entendimento entre Hezbollah e Israel para interromper os confrontos, novos bombardeios israelenses foram registrados na região sul do Líbano.
Um porta-voz militar israelense afirmou que as forças do país continuam com “plena liberdade operacional” em território libanês, lançando dúvidas sobre a efetividade do cessar-fogo.
Para o jornalista Anthony Samrani, editor-chefe do jornal libanês L’Orient-Le Jour, o desfecho das negociações poderá redefinir o equilíbrio de forças no país.
Segundo ele, caso os Estados Unidos consigam pressionar Israel a retirar suas tropas, o Hezbollah poderá apresentar o resultado como uma vitória histórica e ampliar sua influência política sobre a reconstrução das áreas devastadas pela guerra.
Por outro lado, Samrani considera mais provável um cenário de prolongada instabilidade, marcado pela permanência da presença militar israelense e pela continuidade da disputa interna entre o Estado libanês e o Hezbollah.
“O sul continuaria sendo um território de guerra e sofrimento”, afirmou, acrescentando que a disputa pelo controle político e militar do país deverá permanecer no centro das tensões mesmo após o encerramento dos confrontos.
( Com Cathrin Schaer / DW )

