Temperaturas recordes deformam pistas, provocam acidentes, alteram o trânsito e afetam até o transporte ferroviário no país europeu
Temperaturas históricas comprometem rodovias
A intensa onda de calor que atinge a Alemanha já provoca impactos significativos na infraestrutura do país. Após os termômetros alcançarem a marca histórica de 41,3°C, diversos trechos das Autobahn — as tradicionais rodovias expressas alemãs — sofreram deformações estruturais, resultando em interdições e restrições ao tráfego.
Os problemas foram registrados nos estados da Baixa Saxônia, Brandemburgo, Baviera, Renânia do Norte-Vestfália e Hessen, além das cidades-estado de Berlim e Brandemburgo, onde autoridades monitoram os efeitos das altas temperaturas sobre o pavimento.
Em um dos trechos afetados, em Brandemburgo, mais de 20 veículos sofreram danos após passarem por elevações repentinas na pista. O incidente, ocorrido na quinta-feira (25), deixou duas pessoas feridas e provocou um grande congestionamento.
Segundo o jornal Berliner Zeitung, “para muitos motoristas, o trecho perigoso aparentemente surgiu de forma completamente inesperada. Um veículo após o outro passou sobre as partes elevadas da pista. Com isso, pneus, rodas, para-choques e possivelmente também a parte inferior de vários carros foram danificados”. Ainda de acordo com a publicação, os prejuízos aos condutores são estimados em cerca de 100 mil euros, e diversos veículos precisaram ser removidos por guinchos.
Entenda por que as pistas se deformam
As temperaturas elevadas fazem com que o asfalto amoleça e se expanda, favorecendo o surgimento de rachaduras e ondulações. Em dias de calor intenso, a superfície das rodovias pode atingir aproximadamente 60°C, condição suficiente para comprometer a estabilidade do revestimento.
Nas rodovias construídas em concreto, o risco é ainda maior devido ao fenômeno conhecido como “blow-up”, quando a expansão das placas faz com que o pavimento se eleve repentinamente ou até se rompa sob a combinação de calor e tráfego intenso. Especialistas apontam que esse tipo de ocorrência pode começar a partir de temperaturas próximas dos 30°C, sobretudo em estradas mais antigas ou submetidas a sucessivas intervenções de manutenção.
Diante do cenário, o clube automotivo ADAC alertou os motoristas sobre o aumento do risco de estouro de pneus e recomendou atenção especial à calibragem dos veículos.
“Um pneu com pressão insuficiente se deforma excessivamente durante a condução, o que gera calor que, em combinação com as altas temperaturas do asfalto, pode levar ao estouro do pneu”, explicou a entidade.
Caminhões de inverno são usados para resfriar o asfalto
Como medida emergencial para reduzir os danos provocados pelo calor, autoridades alemãs passaram a utilizar caminhões normalmente empregados na remoção de gelo durante o inverno. Desta vez, os veículos foram adaptados para lançar água fria sobre as rodovias, numa tentativa de diminuir a temperatura do pavimento e evitar novas deformações.
Infraestrutura antiga amplia impactos da onda de calor
Especialistas apontam que os efeitos da atual onda de calor vão além das mudanças climáticas. Parte da malha rodoviária alemã foi construída para suportar um volume de tráfego significativamente menor do que o observado atualmente, além de não ter sido projetada para enfrentar temperaturas extremas com tanta frequência.
Segundo a revista Der Spiegel, muitas rodovias utilizam estruturas de concreto desenvolvidas décadas atrás, tornando-se mais vulneráveis diante das novas condições climáticas e do aumento da circulação de veículos pesados.
Na Baviera, a situação levou as autoridades a estabelecer limites temporários de velocidade de 120 km/h para automóveis e 80 km/h para motocicletas. A medida chama atenção por ocorrer justamente em um estado historicamente contrário à adoção de limites de velocidade como estratégia para reduzir emissões de gases de efeito estufa, mas que acabou recorrendo à restrição para preservar a infraestrutura.
Especialistas destacam que ajustes na composição do betume utilizado no asfalto poderiam reduzir os danos causados pelo calor. No entanto, essa alternativa aumentaria a vulnerabilidade das rodovias durante os períodos de frio intenso.
Transporte ferroviário também sofre com o calor
Os impactos da onda de calor não se restringem às estradas. Neste sábado (27), a Deutsche Bahn (DB) e outras operadoras ferroviárias recomendaram que a população evite viagens não essenciais nos serviços regionais e de longa distância.
“Por favor, evitem hoje e amanhã todas as viagens não essenciais no transporte de longa distância e regional”, informaram a empresa e a Associação Federal do Transporte Ferroviário de Passageiros (BSN).
As companhias explicaram que a infraestrutura ferroviária também enfrenta dificuldades devido às temperaturas extremas, agravadas pela previsão de tempestades com chuvas intensas emitida pelo Serviço Meteorológico Alemão. Como consequência, passageiros enfrentam atrasos, cancelamentos e alterações na circulação dos trens.
Para minimizar os impactos aos usuários, a Deutsche Bahn flexibilizou as regras para remarcação e cancelamento de passagens adquiridas antes do agravamento da situação.
O vídeo abaixo, gravado nos Estados Unidos durante o verão de 2025 no Hemisfério Norte, mostra como o fenômeno ocorre na prática.

