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El Niño coloca Brasil em alerta para nova temporada de incêndios florestais

Missias
7 de julho de 2026 às 09:34
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El Niño coloca Brasil em alerta para nova temporada de incêndios florestais

©-Joedson-Alves-Agencia-BrasiL

Após a queda expressiva da área queimada em 2025, o Brasil volta a enfrentar um cenário de risco elevado para incêndios florestais em 2026, impulsionado pela influência do El Niño. O fenômeno climático, associado ao recorde de queimadas registrado em 2024, deve testar a capacidade do país de prevenir e combater o fogo fora de controle.

Em 2024, o Brasil teve a maior área queimada desde 2012, segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano seguinte, a extensão atingida pelo fogo recuou para o terceiro menor patamar da série histórica, resultado atribuído a condições climáticas mais favoráveis e ao avanço da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF).

Nova política será posta à prova

Aprovada em julho de 2024, a PNMIF mudou a lógica de enfrentamento dos incêndios ao substituir a visão de “fogo zero” por uma abordagem baseada em planejamento, prevenção e uso técnico do fogo quando adequado. Desde então, o governo federal ampliou a contratação de brigadistas, reforçou estruturas de combate e expandiu ações como as queimas prescritas.

“Estamos preparados para uma situação muito complexa. Torcemos para que ela não ocorra. Mas temos a convicção de que tudo o que fizemos a partir de 2024 gerou aprendizados e ações”, afirmou João Paulo Sotero, secretário substituto e diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Centro-Oeste e arco sul da Amazônia concentram maior risco

Segundo o Cemaden, 1.863 municípios estão em atenção, 615 em alerta e 106 em alerta alto para probabilidade de fogo entre julho e setembro. As áreas mais críticas estão no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, incluindo regiões de Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas, sul do Pará e Tocantins.

“Os efeitos conhecidos são aumento das temperaturas na região central, ou seja, a possibilidade de um aumento de ondas de calor. E seca na região Norte e Nordeste. Isso contribui para condicionar a atmosfera para uma situação de maior exposição ao risco de fogo”, explicou o pesquisador Christopher Cunningham, líder do Grupo de Estudos de Fogo do Cemaden.

 

Governo amplia recursos e efetivo

Depois de cortes no início do ano, uma medida provisória liberou R$ 337,5 milhões adicionais para Ibama e ICMBio. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o orçamento de 2026 supera R$ 1 bilhão, o maior já registrado para a área. A operação federal contará com 240 brigadas, 4.410 brigadistas contratados e 220 servidores federais.

A estrutura também inclui veículos especiais de combate, helicópteros, aviões para lançamento de água, bases operacionais no Pantanal e postos de comando em estados estratégicos. Para especialistas, porém, o reforço ainda precisa ser acompanhado da consolidação do manejo integrado em estados, municípios e setores privados.

Especialistas alertam para desafios persistentes

Para Lívia Carvalho Moura, doutora em Ecologia pela Universidade de Brasília e pesquisadora associada do Instituto Sociedade, População e Natureza, o país avançou, mas ainda enfrenta gargalos. “Hoje enfrentamos um contexto mais desafiador, marcado por mudanças climáticas, eventos extremos mais frequentes, expansão de áreas degradadas e pelo uso inadequado do fogo em atividades humanas e conflitos territoriais. Esses fatores aumentam o risco de ocorrência, intensidade e severidade dos incêndios”, pontuou.

A pesquisadora afirma que o principal desafio está na consolidação da política em todo o território nacional. “Em boa parte do território brasileiro, o manejo do fogo ainda é muito reativo, baseado no combate, e pouco estruturado em prevenção.” Diante da combinação entre El Niño, seca, calor e pressão sobre áreas vulneráveis, a temporada de 2026 deve indicar se os avanços recentes serão suficientes para evitar uma nova crise ambiental.