Rafael Ranalli cobra punição a dissidentes, enquanto prefeitos dos três maiores colégios eleitorais do estado resistem a uma adesão integral ao projeto do senador e mantêm aberta a possibilidade de composição com Otaviano Pivetta.
A disputa pelo Governo de Mato Grosso abriu uma das mais profundas fissuras recentes no Partido Liberal no estado. De um lado, a direção partidária sustenta a pré-candidatura do senador Wellington Fagundes ao Palácio Paiaguás. De outro, prefeitos eleitos pela legenda aproximam-se do projeto de reeleição do governador Otaviano Pivetta, do Republicanos, ou evitam assumir compromisso definitivo com o correligionário.
O conflito ganhou relevância porque envolve as administrações dos três maiores colégios eleitorais mato-grossenses: Cuiabá, comandada por Abilio Brunini; Várzea Grande, sob a gestão de Flávia Moretti; e Rondonópolis, governada por Cláudio Ferreira. Todos pertencem ao PL, mas não demonstram o mesmo grau de alinhamento com a candidatura defendida pela direção estadual.
Cláudio já declarou apoio a Pivetta. Abilio passou a defender uma aliança na qual o PL indicaria o candidato a vice-governador. Flávia, por sua vez, permanece sem confirmar publicamente uma adesão definitiva a Wellington. O quadro expõe uma contradição eleitoral: a legenda controla os principais centros urbanos de Mato Grosso, mas pode chegar à campanha sem a mobilização integral dessas bases em favor de seu próprio candidato.
Ranalli eleva o tom e exige fidelidade
A divergência deixou de ser tratada apenas nos bastidores após as manifestações do vereador por Cuiabá Rafael Ranalli. Identificado com a ala bolsonarista do partido, o parlamentar passou a cobrar uma atuação mais rígida do presidente estadual do PL, Ananias Filho, contra gestores que apoiam uma candidatura concorrente.
Ranalli sustenta que prefeitos beneficiados eleitoralmente pela imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo número 22 deveriam acompanhar as decisões majoritárias da legenda. Para ele, a permanência no partido seria incompatível com o apoio público a Pivetta enquanto Wellington estiver colocado como candidato ao Governo.
Ao defender possíveis medidas disciplinares, o vereador declarou: “Sou, sim, a favor de o Ananias apertar mais o cerco”. A cobrança foi direcionada principalmente a Cláudio Ferreira, a quem Ranalli recomendou deixar a legenda: “Sai e devolva os votos”.
O parlamentar classificou a conduta do prefeito de Rondonópolis como infidelidade política e argumentou que o capital eleitoral do bolsonarismo foi decisivo para a vitória de candidatos municipais do PL. Em nova manifestação, afirmou que dirigentes insatisfeitos deveriam formalizar a saída em vez de permanecer na sigla até a definição das chapas.
As declarações traduzem o descontentamento da ala ideológica, que cobra obediência às decisões partidárias e teme que o PL seja usado como plataforma eleitoral municipal sem receber, como contrapartida, apoio aos seus projetos estaduais e nacionais.
Cláudio Ferreira desafia projeto da legenda
O principal foco da reação interna é Cláudio Ferreira. Prefeito do terceiro maior colégio eleitoral de Mato Grosso e gestor da cidade considerada principal base política de Wellington Fagundes, ele anunciou que pretende caminhar com Pivetta na disputa estadual.
Cláudio justificou a decisão pela relação administrativa estabelecida com o Governo do Estado e pelos investimentos destinados a Rondonópolis. Durante uma agenda oficial, afirmou que sua prioridade seria apoiar quem atendesse às demandas do município.
Ao elogiar Pivetta, declarou: “É um governador que tem palavra e não atua por mesquinharia”. A manifestação ocorreu durante o anúncio de investimentos estaduais e contrariou diretamente o planejamento do PL de lançar candidatura própria ao Palácio Paiaguás.
A dissidência tem peso estratégico. Além de comandar uma das maiores cidades do estado, Cláudio administra um reduto historicamente associado a Wellington. Uma eventual campanha municipal em favor de Pivetta poderá limitar a capacidade de mobilização do senador justamente em uma região central para seu projeto eleitoral.
Outros prefeitos liberais, entre eles gestores de Primavera do Leste e Campo Novo do Parecis, também foram apontados como integrantes do movimento de aproximação com o governador. Pivetta prevê novas adesões e afirma que “serão muitos do PL”.
Abilio defende composição com Pivetta
Em Cuiabá, Abilio Brunini procura adotar uma posição intermediária. Embora reconheça a legitimidade de Wellington para disputar o Governo, o prefeito da capital defende uma chapa unificada em torno de Pivetta, com a indicação do candidato a vice pelo PL.
“Eu preferia que tivesse uma composição”, afirmou. Segundo Abilio, uma disputa direta entre os dois projetos poderá fragmentar o campo político de direita e enfraquecer o grupo governista durante a campanha.
O prefeito também rejeitou a hipótese de que o apoio partidário seja obtido por meio de imposição. “O PL não é por imposição. O PL é por diálogo, por construção e por um projeto maior”, declarou.
A posição coloca Abilio em uma situação delicada. Ele mantém proximidade política e administrativa com Pivetta, mas pertence ao partido que trabalha pela candidatura de Wellington. Ao defender que os dois grupos cheguem a um acordo, tenta evitar um rompimento com qualquer um dos lados e preservar a interlocução institucional com o Governo do Estado.
Flávia mantém indefinição em Várzea Grande
Flávia Moretti também é observada pela direção estadual. A prefeita de Várzea Grande ainda não formalizou apoio a Pivetta, mas tampouco se incorporou integralmente à campanha de Wellington.
A indefinição mantém o segundo maior colégio eleitoral do estado no centro das negociações. Assim como Abilio e Cláudio, Flávia administra uma cidade que depende de parcerias e repasses estaduais para executar obras e ampliar serviços públicos, fator que contribui para a aproximação institucional com o governador.
Embora as relações administrativas não representem necessariamente um compromisso eleitoral, a ausência de uma declaração enfática em favor de Wellington aumenta a percepção de isolamento do pré-candidato entre os prefeitos mais influentes do próprio partido.
Direção tenta conter crise antes das convenções
Enquanto Ranalli exige sanções, outros dirigentes adotam uma postura conciliadora. O deputado federal José Medeiros, pré-candidato ao Senado, afirmou acreditar que os prefeitos deverão acompanhar a decisão partidária depois das convenções.
“Eu acredito que isso aí vai se ajeitando”, afirmou Medeiros, ao atribuir a Ananias Filho a responsabilidade de conduzir as conversas e reconstruir a unidade interna.
A estratégia da direção é evitar que o conflito provoque uma ruptura antes da oficialização das candidaturas. Wellington também tem procurado reduzir a tensão e sustenta que a cobrança por fidelidade deve ocorrer somente depois das convenções partidárias.
A postura contrasta com a ofensiva de Ranalli. Enquanto a cúpula procura ganhar tempo para negociar, o vereador pressiona por uma resposta imediata contra os dissidentes, ampliando publicamente uma disputa que até então se desenvolvia sobretudo nos bastidores.
Disputa ultrapassa fronteiras do partido
O impasse não se limita à escolha entre Wellington e Pivetta. Ele envolve o controle do campo político conservador, a utilização da imagem de Bolsonaro nas campanhas municipais e a relação dos prefeitos com a estrutura administrativa estadual.
Para Wellington, preservar a candidatura própria significa consolidar o PL como protagonista da eleição majoritária e evitar que o partido se torne coadjuvante em uma chapa comandada pelo Republicanos.
Para os prefeitos próximos de Pivetta, a continuidade da atual gestão representa a manutenção de parcerias, investimentos e projetos em andamento. Esse argumento, porém, é contestado pela ala ideológica, que interpreta a aproximação como abandono das diretrizes partidárias.
As convenções serão decisivas para determinar se o PL manterá Wellington na cabeça de chapa, negociará uma composição ou entrará na campanha dividido. Até lá, a legenda deverá administrar uma equação complexa: possui a maior estrutura municipal entre os principais grupos de direita do estado, mas ainda não conseguiu transformar essa força em apoio unificado ao seu projeto para o Governo.




