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Fiocruz identifica proteínas com potencial para vacina universal contra a malária

João Oliveira
2 de julho de 2026 às 06:03
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Fiocruz identifica proteínas com potencial para vacina universal contra a malária
Divulgação / DayNews
Imagem de Plasmodium falciparum, protozoário que causa a malária em humanos (Foto: CDC)

Estudo revela fragmentos capazes de proteger contra diferentes espécies do parasita

Avanço científico publicado na Nature

 

Pesquisadores da Fiocruz anunciaram nesta quarta-feira (1º/7) uma descoberta inédita que pode revolucionar o combate à malária. O estudo, publicado na revista Nature, identificou fragmentos de proteínas do parasita Plasmodium com potencial para o desenvolvimento de uma vacina universal, eficaz contra diferentes espécies, como P. falciparum e P. vivax, e capaz de atuar em múltiplas fases da doença.

Estratégia inovadora com células T CD8+

Diferente das abordagens tradicionais, que se concentram na produção de anticorpos, os cientistas investigaram o papel dos linfócitos T CD8+, células de defesa que reconhecem e destroem diretamente células infectadas. “Há mais de 50 anos se tenta desenvolver uma vacina contra a malária e, só recentemente, tivemos aprovados imunizantes com eficácia limitada, voltados principalmente para o P. falciparum e para crianças. Um dos principais desafios sempre foi encontrar bons alvos vacinais”, explicou Caroline Junqueira, coordenadora do estudo na Fiocruz Minas.

Identificação de peptídeos estáveis

A equipe utilizou a técnica de imunopeptidômica para mapear os antígenos apresentados ao sistema imune. Foram identificados 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do parasita, a maioria proveniente de proteínas housekeeping, essenciais para a sobrevivência do Plasmodium. “Essas proteínas são necessárias em todos os estágios do ciclo de vida do parasita e são altamente conservadas entre diferentes espécies. Isso as torna alvos muito interessantes para uma vacina universal”, destacou Junqueira.

Resposta imunológica confirmada

Os testes mostraram que células de pacientes infectados tanto por P. vivax quanto por P. falciparum reagiram aos antígenos identificados. A resposta também foi observada em outras três espécies de Plasmodium, incluindo aquelas que infectam primatas e camundongos. “Confirmamos a resposta imunológica em cinco espécies diferentes e em múltiplos hospedeiros, incluindo humanos naturalmente infectados, humanos submetidos à infecção experimental e modelos animais, tanto em camundongos quanto em primatas”, afirmou a pesquisadora.

Em modelos animais, alguns desses alvos demonstraram efeito protetor, reduzindo a carga parasitária. “Não é só reconhecimento: vimos indícios de proteção, o que é fundamental para o desenvolvimento de uma vacina”, acrescentou Junqueira.

Diferenciais da pesquisa

Atualmente, as vacinas disponíveis contra a malária têm eficácia parcial e atuam principalmente na fase inicial da infecção. O novo estudo aponta para uma vacina capaz de agir em múltiplos estágios do parasita e contra diferentes espécies. “Hoje, as vacinas não cobrem completamente todas as fases da infecção. Nosso trabalho mostra que esses antígenos estão presentes em vários momentos, o que atende a uma demanda importante da Organização Mundial da Saúde”, explicou a coordenadora.

Outro diferencial é a consistência dos alvos entre diferentes indivíduos, aumentando a possibilidade de eficácia em populações diversas. “É o primeiro trabalho no Brasil a utilizar imunopeptidômica nesse contexto e o primeiro já realizado para malária”, ressaltou Junqueira.

Protagonismo feminino e patente internacional

O estudo, conduzido ao longo de sete anos, teve protagonismo feminino, com destaque para as doutorandas Camila Barbosa e Luna de Lacerda. A pesquisa resultou na conquista de uma patente que abrange os antígenos identificados. “Essa é uma conquista enorme. Estamos falando de 166 proteínas que podem ser exploradas nas próximas décadas. É só a ponta do iceberg”, comemorou Junqueira.

A patente foi concedida pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO) e por duas organizações africanas: Aripo e Oapi. “As concessões mostram a potência deste estudo, que percorreu um longo caminho. Estamos muito otimistas de que os resultados obtidos a partir da pesquisa possam culminar no desenvolvimento de uma vacina”, destacou Ana Paula Granato, coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Minas.

Próximos passos

Apesar do avanço, os pesquisadores ressaltam que ainda há etapas de validação e testes clínicos a serem cumpridas. “Nosso objetivo foi mostrar que existem caminhos diferentes e promissores. Agora, outros grupos podem explorar esses alvos e avançar no desenvolvimento de uma vacina realmente eficaz contra a malária”, concluiu Junqueira.