
Há poucos dias, durante uma de minhas caminhadas às margens do Rio Araguaia, lá na cidade de Aruanã, parei para observar a correnteza.
A água seguia.
Sem pressa.
Sem voltar.
A mesma água que passava diante dos meus olhos jamais retornaria.
O rio parecia conhecer um segredo que nós, tantas vezes, insistimos em esquecer.
Foi então que me lembrei das palavras das Escrituras:
Existe um tempo para todas as coisas debaixo do céu.
Quanto mais vivo…
Mais percebo que a vida nunca nos entrega apenas uma estação.
Há tempo de plantar.
Há tempo de colher.
Há tempo de construir.
E chega o dia em que também será preciso reconstruir.
Há dias em que o sorriso nasce sem motivo.
E há outros em que o coração só consegue conversar por meio das lágrimas.
Tudo isso pertence à mesma caminhada.
O problema…
É que queremos viver apenas os trechos floridos da estrada.
Somos curiosos.
Aceitamos com alegria o tempo do nascimento.
Mas resistimos ao tempo da despedida.
Celebramos a colheita.
Reclamamos do plantio.
Gostamos do reconhecimento.
Esquecemos os dias em que ninguém viu nosso esforço.
Buscamos a paz.
Mas quase nunca entendemos o que as guerras interiores vieram nos ensinar.
Talvez seja por isso que sofremos tanto.
Não porque a vida seja injusta.
Mas porque tentamos impedir que ela continue sendo vida.
Com os anos descobri algo que nenhum livro consegue ensinar por inteiro.
Há momentos em que falar piora.
Silenciar cura.
Nem toda resposta precisa chegar hoje.
Nem toda injustiça exige defesa.
Existe uma sabedoria silenciosa no tempo.
Ele desgasta a mentira.
Revela a verdade.
Acalma os corações.
E coloca cada coisa exatamente onde ela deveria estar.
Às vezes pensamos que estamos perdendo.
Talvez…
Estejamos apenas esperando.
E esperar também é caminhar.
A própria vida me ensinou que existem dias para guardar.
Guardar fotografias.
Guardar amizades.
Guardar abraços que jamais poderão ser repetidos.
Mas também existe o tempo de deixar partir.
Soltar culpas.
Abandonar ressentimentos.
Despedir-se daquilo que já cumpriu sua missão.
Porque mãos fechadas…
Nunca conseguem receber novos presentes.
Enquanto observava o rio, compreendi outra verdade.
A água não luta contra a corrente.
Ela simplesmente segue.
Talvez seja isso que Deus espere de nós.
Não uma resignação que desiste.
Mas uma confiança que continua caminhando.
Mesmo sem enxergar a próxima curva.
Porque a vida não para.
Tudo muda.
Tudo amadurece.
Tudo segue.
Tudo passa.
Passam os dias de angústia.
Passam as noites mal dormidas.
Passam as injustiças.
Passam as perdas que pareciam insuportáveis.
Passam as alegrias mais intensas.
Passam até aquelas certezas que um dia jurávamos eternas.
Tudo passa.
Mas existe algo curioso.
Aquilo que aprendemos durante a travessia…
Permanece.
Cada lágrima deixa uma lição.
Cada espera fortalece a esperança.
Cada cicatriz nos ensina um novo jeito de olhar para quem também sofre.
Nada do que vivemos é desperdiçado.
Nada.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido da antiga mensagem de Eclesiastes.
Não apenas dizer que existe tempo para nascer.
Plantar. Rir. Chorar. Calar. Ou falar.
Mas lembrar que nenhuma dessas experiências veio para morar para sempre dentro de nós.
Todas passam.
Todas nos preparam para o tempo seguinte.
E foi olhando o Rio Araguaia desaparecer na curva que compreendi a maior de todas as lições.
A água passa.
As estações passam.
A juventude passa.
A dor passa.
A alegria também passa.
Nós mesmos atravessamos este mundo como viajantes.
Mas nem tudo passa.
Permanece o amor que distribuímos.
Permanece o bem que fizemos sem esperar aplausos.
Permanece a paz de uma consciência tranquila.
E permanece Deus.
Silencioso.
Paciente.
Esperando que, entre uma estação e outra da vida, descubramos que nunca caminhamos sozinhos.
Por isso…
Quando a felicidade chegar, viva-a intensamente.
Quando a dor bater à sua porta…
Espere.
Respire.
Lembre-se.
Tudo passa.
E, no tempo certo, revela o lugar de cada coisa.


