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Somos apenas visitantes – Por Wilton Emiliano Pinto

Redação
10 de outubro de 2026 às 12:11
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Somos apenas visitantes – Por Wilton Emiliano Pinto

IA

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.”
Salmo 90:12

Já passei dos 80 anos.
Faço questão de dizer isso.
Não porque a idade me torne melhor do que alguém, mas porque ela me permite olhar para a vida com outros olhos.

Quando penso nos anos que vivi, vejo muito mais do que o tempo passado.
Vejo os sonhos que alimentei, o trabalho que realizei, a família que construí, as alegrias que me visitaram e as dores que, com a ajuda de Deus, consegui atravessar.

E, quanto mais olho para essa estrada, mais compreendo uma coisa:
Sou apenas um visitante.

Caminho devagar pelas margens do rio.
A água segue seu curso.
As folhas caem quando chega o tempo.
Os pássaros pousam por alguns instantes e depois retomam o voo.
Nada parece preocupado em permanecer.

A natureza aceita o movimento da vida com uma simplicidade que nós, tantas vezes, não conseguimos compreender.
Também estou de passagem.

Penso em como cheguei até aqui.
Um dia fui menino.
Depois vieram os sonhos, as responsabilidades, o trabalho, a família.
Vieram também as conquistas, as dificuldades e as despedidas.
A vida foi acontecendo, enquanto eu me ocupava em vivê-la.

Hoje, quando olho para trás, percebo como os anos passaram depressa.
E me pergunto quantas vezes carreguei preocupações desnecessárias, cultivei mágoas e dei importância excessiva a coisas que o tempo acabou levando.

Talvez seja essa uma das lições que a idade nos oferece: aprender a caminhar mais leves.

Olho para minhas mãos. Já não têm a força de antigamente.
As rugas chegaram, os cabelos embranqueceram e o corpo passou a pedir outro ritmo.

Não vejo nisso motivo para tristeza.
Cada marca guarda alguma coisa da minha história.
Cada aniversário é uma oportunidade de agradecer a Deus por mais um trecho da caminhada.
O tempo mudou meu corpo, mas também mudou meu olhar.

Hoje, procuro ouvir mais, julgar menos, compreender antes de responder e perdoar sem tantas demoras.
Aos poucos, aprendi que conservar a paz no coração vale muito mais do que vencer uma discussão.

Não significa que tenha aprendido tudo.
Ainda tenho minhas inquietações, minhas limitações e minhas perguntas.
Mas já não preciso ter resposta para tudo.

Às vezes, basta compreender que a vida tem seu próprio curso e que nem tudo está sob o nosso controle.

Enquanto continuo caminhando, penso também no dia em que minha viagem chegará ao fim.
Sei que não levarei comigo as casas, os bens, os títulos ou aquilo que passei tantos anos tentando conquistar.

O que me conforta é pensar em outra herança.
O amor que oferecemos.
As palavras que trouxeram consolo.
Os abraços que aliviaram dores.
O perdão que conseguimos conceder.
O bem que fizemos sem esperar reconhecimento.

E, sobretudo, as pessoas que caminharam conosco e cuja vida, de alguma maneira, se tornou diferente porque estivemos presentes.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido da nossa passagem: não permanecer para sempre, mas deixar alguma coisa boa na vida de quem encontramos pelo caminho.

Hoje, às vezes, dou por mim desejando voltar à juventude, rever aqueles anos em que o corpo tinha mais força e a vida parecia se estender por tantos caminhos.
Mas logo me lembro de que o tempo não volta, e esse desejo cede lugar à aceitação.

Afinal, cada fase da vida tem sua beleza, seus desafios e seus aprendizados.
E a idade em que me encontro também tem seus presentes, entre eles a possibilidade de olhar para a vida com mais serenidade e reconhecer o valor de tantas coisas simples que antes poderiam passar despercebidas.

O rio continua correndo.
Os pássaros continuam voando.
E eu continuo aqui, aprendendo, refletindo e agradecendo a Deus pela oportunidade de viver mais um dia.

Sou apenas um visitante.

Como todos nós.
Quando chegar o momento de devolver a chave desta hospedagem chamada vida, não sei quais serão as últimas perguntas que me farei.

Mas gostaria de poder responder afirmativamente a uma delas:
Enquanto estive aqui, consegui aliviar o peso da caminhada de alguém?

Se puder dizer que sim, sentirei que minha passagem teve sentido.
Porque os anos medem o tempo que vivemos.
Mas é o amor que dá sentido à nossa passagem e permanece na vida daqueles que tocamos.

Wilton escreve sobre o tempo, a fé e as pequenas eternidades do cotidiano.

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