Avanço democrata nas eleições legislativas projeta governadores e senadores, enquanto a derrota do partido governista põe sob pressão o vice-presidente JD Vance e outros possíveis sucessores.
Com a apuração das eleições de meio de mandato ainda em curso, democratas e republicanos já disputam a interpretação do resultado que servirá de ponto de partida para a campanha presidencial de 2028. As vitórias democratas no Congresso deram visibilidade a possíveis candidatos à Casa Branca. Entre os republicanos, o revés abriu uma discussão sobre o peso das decisões do governo Donald Trump na perda de votos.
Ainda sem candidaturas oficiais, os dois partidos terão de avaliar quais vitórias estaduais podem se traduzir em apoio nacional e até que ponto a mudança de humor do eleitorado se manterá. O precedente de Barack Obama ajuda a dimensionar a incerteza. Dois anos depois de os republicanos registrarem ganhos expressivos nas eleições legislativas de 2010, o democrata conquistou a reeleição.
Vitórias estaduais dão projeção a possíveis candidatos
O desempenho de democratas em estados decisivos ampliou o espaço de nomes que até então concentravam sua atuação na política estadual. Na Geórgia, onde Trump venceu em 2024, o senador Jon Ossoff obteve uma vitória por margem expressiva. A circulação de vídeos de sua campanha nas redes sociais também ajudou a projetá-lo nacionalmente. Ossoff já afirmou que não pretende disputar a Presidência.
Na Pensilvânia, o governador Josh Shapiro derrotou com folga o adversário republicano. A margem em um estado importante para as eleições presidenciais reforçou seu nome nas conversas sobre 2028, embora ele ainda não tenha assumido compromisso com uma candidatura.
Em Illinois, a vitória do governador JB Pritzker encerrou uma campanha descrita por analistas locais como um “aquecimento” para uma disputa presidencial. Já Gavin Newsom, impedido de concorrer a outro mandato na Califórnia, fez campanha contra uma proposta de taxação de bilionários. Seu argumento era que a medida poderia levar contribuintes de alta renda a deixar o estado e reduzir a arrecadação.
Entre os republicanos, dois nomes cotados para 2028 preservaram seus cargos no Arkansas. O senador Tom Cotton e a governadora Sarah Huckabee Sanders, ex-secretária de imprensa de Trump, receberam pouco mais da metade dos votos cada um. Ambos venceram por margens menores que as obtidas anteriormente no estado conservador.
Vance tenta explicar a derrota e cresce a cobrança dentro do partido
Pesquisas de boca de urna indicaram que a insatisfação com decisões do governo Trump pesou no desempenho republicano. O resultado cria dificuldades para possíveis candidatos ligados diretamente à administração, entre eles o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.
“A única pessoa que foi gravemente prejudicada por esta campanha eleitoral foi Vance”, avaliou Karen Beckwith, professora de ciência política na Universidade Case Western Reserve, em Ohio.
Ao comentar o resultado no X, Vance atribuiu o revés à guerra no Irã. “O motivo da nossa derrota foi a guerra”, escreveu. Rubio, por sua vez, negou que esteja considerando deixar o cargo para concorrer à Presidência em 2028.
Fora do governo, dirigentes republicanos começaram a apresentar suas próprias explicações. O senador Ted Cruz afirmou que muitos políticos do partido parecem “não se importar” com as dificuldades econômicas dos eleitores.
“Está escuro agora, mas sempre é mais escuro antes do amanhecer, e a manhã está chegando”, escreveu Cruz. “Essa é a minha oração fervorosa e esse é o meu compromisso com vocês.”
O governador da Flórida, Ron DeSantis, que desistiu da disputa presidencial em 2024, destacou as vitórias republicanas em seu estado como exemplo do que o partido pode alcançar.
Centro e esquerda reivindicam o avanço democrata
As vitórias democratas fortaleceram alas com estratégias distintas para 2028. Progressistas apontam o triunfo de El-Sayed em Michigan como evidência de que candidaturas de esquerda podem vencer em estados disputados. Moderados veem na expansão de sua bancada um argumento em favor de candidatos capazes de dialogar com eleitores republicanos.
“As antigas noções de elegibilidade ficaram para trás, e economistas populistas ousados, de fora do sistema, provaram que podem vencer em Estados decisivos”, disse Adam Green, cofundador do Comitê de Campanha para Mudanças Progressistas. Para ele, “o cenário está favorável” à participação de nomes como o da deputada Alexandria Ocasio-Cortez nas primárias democratas.
O Blue Dog Caucus, grupo que reúne democratas moderados e conservadores, conquistou pelo menos 14 cadeiras no Congresso, resultado que quase dobra sua representação. Integrantes dessa ala defendem que candidatos de centro, dispostos a negociar com conservadores, podem atrair parte do eleitorado republicano.
O custo de vida aparece como tema comum às duas correntes, após o bom desempenho de campanhas centradas nas despesas das famílias. Amirah Siquierah, diretora de assuntos federais do Partido das Famílias Trabalhadoras, avalia que candidaturas competitivas em 2028 combinarão propostas econômicas de apelo popular com novas questões, como a expansão dos centros de processamento de dados.
Redutos tradicionais entram no cálculo de 2028
O resultado das urnas também recolocou no debate estados habitualmente tratados como seguros. O Texas, reduto republicano com 40 votos no Colégio Eleitoral, passou a ser observado pelos dois partidos como uma possível frente de disputa em 2028.
Para Christina Pascucci, analista política e ex-candidata ao Senado pela Califórnia, as eleições legislativas “desafiaram pressupostos políticos antigos” e mostraram que “nenhum dos partidos pode se dar ao luxo de considerar seus redutos tradicionais como garantidos”. A disputa pelo eleitor indeciso, acrescentou, continuará aberta. “Nenhum dos partidos é dono desses eleitores.”
Entre latinos e trabalhadores, os republicanos perderam parte do terreno que Trump havia conquistado em 2024. Na avaliação de Driena Sixto, comentarista conservadora e ex-porta-voz da organização Turning Point USA, a mudança de ênfase na comunicação do governo ajuda a explicar o afastamento de eleitores latinos.
“Da última vez, a mensagem da campanha foi sobre comunidades seguras e o combate ao tráfico de pessoas”, disse. “Depois que o presidente tomou posse, acho que muitas das mensagens da Casa Branca deram muita ênfase às deportações. Essa foi a causa da divisão.”
( Com BBC News Brasil )




