Investigação identificou 6.520 operações suspeitas com cartões corporativos e possível desvio de R$ 2,8 milhões; Justiça determinou bloqueio de bens, restrição de veículos e cumprimento de medidas judiciais em quatro municípios
Um suposto esquema de desvio de combustíveis, sustentado por abastecimentos fictícios e uso irregular de cartões corporativos, tornou-se alvo de uma operação da Polícia Civil de Mato Grosso nesta quarta-feira (4). As investigações apontam para a possível participação de funcionários e terceiros ligados a uma concessionária responsável pela administração e manutenção de rodovias estaduais. O prejuízo estimado chega a R$ 2,8 milhões.
Batizada de Rota Paralela, a ofensiva é resultado de uma investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), que identificou milhares de movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a rotina operacional da empresa.
Ao todo, a Justiça autorizou 23 medidas judiciais, incluindo sete mandados de busca e apreensão, seis medidas cautelares alternativas à prisão, seis determinações de bloqueio de ativos financeiros e quatro restrições sobre veículos.
As diligências ocorrem simultaneamente em Cuiabá, Várzea Grande, Colíder e Alto Taquari, com apoio de policiais civis das delegacias de Alto Araguaia e Colíder.
Além das medidas de busca e das restrições patrimoniais, o Poder Judiciário autorizou o sequestro e o arresto de bens e valores até o montante de R$ 2.796.942,48. A decisão também permite a análise de informações armazenadas em aparelhos eletrônicos eventualmente recolhidos durante a operação.
Suspeitas surgiram após fiscalização interna da concessionária
A apuração começou depois que a própria concessionária identificou inconsistências na utilização de cartões de abastecimento destinados exclusivamente aos veículos e equipamentos empregados nos serviços de conservação da malha rodoviária estadual.
A partir dessas informações, os investigadores passaram a examinar registros de consumo, horários das transações e a compatibilidade entre os volumes adquiridos e as necessidades operacionais da empresa.
As evidências reunidas indicam que os cartões teriam sido utilizados para simular abastecimentos ou registrar quantidades de combustível sem correspondência com as atividades efetivamente executadas.
A suspeita é de que essas operações permitissem tanto a retirada irregular de combustíveis quanto a formação de créditos em estabelecimentos comerciais, em benefício dos envolvidos.
Segundo a linha de investigação, pessoas encarregadas de administrar os cartões corporativos teriam explorado o acesso privilegiado ao sistema para autorizar ou facilitar movimentações fraudulentas. A polícia também apura a possível participação de terceiros na destinação dos produtos desviados.
Mais de 6,5 mil transações levantaram suspeitas
O levantamento realizado pela Deccor examinou 26.113 registros de abastecimento efetuados entre janeiro de 2024 e julho de 2025. Desse universo, 6.520 transações apresentaram indícios de irregularidades, com valores acumulados próximos de R$ 2,8 milhões.
Entre os registros considerados suspeitos estão aquisições de combustíveis durante a madrugada, abastecimentos repetidos em períodos excessivamente curtos e movimentações envolvendo cartões vinculados a máquinas ou equipamentos cuja capacidade de consumo não justificaria as quantidades lançadas.
A frequência e as características dessas operações chamaram a atenção dos investigadores, especialmente pela aparente incompatibilidade entre os volumes registrados e a utilização regular da frota.
A polícia trabalha para esclarecer se houve atuação coordenada entre funcionários responsáveis pelo controle dos abastecimentos e pessoas externas à concessionária, além de identificar como os valores e combustíveis supostamente desviados teriam sido distribuídos.
Bloqueio patrimonial busca garantir recuperação de valores
As medidas autorizadas pela Justiça têm como finalidade impedir a eventual dissipação de patrimônio, preservar provas e assegurar condições para o ressarcimento dos prejuízos, caso as suspeitas sejam confirmadas.
O bloqueio de contas e as restrições sobre veículos integram essa estratégia de preservação patrimonial, enquanto as buscas pretendem localizar documentos, registros eletrônicos e outros elementos capazes de esclarecer a dinâmica das operações investigadas.
A Polícia Civil também busca individualizar a conduta de cada suspeito, identificando eventuais responsabilidades na autorização dos abastecimentos, na movimentação dos cartões e na destinação dos recursos.
A investigação prossegue para determinar a extensão do esquema, a efetiva dimensão das perdas financeiras e a participação de cada um dos envolvidos. As irregularidades apontadas até agora permanecem sob apuração, sem conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal dos investigados.




