Deputado volta à disputa pela Câmara após restrições impostas pelo STF; situação de Mauro Carvalho na Casa Civil amplia incerteza no grupo governista, enquanto Pivetta busca um novo vice a poucos dias do início oficial da campanha
A arquitetura eleitoral construída pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos) para disputar a reeleição em Mato Grosso sofreu uma reviravolta em pouco mais de uma semana. Escolhido no início de agosto para ocupar a vaga de vice, o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) confirmou nesta terça-feira (11) que deixará a chapa majoritária e voltará a concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados. A mudança ocorre depois dos desdobramentos da Operação Heritage, da Polícia Federal, que atingiu personagens centrais do grupo político que governou o Estado nos últimos anos.
A crise também alcança o suplente de senador Mauro Carvalho, primeiro suplente de Wellington Fagundes e secretário-chefe da Casa Civil no governo Pivetta. Carvalho, que vinha exercendo papel estratégico tanto na administração quanto na articulação política do grupo, tornou-se um dos personagens diretamente afetados pela investigação e pelas medidas cautelares determinadas no caso. Oficialmente, o Senado ainda o identifica como primeiro suplente de Wellington Fagundes.
De vice respaldado por prefeitos a candidato novamente à Câmara
A mudança de cenário foi abrupta. Em 3 de agosto, Pivetta havia definido Fábio Garcia como candidato a vice-governador depois de uma articulação que, segundo o próprio grupo, reuniu o apoio de 122 prefeitos. A indicação representava uma aposta na capacidade política e na capilaridade municipal do deputado e consolidava a participação do União Brasil na chapa governista.
Três dias depois, em 6 de agosto, a Polícia Federal deflagrou a Operação Heritage. A investigação apura suspeitas relacionadas ao pagamento de aproximadamente R$ 308 milhões decorrente de um acordo envolvendo o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi. A operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em quatro Estados e atingiu, entre outros nomes, Fábio Garcia, o ex-governador Mauro Mendes e pessoas vinculadas ao núcleo político e empresarial do grupo.
As medidas autorizadas no âmbito da investigação produziram um efeito que ultrapassou o campo jurídico e atingiu diretamente a organização eleitoral. Entre as restrições noticiadas está a proibição de comunicação entre integrantes investigados, criando obstáculos práticos para uma campanha cuja coordenação dependia justamente da interlocução entre Mauro Mendes, Fábio Garcia e Mauro Carvalho.
Foi essa dificuldade que Fábio Garcia apresentou publicamente como uma das razões para deixar a composição majoritária. Ao anunciar a decisão, afirmou que atenderia ao pedido das lideranças partidárias e retomaria o projeto de reeleição para deputado federal.
“Eu vou voltar a ser candidato a deputado federal, essa é a definição”, declarou Garcia nesta terça-feira.
Pivetta tenta conter danos e recuperar o comando da chapa
A saída de Garcia encerra, ao menos formalmente, um impasse que havia se instalado no centro da campanha governista. Reportagens publicadas nas últimas horas apontaram divergências entre Pivetta e o ex-governador Mauro Mendes sobre a conveniência de manter o deputado na vice depois da Operação Heritage. Enquanto o governador avaliava a necessidade de reduzir a exposição política da chapa, Mendes resistia à substituição de um de seus principais aliados.
A tensão chegou a colocar em dúvida a própria estabilidade da aliança que sustenta a tentativa de reeleição de Pivetta. Nos bastidores, veículos de Mato Grosso relataram discussões sobre eventual retirada de apoios partidários e até a possibilidade de mudanças mais profundas nas candidaturas majoritárias. Essas informações, entretanto, foram atribuídas a fontes políticas e não chegaram a se materializar em desistências oficiais.
Ao confirmar a saída de Garcia, Pivetta procurou apresentar a decisão como resultado de um entendimento coletivo.
“Foi uma decisão de consenso do nosso grupo todo”, afirmou o governador.
Pivetta também manifestou confiança pessoal nos aliados atingidos pela investigação e demonstrou preocupação com os efeitos políticos do episódio. A posição sinaliza uma estratégia delicada: alterar a chapa para reduzir o impacto eleitoral da crise sem transformar a substituição de Fábio Garcia em um julgamento antecipado sobre os fatos investigados.
Mauro Carvalho passa ao centro da crise política
A situação de Mauro Carvalho acrescenta outra camada de incerteza ao núcleo governista. Primeiro suplente do senador Wellington Fagundes, Carvalho retornou à Casa Civil no início do governo Pivetta e assumiu novamente uma das funções mais influentes do Palácio Paiaguás, responsável pela interlocução política do Executivo. Antes disso, já havia sido escolhido para participar diretamente da organização da campanha de Pivetta.
A Operação Heritage, porém, atingiu também Carvalho e integrantes de sua família. Em manifestação divulgada depois da operação, ele negou envolvimento nas irregularidades investigadas e afirmou não ter recebido benefício relacionado ao acordo sob apuração.
“Tenho convicção de que, ao final de todo o processo, o caso será esclarecido e a minha inocência e da minha família será comprovada”, declarou.
Nesta terça-feira, diferentes veículos passaram a noticiar que Carvalho deixaria a Casa Civil. O Folhamax informou que o secretário havia decidido sair do posto, enquanto outras publicações chegaram a apontar nomes para substituí-lo. Entretanto, em declaração publicada pelo MidiaJur também nesta terça, Carvalho respondeu que não havia definição formal sobre a mudança: “Nada definido”. Até o início da tarde, não havia sido localizada publicação oficial de exoneração no Diário Oficial do Estado nas consultas realizadas para esta reportagem.
A divergência recomenda cautela. Politicamente, porém, independentemente da formalização administrativa, a posição de Carvalho tornou-se mais difícil. A restrição de comunicação entre integrantes do núcleo investigado compromete justamente uma de suas principais atribuições: atuar como articulador entre lideranças partidárias, governo e campanha.
Investigação altera o eixo da eleição
A Operação Heritage modifica uma disputa que, até o início de agosto, caminhava para ser centrada principalmente na avaliação do atual ciclo administrativo e na continuidade do projeto iniciado durante o governo Mauro Mendes e agora conduzido por Pivetta.
Com integrantes importantes desse grupo sob investigação, o debate eleitoral tende a ganhar outro componente. A oposição passa a dispor de um tema de forte repercussão para confrontar a candidatura governista, enquanto Pivetta precisa conciliar a defesa de sua gestão com a necessidade de demonstrar autonomia diante dos acontecimentos envolvendo antigos e atuais aliados.
É necessário ressaltar que a existência de investigação, buscas ou medidas cautelares não representa condenação nem comprovação de culpa. Os fatos permanecem sob apuração e os citados têm direito à ampla defesa. Politicamente, contudo, o impacto já é concreto: em cinco dias, a operação alterou a composição da chapa que disputará o Governo de Mato Grosso e interferiu diretamente no funcionamento do núcleo responsável por sua articulação eleitoral.
Saída de Garcia produz efeito também na disputa proporcional
O retorno de Fábio Garcia à corrida pela Câmara dos Deputados cria ainda uma consequência interna para o União Brasil. Até ser escolhido vice de Pivetta, ele figurava entre os principais nomes da legenda para a eleição proporcional. Sua volta tende a aumentar a competição dentro da própria chapa e exigir redistribuição de estrutura, bases municipais e votos entre os candidatos do partido.
Garcia chega a essa nova etapa como deputado federal em exercício e com uma rede política construída no Estado. A Câmara dos Deputados confirma que ele ocupa mandato pelo União Brasil na atual legislatura.
A mudança, portanto, não representa simplesmente a troca de um nome na vice. Ela desloca uma liderança da majoritária para a proporcional, altera cálculos internos do União Brasil e obriga o grupo governista a encontrar, em prazo reduzido, uma composição capaz de agregar eleitoralmente sem ampliar as tensões surgidas nos últimos dias.
Pivetta procura novo vice às vésperas da campanha
Com Garcia fora, Pivetta anunciou que pretende definir ainda nesta terça-feira o novo candidato a vice-governador. Entre os nomes mencionados nas articulações estão Gisela Simona (União Brasil), o ex-secretário de Fazenda Rogério Gallo e Alessandra Ferreira, ligada ao Podemos. Até o início da tarde desta terça-feira, entretanto, não havia anúncio oficial do escolhido.
A preferência por uma mulher voltou a aparecer nas negociações, retomando uma hipótese discutida antes da definição por Fábio Garcia. Essa alternativa permitiria a Pivetta apresentar uma mudança de perfil na chapa e, simultaneamente, buscar novos equilíbrios dentro da coalizão.
O governador entra, assim, em uma fase decisiva da eleição. A campanha oficial começa em 16 de agosto, reduzindo o espaço para negociações prolongadas. Além de escolher o novo vice, Pivetta terá de reorganizar a coordenação política, administrar as repercussões da Operação Heritage e preservar uma aliança que mostrou sinais públicos de tensão justamente quando a disputa eleitoral se aproxima de sua fase mais intensa.
Em pouco mais de uma semana, uma chapa apresentada como demonstração de unidade passou por sua primeira grande ruptura. Fábio Garcia retornou ao projeto de deputado federal; Mauro Carvalho viu sua posição política e administrativa entrar em zona de incerteza; e Otaviano Pivetta, antes concentrado em ampliar alianças para a reeleição, passou a enfrentar a necessidade imediata de reconstruir o núcleo de sua campanha.
O desfecho da escolha do novo vice indicará se a crise será absorvida como uma reorganização pontual ou se marcará uma mudança mais profunda na correlação de forças da eleição de 2026 em Mato Grosso.



