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Onde Mora a Sorte – Por Wilton Emiliano Pinto *

Redação
19 de setembro de 2026 às 13:32
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Onde Mora a Sorte – Por Wilton Emiliano Pinto *

IA

A gente passa a vida ouvindo falar em sorte.
Fulano ganhou na loteria: sorte.
Beltrano escapou de um acidente: sorte.
Ciclano encontrou um velho amigo numa esquina qualquer… coincidência?
Não. Sorte.

A palavra surge fácil, quase automática, como se fosse capaz de explicar tudo aquilo que não compreendemos muito bem.

Mas será que a sorte é mesmo isso tudo?

Outro dia, peguei-me pensando no assunto.
Daqueles pensamentos que chegam sem convite, mansamente, quando a vida já não exige tanta pressa.

Lembrei-me das inúmeras vezes em que ouvi alguém dizer:
Você é um homem de sorte.

E fui voltando no tempo.
Lá na fazenda, ainda menino, eu acordava com o cantar do galo, antes mesmo de o sol surgir por trás das árvores.
Havia o cheiro do curral, o leite recém-tirado, ainda quente, o orvalho brilhando sobre a relva.
Tudo era tão natural, tão presente, que parecia não ter valor algum.

Hoje, olhando para trás, pergunto-me: não era sorte?

Naquele tempo, ninguém chamava aquilo assim.
Sorte, para nós, era ganhar dinheiro, enriquecer, mudar de vida de uma hora para outra.
E, no entanto, a própria vida já estava ali, inteira, oferecendo seus presentes mais simples.

Depois vieram os anos da juventude, os estudos, o trabalho, as responsabilidades.
O mundo se abriu diante de mim, mas também ganhou peso.

E foi justamente nessa fase que mais ouvi falar em sorte.
Você deu sorte nesse emprego.
Teve sorte com essa oportunidade.

Eu aceitava os comentários sem discutir.
Mas, no fundo, sabia que havia algo além da sorte.
Havia esforço, escolhas, persistência.
Havia um caminho percorrido.

Com o passar dos anos, aprendi que a sorte raramente é um presente que simplesmente cai do céu.
Muitas vezes, ela é um encontro.
Um encontro entre aquilo que a vida oferece e aquilo que estamos preparados para receber.

Quantas oportunidades passam diante de nossos olhos sem serem percebidas?
Quantas portas permanecem entreabertas, aguardando apenas um gesto de coragem?
E quantas vezes deixamos de atravessá-las por medo, dúvida ou distração?

Talvez, nesses momentos, a sorte estivesse ali.
Apenas não foi reconhecida.

Existe ainda uma outra sorte.
Mais discreta.
Mais silenciosa.
Ela não faz barulho.
Não chama atenção.
Não vira notícia.

É a sorte de ter com quem conversar ao final do dia.
De conservar lembranças que ainda aquecem o coração.
De olhar para trás e perceber que, apesar dos tropeços e desvios, a caminhada valeu a pena.
Essa sorte não depende de números nem de apostas.
Ela se constrói.

Hoje, quando ouço alguém falar em ganhar na loteria, compreendo perfeitamente o encanto.
Quem não gostaria de ver a vida facilitada de repente?

Mas também sei que essa sorte é rara e, muitas vezes, passageira.
A outra, não.
A outra permanece.

Mora nas pequenas coisas, nos afetos cultivados, nos instantes que, quando acontecem, parecem comuns, mas que o tempo, com sua sabedoria e paciência, transforma em tesouros.

Talvez a sorte seja justamente isso.
Não apenas aquilo que nos acontece por acaso, mas aquilo que aprendemos a reconhecer como valioso.

E, no fim das contas, pode até ser que não tenhamos ganhado na loteria da vida.
Mas, se pararmos um pouco, se olharmos ao redor com calma e sem pressa, talvez descubramos que nunca estivemos, de fato, sem sorte.

Wilton transforma o cotidiano em pausa, sentido e palavra.

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