Estrada é rasgo na terra com destino certo, definido por algum interesse, muitas vezes mesquinho, afigurado como necessidade de muitos; porque, poderoso, o interesse faz a estrada ser o caminho de quem precisa sobreviver – caminho assim, é só estrada, necessária. Caminho é feito de pés e sonho bom, que se abre ao corpo-e-alma para um caminhar de indagações e espantos e desvelamentos, quando o olhar vê e enxerga horizontes desabrochando em amanheceres diversos: estar a caminho é tragar distâncias num passo sem o compasso da pressa de chegada – porque vai-se conhecendo as minudências dos dias, que só o Sol e a Terra e os Ventos e Brisas e as Nuvens sabem formar: tais que, até a chuva, quando estende suas cortinas de prata transparentes no amanhecer e nas tardezinhas, deixa nesgas, frestinhas, por onde passa a claridade…
Diz-se que, nesse tempo, olhos acostumados gozam: ali veem mais belezas vicejando, formando encantos, desde os silêncios dos que aprenderam a enxergar, de tanto ouvir. Sim, o caminhante vai ouvindo o que ouvidos moucos desconhecem ouvir; soubessem, ouviriam sementinhas se abrindo em ais de parto, no brotamento dos cerrados e dos campos, dos varjões e dos pampas e das matas – daí que o olhar do caminhante vai se fazendo de outro enxergar, porque ouve e sente antes de os dizer às gentes e ao léu: que é quando aprende mais, ouvindo reverberado o que disse, remoidamente…
– O moço vem de onde? Perguntou o velho Anastácio ao homem que se sentara num tamborete, que lhe foi oferecido na varanda da casa. Tinha suor e poeira fina na face, afigurando o cansaço do caminhar; na sombra boa da casa descansava, bebendo água fresca em goles compassados, aos sorvos: o corpo inclinado pra frente, com os braços apoiados nas pernas, segurando o caneco, e, ao lado, o saco de viagem deitado ao chão. Ele levantou o olhar manso para o velho e sua senhora, reparou no rapaz e nos dois meninos que ladeavam os pais: –Na verdade, eu venho de muito andar; de jeito que não venho de lugar meu nenhum: não tenho! A esposa e os filhos olharam para o velho, esperando dele palavras que os fizessem entender o falar diferente do estranho, cujos modos, davam que parecia vir de longe, e a caminho para mais longe, sem termo; de resposta, Anastácio lhes deu o silêncio das sabedorias, deixando-os no desamparo das próprias indagações: “Se for doido, pelo jeito, é doido manso…”, “Esse fii de Deus, vem é de muito se doer na vida…”, diziam-se…
Nenhuma palavra se disse. No Sertão não se gastava palavra atoa, pra enchimento de conversa: “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”; sim, tinha-se que é na quietude das coisas, que os mistérios dormem: ali, no ver devagar e pensar sem pressa, e por um ou outro perguntar, é que se cultiva o saber. A tarde de ventinho fresco caía devagar, como a se espreguiçar no pouco tempo de sol restante, pra se dar à noite friorenta de junho. Então, o velho desanuviou o olhar, desfranziu o semblante e, à vista do que viu e sentiu do caminhante, ordenou ao filho mais velho: – Romão ata uma rede na casa do pilão: o moço carece de descansar! O caminhante ouviu a ordem e esfregou o rosto com as mãos em concha, depois, juntando-as ao peito, à moda dos suplicantes, disse em prece, agradecendo: –Que esta casa e suas vidas sejam sempre abençoadas…; ao que o velho respondeu: –Amém!
A pequena fazenda do velho Anastácio não tinha indicação de nome: divisava-se do resto do mundo pela cerca de pau-a-pique, que o caminho de chão ladeava por centenas de braças, depois, deixava-a no seu estar sossegado, e seguia adiante para o sem fim dos caminhos. Era lugar de chuvas e estiagem reguladas às necessidades da terra, para a criação e as plantas e aos bichos todos, num preparo ao natural, conforme os prazos para o trabalho se fazer comida e conforto, no riso-alegria de folhas e frutos e sombra e cores e sons, necessários – inclusive cantigas, nos festejos do santo devotado: São José. Ali ele estava desde menino, quando chegou com os pais e outros parentes, que se assentaram em sítios mais adentrados. Ainda rapazote, casou com Adelina, aparentada, filha de um tio que chegou depois e se apossou de um sítio a seis léguas dali; aí, por gosto dos pais, trouxe-a pra morar com eles, suprindo a falta da única irmã que, casando-se quase no mesmo tempo, foi morar com o marido noutro sítio. Ali se fez gente, moldado pelo esforço nos afazeres ensinados pelos pais e os mais, nascidos das necessidades surgidas quando se fez marido e pai: mais não precisou, senão, para polir o próprio ser, exigido mais, desde que enterrou os pais…
Deu ao lugar suas feições e gosto, de jeito a não ter pensamentos para outros destinos e modos de ser e, assim, com a mulher e os filhos fizeram-se à semelhança do lugar: era parte das paisagens, como se ali tivessem brotado com as árvores mais antigas. E foi que, sem a necessidade dos avarentos e sem ensinamentos de escola pra desejos diversos, deram-se por horizonte o que ergueram por si, com gosto, conformados no próprio viver, porque é na dificuldade do viver, que a gente se enxerga, em dor e riso, e atina ou desatina, queda-se satisfeito ou sai à procura do quem nem sabe direito ser…
No quase crepúsculo, com o sol derramando sua vermelhidão dourada no descampado de varjões naturais, quando o gado já caminhava para o malhador, juntando-se em aconchegos para ruminar os silêncios da noite – Dona Adelina serviu a janta, esmerando a seu modo na arrumação da mesa, estendeu uma toalha de bordas enfeitadas com renda de bilro, distribuiu seis pratos azulados de ágata, uma colher ao lado de cada um; depois, trouxe uma panela grande com fundo encarvoado cheia de carnes e legumes cozidos, e pôs no meio da mesa; outra com arroz branco, mais uma tigela de alumínio com feijão gordo e, por fim, uma cuinha de cabaça com farinha de puba: –Pode vim cumê! Anastácio sentou-se à mesa e, antes de se servir, mandou um dos meninos ir chamar o caminhante pra se juntar a eles; o menino foi: –O homi tá dormindo, pai… Com todos à mesa, o velho começou a se servir, dizendo: –Quando o corpo tá com sustança, mas cansado, a comida que é mais preciso, é o descanso mesmo: dexa ele drumir!
Na rede larga, o caminhante dormiu sono solto, profundo; acordou quando os galos iniciaram suas tessituras do dia, na alta madrugada. Sem se levantar, auscultou o lugar, sentindo os cheiros e sons, tateando com as mãos e o corpo todo, o derredor: lembrou-se de onde estava, divisou no lusco-fusco um pilão e traias do trabalho diário dependuradas em vigas e caibros, outras dispostas num velho banco de madeira, no que foram cadeiras, além de umas ferramentas no chão. Aconchegou-se mais na rede, a olhar o teto de palha, mal vendo o trançado dos talos das palhas nas ripas de taboca; quis se levantar e retomar o caminho antes que Anastácio e os seus se levantassem, mas, um desânimo incomum o prendeu à rede: perdeu-se em pensamentos sem querer pensar, em se esvaziar de si e ser leve como as sementes da paineira que viu voando, levadas pelo vento manso, planando – aí, adormeceu novamente…
–Seu minino! Seu minino! Anastácio chamava o caminhante, quase gritando e sacudindo os punhos da rede, tentando acorda-lo. Como se sonhasse, o caminhante via o esforço do velho tentando acordá-lo, a sacudi-lo, num quase desespero; era de jeito que, na situação tribulosa, via-se dividido em dois: no que permanecia deitado, sem ânimo, e outro: este que tudo via, e nada sentia, num estado de leveza tal, que planava sem o peso sequer da própria carnalidade. Este era o que existia, vendo-se pelo que sempre fora, mas ali, sem mais nada poder ser; era como um em si, sendo sem necessidade de nada do que sempre fora necessário para existir. Assim, na atribulação, com fôlegos curtos e demorados entre si, rareando mais e mais, tentava perguntar ao velho a razão do seu desespero, de querer acordá-lo – se só estava a descansar. E tentava dizer-lhes isto e mais, mas, nem as palavras, nem os gestos seus, tocavam-lhes qualquer dos sentidos…
À vista daquilo, o caminhante se tateou e, também ele, não se sentia a si mesmo: era translúcido, uma imagem a afigurar um corpo etéreo, sem a carnalidade pulsante, com forma e ossos e respirar; curvou-se ao chão, para trazer às costas o saco de viagem que estava ao pé da rede, mas, as mãos atravessavam a materialidade do tecido sem nada aluir: nada ele fazia movimentar, nada tangia. Aí, viu Anastácio e os seus, depois daquela afobação de esforços sem frutos sobre seu corpo, quedarem-se incrédulos ao redor da rede, silentes, a olhá-lo afundado num aconchego bom, de sono profundo, sem um movimentozinho que fosse – então, o velho fez o Pelo Sinal, a mulher e os filhos acompanharam-no no gesto e o ouviram dar a ordem ao mais velho: –Arreie cavalo e vá dizer do aconticido a Mané Preto, João da Orora, Cumpade Azeredo: dali volte, mas diga a ele, Azeredo, pra mandar avisar os outros de mais longe…
O caminhante se vendo inerte na rede, sentiu entristecimento se esparramando nos olhares e gestos, e a atmosfera da casa leve e terna se carregar pesadamente; quis se ir dali, queria retomar o caminho, ir-se para a busca a que estava dado inteiro: mas, quede a bagagem sua, o sentido que o fizera caminhar, a finalidade além, o horizonte imaginado? Aí, olhou longamente o sol que já se elevara sobre as árvores e entrava vivo e quente na casa, a aquecer os bichos no terreiro; viu sem sentir, que a luz o atravessava sem óbices nem deixar sinais…
O sol já pendia pro Oeste, um tropel de cascos, de gente apressada fustigando animais montados, ouviu-se chegando: dava-se que o que fora dar o recado estava de volta, acompanhado de mais gente…
(Continua, depois…)


