Há pensamentos que nunca aparecem quando estamos correndo.
Eles preferem chegar devagar…
Quase sempre no silêncio.
Foi assim naquele fim de tarde.
Estava sentado na barranca do Rio do Peixe.
As águas deslizavam tranquilas, como se conhecessem aquele caminho desde a criação do mundo.
Não havia relógio.
Não havia pressa.
Só o rio.
O vento.
Os pássaros.
E eu.
A brisa passeava entre as folhas.
De vez em quando, uma delas se desprendia do galho e vinha flutuando até tocar a correnteza.
Parecia uma despedida.
Ou talvez um reencontro.
Foi então que uma pergunta atravessou meus pensamentos.
Daquelas que chegam sem pedir licença.
Será que a natureza também reza?
Não uma oração feita de palavras.
Rios não conhecem discursos.
Árvores jamais aprenderam salmos.
Flores nunca estudaram liturgias.
Mesmo assim…
Existe uma oração muito mais antiga do que todas as que os homens já escreveram.
O sol nasceu sem anunciar sua chegada.
Apenas afastou a escuridão.
Como faz desde o primeiro amanhecer.
O vento percorreu os campos.
Acariciou a superfície do rio.
Espalhou o perfume da terra molhada.
E seguiu seu caminho em silêncio.
Os pássaros cantavam.
Não para serem ouvidos.
Cantavam porque nasceram para cantar.
As árvores permaneciam firmes.
Oferecendo sombra.
Abrigo.
Vida.
Até para quem jamais lhes agradeceria.
E o rio…
Ah, o rio…
Continuava seguindo seu caminho.
Vencendo as pedras.
Abraçando as curvas.
Sem jamais perder o rumo.
Naquele instante compreendi que toda a criação vive em permanente estado de oração.
As estrelas rezam iluminando a noite.
As flores rezam desabrochando.
As abelhas rezam trabalhando.
As formigas rezam cooperando.
O mar reza quando abraça a praia.
A chuva reza quando desperta a semente adormecida.
Nada busca reconhecimento.
Nada exige recompensa.
Tudo apenas cumpre sua missão.
Foi então que minha reflexão mudou de direção.
Como muda o curso de um rio ao encontrar uma curva.
E nós?
Será que Deus espera apenas as palavras que saem da nossa boca?
Ou escuta, principalmente, aquilo que fazemos?
A mãe que passa a noite ao lado do filho enfermo…
Está rezando.
O agricultor que prepara a terra para alimentar famílias…
Também.
O professor que ensina com dedicação.
O médico que devolve esperança.
Quem consola um coração aflito.
Quem estende a mão sem esperar retorno.
Quem perdoa quando tudo convidava ao ressentimento.
Quem trabalha honestamente.
Quem faz o bem mesmo quando ninguém está olhando.
Quem espalha paz por onde passa.
Cada um desses gestos sobe aos céus.
Como uma oração silenciosa.
Ali, sentado à beira do Rio do Peixe, percebi que Deus compreende as atitudes muito antes dos discursos.
E que, muitas vezes, escuta o coração antes mesmo dos lábios.
Antes de ir embora, fiquei observando a correnteza desaparecer na curva seguinte.
O rio continuava falando…
Sem dizer uma única palavra.
Foi quando entendi.
Existem orações que os ouvidos não escutam.
Mas Deus, certamente, ouve.
Desde aquele dia, tenho pensado nisso.
Talvez a melhor oração não seja aquela que pronunciamos de joelhos.
Mas a que escrevemos, todos os dias, com nossas escolhas.
Com nossas mãos.
Com nosso amor.
Porque uma vida dedicada ao bem…
Também é uma prece.
Daquelas que Deus escuta antes mesmo que qualquer palavra seja pronunciada.
Ou, quem sabe…
A única que nunca termina com um “amém”.




