Denise Cosco, que depôs contra o próprio pai pela morte da mãe, morreu aos 35 anos após cair de um prédio na região de Roma
Um caso que reúne violência mafiosa, proteção de testemunhas e uma história familiar marcada por anos de conflitos voltou a chamar a atenção das autoridades italianas. Denise Cosco, filha de Lea Garofalo, testemunha de Justiça que foi assassinada pela organização criminosa ‘Ndrangheta, morreu aos 35 anos depois de cair do prédio onde vivia em Ariccia, na região metropolitana de Roma.
A morte ocorreu em setembro e, segundo informações divulgadas pela imprensa italiana e confirmadas pela agência ANSA, Denise chegou a ser hospitalizada antes de morrer. Ela estava sob medidas de proteção do Estado italiano por ter testemunhado contra o pai, Carlo Cosco, responsabilizado pelo assassinato de Lea.
A investigação da Procuradoria de Velletri busca esclarecer as circunstâncias da morte e também verificar se houve contatos recentes entre Denise e o pai, que permanece preso cumprindo condenação pelo homicídio de Lea Garofalo. Para isso, os investigadores apreenderam o celular da mulher e analisam outras informações eletrônicas.
Um colar ajudou a identificar os restos da mãe
A história de Denise foi marcada desde a adolescência pela violência atribuída ao próprio núcleo familiar. Em novembro de 2009, Lea Garofalo foi assassinada depois de colaborar com as autoridades italianas e fornecer informações relacionadas às atividades criminosas do marido, Carlo Cosco, ligado à ‘Ndrangheta.
Denise havia acompanhado os acontecimentos que envolveram a mãe e posteriormente prestou depoimento contra o pai e o então namorado, Carmine Venturino. A investigação e o processo judicial apontaram que Lea foi sequestrada, torturada e morta, tendo seu corpo ocultado após o crime.
A identificação dos restos mortais de Lea só ocorreu anos depois. Denise reconheceu a mãe por meio de um colar encontrado entre os restos carbonizados.
“Quando me mostraram o colar entre os restos dos ossos carbonizados dela, soube imediatamente que era dela e que ela havia dado a vida para me salvar”, disse Cosco mais tarde. “Nunca poderei agradecê-la por isso.”
Denise também entrou no programa de proteção
Depois de testemunhar contra o pai, Denise passou anos vivendo sob identidade fictícia dentro do sistema italiano de proteção a testemunhas. A medida tinha como objetivo preservar sua segurança diante das ameaças relacionadas ao processo contra integrantes da organização criminosa.
Ela permaneceu durante anos afastada da vida que conhecia e sob uma identidade criada pelo Estado. A mãe, antes dela, também havia recorrido à proteção estatal, mas deixou o programa pouco antes de ser assassinada.
A trajetória de Lea tornou-se um dos casos mais conhecidos de mulheres que romperam com famílias ligadas à criminalidade organizada na Itália. Depois de denunciar o ambiente criminoso em que vivia, ela passou a ser considerada uma testemunha de Justiça e símbolo de resistência à máfia.
Depoimento contra o pai marcou processo
Denise testemunhou no processo relacionado ao assassinato da mãe. Seu depoimento contribuiu para a responsabilização dos envolvidos, mesmo antes da localização dos restos mortais de Lea.
Carlo Cosco e Carmine Venturino foram condenados pela participação no crime. A condenação de Venturino posteriormente passou por alteração, enquanto Carlo permanece detido. Segundo a ANSA, o pai continua preso em Asti cumprindo pena pelo assassinato de Lea.
No funeral da mãe, realizado em outubro de 2013, Denise falou protegida por um vidro à prova de balas. Na ocasião, prestou uma homenagem a Lea.
“Este é um dia muito difícil para mim, mas você me deu forças”, disse sobre a mãe. “Nunca vou parar de lhe agradecer.”
A história das duas mulheres passou a ser lembrada em diferentes locais da Itália. Em Petilia Policastro, município de origem da família, Lea e Denise são recordadas como figuras associadas à ruptura com a cultura mafiosa.
Investigação apura circunstâncias da morte
A morte de Denise provocou novas perguntas sobre as condições oferecidas pelo sistema italiano às pessoas que colaboram com a Justiça em processos envolvendo organizações criminosas.
A investigação atual não estabeleceu que a máfia tenha provocado diretamente a morte da mulher. Os investigadores procuram determinar, entre outras questões, se Denise havia recebido ameaças ou mantido contato com pessoas relacionadas ao caso da mãe.
O telefone e os equipamentos eletrônicos dela estão entre os elementos analisados pelas autoridades. Também está sendo verificada a natureza da relação que Denise teria restabelecido com o pai nos últimos tempos.
O pai, por intermédio de seu advogado, afirmou que os dois haviam começado a se reconciliar, segundo relatos da imprensa italiana. Até o momento, não foram divulgados detalhes suficientes para esclarecer a natureza ou a extensão dessa aproximação.
O marido de Denise estava na residência no momento da queda e foi ouvido pelos investigadores, mas não é tratado como suspeito, segundo as informações disponíveis.
Especialistas apontam dificuldades da proteção estatal
A situação reacendeu a discussão sobre o funcionamento do programa italiano de proteção a testemunhas e sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas que rompem com organizações criminosas.
Segundo dados mencionados no material, aproximadamente 6 mil pessoas integram o sistema italiano de proteção. O modelo prevê mecanismos como identidade fictícia, moradia, emprego e uma nova história pessoal que possa resistir a eventuais verificações.
A promotora antimáfia Alessandra Cerreti, que atua com colaboradores da Justiça, destacou as dificuldades enfrentadas pelos investigadores para avaliar rapidamente a credibilidade e as condições de segurança de quem decide abandonar uma organização criminosa.
Pela legislação italiana, os investigadores dispõem de 180 dias para avaliar informações apresentadas por potenciais colaboradores e verificar sua consistência. A proteção, quando concedida, passa posteriormente por reavaliações periódicas.
“Temos um período curto para compreender toda a situação”, disse Cerreti à CNN Internacional, acrescentando que frequentemente há restrições orçamentárias e falta de testemunhas que corroborem as declarações, sobretudo logo depois que alguém foge da família mafiosa.
Os colaboradores recebem um local para morar, uma identidade falsa, um emprego e um histórico de vida que possa ser confirmado caso alguém investigue, mas vivem com pouquíssimo dinheiro e raramente se sentem seguros, disse Cerreti.
Lea deixou a proteção antes de ser assassinada
Lea Garofalo também passou por dificuldades enquanto estava sob proteção estatal. Ela chegou a esconder Denise em conventos e pequenas cidades italianas para afastá-la do ambiente ligado à família criminosa.
Em 2009, porém, decidiu deixar o programa. Entre os motivos apresentados estavam as “dificuldades financeiras” e a “ameaça constante de ter a proteção retirada”.
A legislação italiana prevê a retirada da proteção quando as informações apresentadas pelo colaborador não conseguem ser confirmadas ou quando as autoridades deixam de identificar uma ameaça concreta.
“Se tivéssemos mais tempo, poderíamos proteger melhor aqueles que decidem falar, o que tornaria mais fácil para outros fazerem o mesmo”, disse Cerreti. “Mas muitas vezes parece tão arriscado fugir quanto permanecer.”
Advogada fala em consequências que vão além da violência
Enza Rando, advogada que auxiliou Denise no processo contra o pai e o então namorado, também questionou a estrutura de proteção oferecida pelo Estado às pessoas que enfrentam grupos criminosos.
Para Rando, as consequências da atuação das organizações mafiosas não se limitam aos crimes diretamente praticados por seus integrantes e podem alcançar familiares e pessoas que permanecem ligadas às vítimas.
“A máfia mata de muitas maneiras. Ela mata criando verdadeiros monstros na vida daqueles que são deixados para trás”, afirmou Rando.
O procurador da República de Nápoles, Nicola Gratteri, também comentou o impacto da morte de Denise. Segundo relatos divulgados na Itália, ele afirmou que o caso representa um golpe para o trabalho de combate ao crime organizado e pode influenciar a decisão de outras pessoas que cogitem colaborar com a Justiça.
Giuseppe Carini, testemunha protegida que vive sob identidade fictícia após colaborar em uma investigação sobre o assassinato de um padre contrário à Cosa Nostra, também se manifestou. Em uma carta divulgada por seu advogado, afirmou que Denise havia sido abandonada pelos “mais altos escalões do Estado e do governo”.
“Dizem que testemunhas da Justiça são pessoas corajosas, que Lea e Denise foram mulheres corajosas e que, por isso, jamais morrerão, mas nós não queremos lápides ou epitáfios entalhados em mármore. Testemunhas da Justiça têm o direito sagrado de viver e de ter uma vida normal”, desabafou.
Família mantém memória de Denise
Depois da morte, a tia de Denise, Marisa Garofalo, publicou uma fotografia em que a sobrinha aparece segurando uma camiseta com o nome da mãe.
Como Denise vivia sob identidade protegida, sua imagem permaneceu durante anos fora da exposição pública. A publicação feita pela tia marcou uma mudança após sua morte.
“Agora posso mostrar seus belos olhos”, escreveu Marisa.
“Ninguém mais poderá decidir por você, você não terá mais que se esconder.”
A investigação sobre a morte continua. As autoridades italianas ainda analisam os elementos reunidos para determinar as circunstâncias da queda e verificar se houve algum fator relacionado às ameaças, aos contatos recentes ou à trajetória de Denise como testemunha de Justiça.
Com R7




