Aquisição silenciosa de um nutriente vital
A metformina, pilar do tratamento do diabetes tipo 2 há mais de seis décadas, apresenta um paradoxo clínico: sua eficácia no controle glicêmico é acompanhada por um efeito colateral sistêmico pouco discutido. Estudos desde 1969 demonstram que o fármaco reduz progressivamente os níveis de vitamina B12 no organismo, nutriente essencial para a função neurológica e hematopoiética. A deficiência, quando não identificada precocemente, pode evoluir para neuropatias irreversíveis ou anemia megaloblástica, condições cujos sintomas — fadiga, tonturas e alterações cognitivas — são frequentemente atribuídos ao próprio diabetes.
Mecanismo de depleção: quando cálcio e absorção se tornam incompatíveis
Pesquisas recentes elucidaram o processo: a metformina interfere na ligação dependente de cálcio entre a vitamina B12 e o fator intrínseco, proteína indispensável para sua absorção no íleo terminal. A interação reduz a expressão do receptor cubilina, comprometendo a captação do nutriente. Pacientes com mais de cinco anos de uso contínuo ou doses superiores a 2g/dia apresentam risco até 30% maior de deficiência, segundo meta-análise publicada em 2024.
Diretrizes emergentes: o exame que pode prevenir danos neurológicos
Em resposta ao crescente volume de evidências, sociedades médicas internacionais — incluindo a Associação Americana de Diabetes (ADA) — passaram a recomendar, a partir de 2025, a dosagem anual de vitamina B12 em pacientes em uso prolongado de metformina. O exame, simples e de baixo custo, permite intervenções precoces como suplementação oral ou intramuscular, minimizando sequelas. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) endossou o protocolo em maio de 2026, alinhando-se a protocolos europeus e norte-americanos.
Perfil de risco: quem deve priorizar o monitoramento
Além da duração do tratamento e da posologia, fatores como idade superior a 60 anos, presença de gastrite atrófica ou uso concomitante de inibidores de bomba de prótons aumentam substancialmente o risco. Dados de 2026 indicam que 1 em cada 4 pacientes com mais de uma década de uso contínuo apresentam níveis críticos de B12, mesmo sem sintomas aparentes. A subnotificação persiste devido à normalização de sintomas inespecíficos, como fraqueza muscular ou formigamento, muitas vezes descartados como ‘partes do envelhecimento’.
Perspectivas terapêuticas: alternativas e ajustes posológicos
O cenário atual sugere dois caminhos: a adoção de protocolos preventivos ou a reavaliação do esquema terapêutico. Em casos leves de deficiência, a suplementação com metilcobalamina — forma ativa da vitamina — tem se mostrado eficaz. Para pacientes com diabetes avançado, alternativas como inibidores de SGLT2 ou análogos de GLP-1, que não interferem na absorção de B12, ganham protagonismo. No entanto, a decisão deve ser individualizada, considerando o equilíbrio entre controle glicêmico e riscos nutricionais.

