Relação marcada por elogios públicos não impediu retomada de medidas tarifárias contra produtos brasileiros
Passado o primeiro ciclo de tarifas imposto pelos Estados Unidos, a relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente norte-americano Donald Trump dava sinais de distensão. Após encontros marcados por manifestações públicas de cordialidade, o cenário diplomático voltou a se deteriorar com a decisão da Casa Branca de aplicar uma nova taxação de 25% sobre produtos brasileiros, embora acompanhada por uma ampla lista de exceções.
Apesar do ambiente mais amistoso observado nos últimos meses, especialistas avaliam que a medida mantém um forte componente político, ainda que seja apresentada oficialmente como uma decisão de natureza comercial.
Encontros entre os presidentes foram marcados por demonstrações de cordialidade
O primeiro encontro presencial entre Lula e Trump ocorreu em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Na ocasião, os produtos brasileiros ainda estavam sujeitos à tarifa de 50% anunciada anteriormente pelo governo norte-americano.
Após a reunião, Trump afirmou que os dois tiveram “uma química excelente”, declaração posteriormente confirmada pelo presidente brasileiro.
Nos meses seguintes, os contatos entre os chefes de Estado foram acompanhados por novos gestos de cordialidade. Em outubro de 2025, por exemplo, Trump enviou uma mensagem parabenizando Lula pelo aniversário e o definiu como “cara muito vigoroso”.
Embora o tom entre os dois líderes tenha se tornado mais amigável em encontros internacionais, isso não se refletiu integralmente na condução da política externa. Lula continuou fazendo críticas ao presidente norte-americano durante discursos realizados no Brasil, mantendo diferenças públicas em temas internacionais.
Especialistas apontam permanência de componente político na disputa
Para Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, a nova rodada de tarifas mantém características semelhantes às da primeira ofensiva comercial promovida por Trump.
Segundo a especialista, a decisão representa “um ataque direto a Lula”, ainda que de forma menos explícita do que a primeira medida anunciada pelo governo norte-americano.
No episódio anterior, Trump chegou a divulgar uma carta justificando a taxação dos produtos brasileiros, citando diretamente o processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF).
Na avaliação de Flávia, aquele momento provocou uma ruptura inédita na interlocução entre Brasília e Washington.
“A gente teve um momento, em que os dois chefes de Executivo não tinham um canal de comunicação. Então, foi muito grave o que aconteceu e inédito na história brasileira, e até através do Itamaraty, mesmo entre diplomatas, a situação ficou muito difícil. Aí, depois consegue-se reverter essa situação, a situação melhora”, afirma.
Relação diplomática permaneceu ativa, apesar da nova tensão
Embora reconheça o agravamento das relações, Fernanda Nanci Gonçalves, professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), considera que o atual cenário não configura exatamente uma ruptura diplomática entre os dois países.
Para ela, houve o surgimento de uma nova tensão, mas os mecanismos institucionais de diálogo continuaram funcionando.
Fernanda observa que, mesmo após os encontros entre Lula e Trump em eventos multilaterais, o risco de novas sanções comerciais nunca deixou de existir.
“Porque existe um setor dentro do governo americano que apoia o tarifaço e porque isso faz parte da própria estratégia de política comercial de Trump. O que existiu com a aproximação foi a expectativa de que a partir dali as relações podiam melhorar, mas na sequência já estava ocorrendo a investigação”, explica.
Diplomacia brasileira teria esgotado possibilidades de negociação
Na avaliação das duas especialistas, o governo brasileiro buscou utilizar os instrumentos diplomáticos disponíveis para evitar uma nova escalada comercial.
Fernanda destaca que a controvérsia extrapolou o campo econômico e passou a incorporar fatores políticos e ideológicos.
“No entanto, a disputa ultrapassou o campo comercial tradicional e passou a envolver divergências políticas e ideológicas mais amplas. Nesses casos, mesmo uma atuação diplomática intensa nem sempre é suficiente para evitar a adoção de medidas tarifárias”, afirma.
Ela acrescenta que a ausência de uma pauta clara de reivindicações por parte dos Estados Unidos também dificultou as negociações.
“O governo brasileiro chegou a mencionar que o governo americano não apresentou uma lista de demandas que poderia ajudar nas negociações. Isso tudo dificultava as tratativas e mantinha a possibilidade de sobretaxas pelos EUA, que parecem irredutíveis”, complementa.
Uso da Seção 301 reforça debate sobre motivação das tarifas
Para Flávia Loss, a justificativa comercial utilizada por Washington serve apenas como fundamento formal para uma decisão que, segundo sua avaliação, possui motivação predominantemente política.
Ela lembra que a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos, utilizada como base para as novas tarifas, foi criada em 1974 com objetivo protecionista. Após a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, o instrumento passou a ser empregado apenas em situações bastante específicas.
“Foi utilizada poucas vezes, em 2009, 2013, mas para casos muito pontuais, porque essas discussões sempre foram para o âmbito multilateral. Agora, Donald Trump faz um retrocesso em tudo isso.”
Na sequência, a pesquisadora reforça sua interpretação sobre os objetivos da medida.
“Não dá para a gente ver elementos reais a não ser políticos por trás dessa medida. De fato, continua sendo um ataque direto ao Lula na medida em que tem eleições em vista”, complementa.
Segundo sua análise, a decisão também poderia ser interpretada como uma tentativa do presidente norte-americano de preservar influência política na América Latina durante o período eleitoral brasileiro.
Pesquisa indica reação favorável ao discurso do governo brasileiro
Apesar da nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos, os primeiros levantamentos de opinião indicam que o episódio pode ter produzido efeito diferente do esperado.
Levantamento divulgado pela Quaest na quinta-feira (16) mostra que 49% dos brasileiros concordam com a interpretação apresentada por Lula de que a taxação representa uma retaliação relacionada ao Pix. Outros 33% afirmam concordar com a avaliação do senador Flávio Bolsonaro (PL), que atribui a decisão às declarações feitas pelo presidente brasileiro contra os Estados Unidos.
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