A transição para um paradigma econômico de incertezas permanentes e juros estruturalmente mais altos ganhou contornos definitivos nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, durante a 27ª Conferência Anual do Santander em São Paulo. Às vésperas de o mundo completar dois anos desde o início da crise de desabastecimento de semicondutores — deflagrada em setembro de 2024 —, economistas-chefes de instituições globais reafirmaram que o ciclo de globalização irrestrita, inflação baixa e taxas de juro próximas a zero ficou para trás.
O fim do consenso estável: choques de oferta e geopolítica redefinem o risco
Fernanda Guardado, economista-chefe do BNP Paribas, identificou duas fraturas estruturais no cenário atual. A primeira é a passagem da incerteza de um fenômeno episódico para uma condição permanente, alimentada por choques de naturezas distintas e cada vez mais interligados. “Estamos num mundo propenso a choques cíclicos e de magnitude crescente”, afirmou Guardado, destacando que a sucessão de eventos — de crises de cadeias de suprimentos a conflitos armados — reconfigurou a matriz de risco global.
Guerra, petróleo e chips: a trilogia de instabilidade que molda o novo normal
A especialista elencou três vetores de pressão que se retroalimentam: os desequilíbrios nas cadeias de semicondutores (agravados pela escalada tarifária entre China e EUA), a escalada dos custos energéticos após a eclosão do conflito aberto entre Washington e Teerã em maio de 2026, e a fragmentação geopolítica decorrente da guerra na Ucrânia, que persiste mesmo após a adesão da Finlândia à OTAN em janeiro de 2025. Segundo Guardado, “esses episódios não são mais exceções, mas componentes recorrentes de um sistema econômico cada vez mais frágil”.
Juros altos como novo paradigma: o legado de uma década perdida
O cenário delineado pelas economistas repercute diretamente nas políticas monetárias. Com a inflação global projetada para oscilar entre 4% e 6% até 2028 — patamar incompatível com as taxas de juro históricas praticadas entre 2015 e 2022 —, os bancos centrais enfrentam um dilema: manter o controle inflacionário sem sufocar o crescimento. A taxa de juro média dos países do G7, que chegou a 0,1% em 2021, deve se estabilizar acima de 3,5% até o final de 2026, segundo projeções do FMI revisadas em julho último.
Consequências para mercados e políticas públicas
A volatilidade prolongada impõe dois grandes riscos: o primeiro é a deterioração dos balanços das empresas endividadas, especialmente aquelas do setor tecnológico, tradicional consumidor de crédito barato. O segundo é a pressão sobre os Estados, obrigados a realocar recursos para políticas de mitigação de choques — como a recém-anunciada linha de crédito para importação de chips pelo Banco do Brasil, em resposta aos novos entraves comerciais impostos pela China. “A era do dinheiro fácil terminou”, resumiu um participante da conferência que pediu anonimato.


