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Política

Influência de Eduardo e Carlos Bolsonaro ameaça planos de Flávio para governo moderado e acende alerta no Centrão

Redação
18 de outubro de 2026 às 08:48
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Influência de Eduardo e Carlos Bolsonaro ameaça planos de Flávio para governo moderado e acende alerta no Centrão

Jair Bolsonaro rodeado pelos filhos Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan — Foto: Reprodução/X

Aliados temem que protagonismo dos irmãos comprometa a formação de uma equipe técnica e provoque conflitos na política externa; Eduardo articula espaço no futuro governo, apesar de impedimento jurídico para ocupar ministério

A possibilidade de Eduardo e Carlos Bolsonaro exercerem influência direta sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL) tornou-se um dos principais pontos de tensão nas articulações políticas em torno da candidatura presidencial. Enquanto o senador procura transmitir uma imagem de moderação e sinaliza a intenção de formar uma equipe com perfil técnico, lideranças do Centrão e integrantes da ala pragmática do PL avaliam que a interferência dos irmãos na condução da administração federal poderá ser difícil de conter.

O maior foco de preocupação está em Eduardo Bolsonaro, que, mesmo após perder o mandato de deputado federal e sofrer uma condenação criminal, continua articulando relações internacionais e manifestando interesse em participar das decisões diplomáticas de uma eventual gestão do irmão.

Nos bastidores, o receio é que a influência familiar comprometa a autonomia de ministros, provoque divergências dentro do governo e dificulte a aproximação com setores políticos e econômicos que defendem uma administração menos identificada com as posições mais ideológicas do bolsonarismo.

Flávio tenta preservar liderança do pai sem abrir espaço excessivo aos irmãos

A estratégia desenhada pelo núcleo político de Flávio Bolsonaro prevê uma participação relevante do ex-presidente Jair Bolsonaro nas decisões estratégicas, sobretudo como conselheiro, mas não necessariamente a inclusão de outros familiares em postos de comando.

O presidenciável já transmitiu a interlocutores a intenção de estabelecer critérios políticos e administrativos para a escolha dos ministros, privilegiando profissionais com experiência de gestão e indicações negociadas com partidos aliados.

A tarefa, entretanto, esbarra no peso político da família Bolsonaro, especialmente entre os segmentos mais fiéis ao ex-presidente.

Em entrevista recente à TV Globo, Flávio descartou a possibilidade de indicar Eduardo para o Ministério das Relações Exteriores. Também evitou alimentar especulações sobre uma eventual participação formal do pai, atualmente em prisão domiciliar, ao afirmar que o assunto “não está no radar”.

Renato Bolsonaro, tio do candidato e irmão mais novo do ex-presidente, considera natural que Jair continue exercendo influência nas principais decisões políticas.

“Jair deve ter uma participação importante, como conselheiro. Ele tem experiência”, afirmou.

Eduardo busca protagonismo e provoca resistência na diplomacia

Entre os integrantes da família, Eduardo é apontado como o principal obstáculo à tentativa de conferir um perfil mais institucional a um eventual governo Flávio Bolsonaro.

O ex-deputado mantém contatos com lideranças estrangeiras, particularmente com representantes da direita internacional, e já tornou públicas posições sobre temas sensíveis da política externa brasileira.

Uma de suas propostas é transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, medida defendida por Jair Bolsonaro durante a Presidência, mas que não chegou a ser concretizada.

Eduardo também defendeu uma “faxina” no Itamaraty, direcionada a diplomatas que considera politicamente próximos ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

As declarações ampliaram o desconforto entre integrantes da carreira diplomática e aliados preocupados com a preservação da estrutura profissional do Ministério das Relações Exteriores.

Em vídeo publicado nas redes sociais, Eduardo procurou demonstrar que sua capacidade de interlocução internacional independe de formação acadêmica ou de um cargo formal.

“Já deu para perceber que poder é diferente de diploma na parede. Eu consigo falar com diversas autoridades e me mexer”, declarou.

Na mesma manifestação, afirmou que poderia colocar o irmão na “cara do gol na Casa Branca para falar com (Donald) Trump”.

Para integrantes do entorno de Flávio, declarações dessa natureza alimentam a percepção de que Eduardo pretende assumir uma função política relevante, independentemente de uma eventual nomeação ministerial.

Aliados atribuem a Eduardo papel decisivo na candidatura

Embora enfrente resistência de setores do PL e de partidos do Centrão, Eduardo conta com o respaldo de aliados que consideram sua participação indispensável na construção do projeto presidencial de Flávio.

Para esse grupo, o ex-parlamentar desempenhou uma função estratégica na articulação da candidatura e, por isso, deverá ser ouvido nas principais decisões de um eventual governo.

O empresário Paulo Figueiredo, próximo de Eduardo, sustenta que as resistências partem especialmente de lideranças que inicialmente defendiam a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), à Presidência.

“Caso eleito, Flávio será o presidente. Mas deve a eleição ao pai e ao irmão em uma medida muito grande. O Jair deu o legado e o nome. O Eduardo idealizou e viabilizou a candidatura, se sacrificando pelo irmão quando todos queriam Tarcísio. É natural, então, que ambos tenham uma voz muito grande”, afirmou.

A avaliação expõe uma divergência dentro do próprio campo bolsonarista: enquanto uma parcela dos aliados defende a preservação da influência familiar como reconhecimento da trajetória política do grupo, outra considera necessário estabelecer limites para garantir independência administrativa e ampliar a governabilidade.

Condenação no STF impõe barreira à participação no governo

Além das divergências políticas, uma eventual indicação de Eduardo para ocupar um ministério enfrenta obstáculos jurídicos.

O ex-deputado foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. Com o trânsito em julgado da decisão e a suspensão de seus direitos políticos, ficou impedido de assumir funções ministeriais, conforme as restrições constitucionais aplicáveis.

Aliados de Eduardo, entretanto, alimentam a expectativa de que uma vitória de Flávio na disputa presidencial modifique o ambiente político e permita questionar os efeitos da condenação.

Essa possibilidade, contudo, dependeria de medidas juridicamente válidas e não decorreria automaticamente de uma mudança no comando do Palácio do Planalto.

Articulações internacionais alimentam temor de diplomacia paralela

A atuação de Eduardo no exterior constitui outro ponto de preocupação para o grupo responsável pela estratégia política de Flávio.

Em Washington, o ex-deputado se reuniu recentemente com o presidente da Argentina, Javier Milei, reforçando sua interlocução com lideranças conservadoras internacionais.

Na mesma conjuntura, Eduardo afirmou que o ministro Alexandre de Moraes não permaneceria no Supremo Tribunal Federal caso seu irmão conquistasse a Presidência.

A manifestação ocorreu enquanto outros interlocutores de Flávio procuravam fortalecer canais de comunicação com integrantes da Corte, evidenciando possíveis divergências na estratégia de relacionamento institucional.

Entre auxiliares do candidato, existe o temor de que Eduardo continue estabelecendo contatos internacionais e anunciando posicionamentos próprios, mesmo sem integrar formalmente o governo.

O cenário poderia produzir uma situação delicada para o Itamaraty, com manifestações de um integrante da família presidencial sendo interpretadas por governos estrangeiros como compromissos oficiais do Brasil.

Por essa razão, representantes do núcleo pragmático defendem que a política externa permaneça sob responsabilidade do presidente da República e do ministro das Relações Exteriores, sem centros paralelos de influência.

Centrão cobra espaço e tenta conter interferência familiar

A disputa em torno do papel dos irmãos Bolsonaro também ocorre em meio às negociações para ampliar a sustentação política de Flávio no Congresso Nacional.

Partidos do Centrão interessados em integrar uma eventual administração defendem que os principais ministérios sejam ocupados por nomes capazes de combinar experiência administrativa, interlocução parlamentar e habilidade para construir acordos.

A avaliação desse grupo é que a governabilidade exigirá decisões que ultrapassem os interesses da família Bolsonaro e contemplem uma coalizão partidária mais ampla.

O senador Carlos Bolsonaro, eleito para o Senado, também é mencionado nas conversas internas como uma figura cuja influência poderá pesar nas decisões políticas do irmão.

Embora a participação efetiva dos familiares permaneça indefinida, a discussão já revela as dificuldades que Flávio poderá enfrentar para conciliar as expectativas da base ideológica com as exigências de partidos interessados em compartilhar responsabilidades no Executivo.

Líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ) procura evitar que as divergências sobre a composição ministerial se antecipem ao resultado das urnas.

“Não está na hora de falar de Ministério. Agora é hora de trabalhar muito para ganhar a eleição”, declarou.

A posição reflete a preocupação de parte da direção partidária em impedir que disputas por influência comprometam a campanha na reta final do segundo turno.

Para Flávio Bolsonaro, a questão ultrapassa a definição de cargos. O desafio será demonstrar, caso seja eleito, que poderá preservar o capital político herdado do pai sem permitir que disputas familiares se sobreponham à autoridade presidencial.

A forma como essa equação será resolvida poderá determinar não apenas o perfil de sua eventual administração, mas também o equilíbrio entre a ala ideológica do bolsonarismo e os partidos que pretende reunir em sua base de sustentação.

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