Nova mistura passa a valer neste sábado; governo estima queda de R$ 0,03 por litro, mas especialistas veem impacto limitado
Mistura obrigatória de etanol é ampliada em todo o país
A partir deste sábado (1º), passa a valer em todo o território nacional o novo percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina. A composição do combustível sobe de 30% para 32%, medida que terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período.
A decisão foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em um cenário de pressão sobre os preços internacionais do petróleo, intensificada pelos conflitos no Oriente Médio. A estratégia do governo federal busca reduzir a dependência brasileira das importações de combustíveis e ampliar o uso da produção nacional de etanol.
Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a mudança poderá proporcionar uma redução aproximada de R$ 0,03 no preço do litro da gasolina para o consumidor.
Dados mais recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontam que o preço médio da gasolina comercializada nos postos brasileiros encerrou a última semana em R$ 6,56 por litro.
Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o governo federal tem adotado medidas para conter o avanço dos preços dos combustíveis, incluindo subsídios destinados ao setor.
Especialistas avaliam que efeito no bolso tende a ser reduzido
Apesar da expectativa do governo, especialistas do setor afirmam que a alteração na composição da gasolina dificilmente provocará uma redução significativa nos preços pagos pelos consumidores.
O presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araújo, explica que diversos fatores interferem diretamente na formação dos preços, especialmente a sazonalidade da produção de etanol.
“O preço da gasolina A é volátil e sabemos que a produção de etanol é sazonal, e que nos meses da safra, com grande oferta, existe a tendência de redução de preço, podendo ficar inferior ao preço da gasolina A. Nos meses da entresafra, com a redução da oferta, o preço sobe e fica maior que o preço da gasolina A”, explica Araújo.
O dirigente também ressalta que os custos logísticos do etanol costumam ser superiores aos da gasolina pura, fator que influencia os preços conforme a região do país.
“Com isto, nas regiões mais afastadas das usinas produtoras de etanol, normalmente o preço da gasolina A é menor”, acrescenta presidente da Abicom.
Na avaliação de Fabricio Tonegutti, especialista em direito tributário e diretor da Mix Fiscal, o principal efeito da medida será impedir aumentos mais expressivos, e não necessariamente reduzir o preço do combustível.
“A gente pode experimentar, talvez, uma gasolina com preço mais estável, um pouco menos dependente do preço do petróleo, mas não que vai ficar mais barata”, afirma Tonegutti.
Segundo ele, a ampliação da mistura também fortalece a cadeia produtiva nacional ao incentivar a utilização de etanol produzido no Brasil em substituição a combustíveis importados.
Mudança gera críticas de representantes do setor
Embora reconheçam os possíveis benefícios econômicos e energéticos da iniciativa, representantes do setor defendem que a ampliação do percentual de etanol deveria ter sido precedida por análises mais abrangentes.
“A decisão de elevar o percentual de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% deveria ser precedida de estudos técnicos, ensaios e avaliações necessários para assegurar sua implementação com segurança e previsibilidade”, avalia Araújo.
Fabricio Tonegutti observa que os veículos flex modernos, em sua maioria, já foram desenvolvidos para operar com diferentes proporções de gasolina e etanol. Entretanto, ele destaca que ainda existem preocupações relacionadas aos automóveis movidos exclusivamente a gasolina, especialmente os mais antigos.
“Há uma crítica de parte da indústria dizendo que isso pode gerar problemas e avarias nos motores e nos carros, principalmente os mais antigos”, alerta.
Governo afirma que testes comprovaram segurança da gasolina E32
O governo federal sustenta que a adoção da nova mistura está respaldada por estudos técnicos conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), sob coordenação do Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF).
Em nota oficial, o Ministério de Minas e Energia informou que “Os ensaios avaliaram diretamente a gasolina E32 em veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina, representativos de diferentes idades e tecnologias da frota brasileira”.
Ainda segundo o comunicado, “Os resultados confirmaram o funcionamento adequado dos veículos, sem impactos relevantes no desempenho ou na dirigibilidade”.
Percentual de etanol volta a subir após aumento registrado em 2025
Esta é a segunda elevação consecutiva da participação obrigatória do etanol anidro na gasolina brasileira.
Em junho do ano passado, o percentual já havia sido ampliado de 27% para 30%, após testes realizados pelo governo federal em parceria com representantes do setor apontarem viabilidade técnica para a expansão da mistura.


