Governo Trump condiciona retorno da autorização à aprovação do agrément para novo representante americano em Brasília
Washington endurece posição em disputa diplomática com o Brasil
O governo do presidente Donald Trump anunciou nesta terça-feira (3) a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. A decisão foi apresentada como resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — autorização diplomática necessária para que Daniel Perez assuma oficialmente a chefia da embaixada norte-americana em Brasília.
Na prática, a medida impede a permanência da diplomata em território americano e equivale à sua expulsão do país.
Integrantes da administração norte-americana informaram que o visto da representante brasileira somente voltará a ser válido após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizar formalmente a posse de Perez como novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil.
Marco Rubio volta a criticar governo Lula
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem adotado uma postura crítica em relação ao governo brasileiro e à atuação de governos de esquerda na América Latina.
Após o anúncio de novas tarifas comerciais impostas ao Brasil pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Rubio utilizou as redes sociais para responsabilizar o governo brasileiro pelo agravamento das relações bilaterais.
“o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”.
Na mesma publicação, o secretário também afirmou:
“Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.
Antes desse episódio, Rubio já havia incluído o Brasil entre os países considerados pouco amistosos em relação aos interesses norte-americanos.
Divulgação antecipada de indicação gerou desconforto no Planalto
O impasse diplomático teve início após a Casa Branca tornar pública a indicação de Daniel Perez para comandar a embaixada dos Estados Unidos em Brasília antes mesmo de obter o agrément do governo brasileiro.
Pelas normas tradicionais da diplomacia internacional, o país que pretende enviar um embaixador consulta previamente o governo anfitrião e aguarda sua manifestação antes de oficializar a escolha.
Segundo integrantes do Palácio do Planalto, a decisão de Washington de inverter essa ordem provocou desconforto no governo brasileiro.
Diante desse cenário, aliados do presidente Lula afirmam que não existe urgência para conceder a autorização diplomática, justamente porque os Estados Unidos divulgaram o nome do indicado antes da conclusão dos procedimentos habitualmente adotados nas relações entre os dois países.
Governo teme atuação política durante período eleitoral
Nos bastidores do governo brasileiro, um dos fatores que explicam a demora na análise do agrément seria a preocupação de que Daniel Perez possa desempenhar um papel político durante o processo eleitoral brasileiro, previsto para outubro.
Enquanto aguarda a autorização do Brasil, Perez já avançou nas etapas internas de sua nomeação nos Estados Unidos.
Sua indicação recebeu parecer favorável da Comissão de Relações Exteriores do Senado norte-americano e ainda deverá ser apreciada pelo plenário da Casa nos próximos dias.
Missão americana ao Brasil ampliou tensão entre os governos
O clima de desconfiança entre Brasília e Washington também foi intensificado após a tentativa do Departamento de Estado de enviar, no fim de julho, dois representantes ao Brasil para tratar de temas relacionados à liberdade de expressão e ao processo eleitoral.
A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal The Washington Post.
No Palácio do Planalto, a iniciativa foi interpretada como uma possível tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro.
A avaliação ganhou força porque a missão ocorreria poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, voltar a questionar o sistema de urnas eletrônicas durante encontro com embaixadores.
Posteriormente, Flávio Bolsonaro declarou acreditar que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuará de forma imparcial durante as eleições.
Departamento de Estado nega qualquer tentativa de interferência
Em resposta à interpretação do governo brasileiro, o Departamento de Estado norte-americano negou que a visita tivesse qualquer objetivo de influenciar o processo eleitoral.
Em nota oficial, o governo dos Estados Unidos informou que a missão estava previamente programada para ocorrer entre os dias 27 e 30 de julho, com reuniões envolvendo autoridades brasileiras, representantes religiosos e integrantes da sociedade civil.
Segundo o comunicado, o objetivo era discutir temas relacionados à integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
O governo Trump também rejeitou as acusações feitas pelo Planalto.
“a fim de discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”.
Ao rebater as críticas, a administração norte-americana declarou:
“Qualquer insinuação de que essa viagem seria uma ‘manobra’ para minar a eleição de uma nação democrática é uma mentira sem qualquer fundamento.”
Crise amplia desgaste nas relações entre Brasil e Estados Unidos
A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti representa mais um capítulo do aumento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.
O episódio ocorre em meio a divergências envolvendo comércio exterior, política internacional e o processo de nomeação do novo embaixador norte-americano no Brasil, ampliando o desgaste entre os dois governos em um momento de crescente sensibilidade nas relações bilaterais.

