Nova Jersey concentra uma das maiores comunidades brasileiras, marcada por comércio, cultura e desafios migratórios
Comunidade brasileira em destaque
A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, marcada para este sábado (13) no MetLife Stadium, em Nova Jersey, carrega um simbolismo além do futebol. O primeiro jogo do Brasil no torneio será disputado justamente em uma das regiões que concentram a maior comunidade brasileira dos Estados Unidos.
Há décadas, Nova Jersey, ao lado de Nova York, tornou-se um dos principais destinos da imigração brasileira no país. A maioria dos imigrantes veio de Minas Gerais, estado historicamente ligado ao fluxo migratório para os EUA, e ajudou a transformar bairros inteiros em espaços marcados pela presença da cultura brasileira.
Português domina as ruas de Newark
Em partes de Newark, cidade com cerca de 325 mil habitantes, o português é ouvido com mais frequência do que o inglês. Para muitos moradores, é possível resolver praticamente toda a rotina sem dominar o idioma americano.
O ambiente lembra, em alguns momentos, cidades do interior brasileiro: comerciantes se conhecem pelo nome, frequentam os mesmos estabelecimentos e mantêm uma rede de apoio comunitário bastante ativa.
É o caso de Vera Andrade, de 62 anos, conhecida como “Verinha”, dona do salão Hair Brazil, especializado em mega hair com apliques de cabelo indiano vendidos para clientes americanas pela internet. Natural de Guanhães (MG), ela vive em Newark há 33 anos.
Além de administrar o salão, Verinha trabalha como diarista uma vez por semana, organiza um brechó com roupas doadas por clientes e, quando necessário, também atua como manicure e depiladora. Ela conhece praticamente todos os comerciantes brasileiros da região.
Comunidade pode ser muito maior do que apontam dados oficiais
Segundo o Migration Policy Institute, um dos principais centros de pesquisa sobre migração nos EUA, Nova Jersey é hoje o quarto estado americano com maior número de brasileiros, atrás apenas de Flórida, Massachusetts e Califórnia. As estimativas apontam entre 55 mil e 60 mil brasileiros vivendo no estado.
Fontes diplomáticas brasileiras, porém, afirmam que o número real pode ser muito superior. Para os serviços consulares, a comunidade brasileira em Nova Jersey chegaria a cerca de 200 mil pessoas.
A maior parte da diáspora brasileira nos EUA está concentrada na Costa Leste, onde vivem aproximadamente 1,5 milhão de imigrantes brasileiros.
Clima de Copa toma conta dos bairros brasileiros
Enquanto em Manhattan o clima de Copa ainda parece discreto, em Newark o cenário é diferente. Mesmo sem conseguir comprar ingressos — que no mercado paralelo chegaram a custar mais de US$ 1.200 para a estreia do Brasil — muitos brasileiros se organizam para assistir às partidas em casas, bares e restaurantes.
A cidade espera receber cerca de 200 mil pessoas durante o fim de semana do jogo.
Os sinais da presença brasileira estão por toda parte: empórios vendem paçoca, pão de queijo congelado, arroz Tio João, bombons Ouro Branco e cosméticos nacionais. Lojas exibem biquínis no estilo brasileiro, muitos fio-dental, e camisetas da seleção por quase US$ 80.
Fora do período de Copa, segundo comerciantes locais, as camisas mais vendidas são as do Cruzeiro e do Atlético Mineiro, reforçando o peso da imigração mineira na região.
Por que tantos brasileiros escolheram Nova Jersey?
A explicação passa pela história da própria cidade. Newark se consolidou, entre os séculos 19 e 20, como um importante polo industrial da Costa Leste, com fábricas de couro, cervejarias e forte infraestrutura logística.
Antes dos brasileiros, imigrantes portugueses já haviam formado um enclave linguístico na região. Décadas depois, isso facilitou a chegada de brasileiros, que encontraram uma comunidade onde o português já circulava amplamente.
Pesquisas sobre imigração nos EUA mostram que língua e identidade cultural são fatores decisivos para a integração de recém-chegados, tanto no acesso ao trabalho quanto na formação de redes sociais.
“Aqui, se você entrar nas lojas falando inglês, vai é passar vergonha”
Muitos imigrantes relatam que poder falar português diariamente traz conforto diante das dificuldades da vida no exterior.
“Aqui, se você entrar nas lojas falando inglês, vai é passar vergonha”, diz uma comerciante que prefere não ter seu nome publicado porque ainda está esperando a análise de seu pedido de asilo no país e teme ter a solicitação prejudicada.
Os brasileiros que chegaram após 2010 têm, em média, cerca de 40 anos. Muitos vieram sozinhos, em busca de trabalho para enviar dinheiro às famílias no Brasil e, no futuro, retornar para construir casa ou abrir negócio próprio.
Medo do ICE muda rotina da comunidade
Nos últimos meses, porém, a rotina da comunidade brasileira em Newark mudou drasticamente. Comerciantes e moradores relatam aumento do medo por causa das ações do ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos.
“O pessoal agora está com medo de sair, antes as ruas aqui ficavam cheias”, diz Verinha.
Ela afirma que dois de seus irmãos, que vivem nos EUA em situação irregular há décadas, decidiram retornar voluntariamente ao Brasil em dezembro por receio de deportação.
Comerciantes relatam que agentes do ICE têm realizado operações frequentes nas ruas de Newark. Em resposta, muitos estabelecimentos passaram a manter portas fechadas ou alterar escalas de trabalho para evitar que funcionários sem documentação estejam presentes nos horários de maior movimentação policial.
Churrascarias e comércios sentem queda no movimento
O empresário José Moreira, de 59 anos, natural de Ipatinga (MG), vive em Newark há 37 anos e possui cinco restaurantes na região, incluindo uma churrascaria aberta em 1992.
Segundo ele, o público dos restaurantes é composto hoje por cerca de 35% de brasileiros, 30% de americanos e o restante de outras comunidades latinas. O rodízio continua sendo o carro-chefe da casa.
Mesmo assim, o impacto das medidas migratórias já é percebido no caixa.
“As detenções afetam o nosso trabalho”, diz Moreira, que afirma que 20% do lucro geral dos restaurantes caiu por conta da nova dinâmica de migração linha-dura estabelecida pelo governo de Donald Trump para promover a deportação de imigrantes em situação irregular.
Muitos clientes, afirma ele, deixaram de sair de casa por medo de serem abordados nas ruas.
Prisões de imigrantes e protestos na região
Próximo ao bairro brasileiro fica a Delaney Hall, centro de detenção de imigrantes em Nova Jersey. Segundo relatos locais, entre 20 e 30 brasileiros costumam estar presos ali semanalmente por questões migratórias.
Nas últimas semanas, manifestações foram realizadas nos arredores da unidade para denunciar as condições dos detidos e criticar a política migratória do governo Trump executada pelo ICE. Estima-se que cerca de 4% dos imigrantes detidos nos EUA sejam brasileiros.
Copa entre festa e apreensão
Para lideranças da comunidade, o momento que deveria ser de celebração nacional acaba atravessado pelo medo e pela insegurança.
“[A Copa do Mundo] era para ser um momento de muita celebração, mas a gente ainda não consegue sentir isso”, diz à reportagem Rodrigo de Godoi, presidente da Mantena, uma ONG local que trabalha com os imigrantes brasileiros. “Muitos dos negócios passam por momento difícil, muitas famílias estão escondidas. É uma ferida que está aberta”.




