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El Niño intensifica extremos climáticos em agosto com calor fora do padrão e risco de ciclone no Brasil

João Oliveira
5 de agosto de 2026 às 04:41
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El Niño intensifica extremos climáticos em agosto com calor fora do padrão e risco de ciclone no Brasil

Os efeitos predominantes do fenômeno climático El Niño no Brasil, são a intensificação das precipitações no Sul, a ocorrência de estiagens na Amazônia e no Nordeste, além do aumento da frequência de ondas de calor no Centro-Oeste e Sudeste. Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Fenômeno favorece temperaturas elevadas, temporais no Sul, baixa umidade no Centro-Sul e avanço das queimadas em diversas regiões

El Niño segue influenciando o clima brasileiro

O mês de agosto será marcado pela continuidade dos efeitos do El Niño sobre o território brasileiro, reforçando um cenário de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do país. Meteorologistas consultados pela BBC News Brasil apontam que o fenômeno continuará alterando os padrões atmosféricos, provocando calor acima da média, aumento das chuvas em algumas áreas e intensificação da estiagem em outras.

Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na faixa equatorial, o El Niño passou a se configurar em junho e deverá permanecer ativo até o início de 2027. De acordo com especialistas, a intensidade máxima do fenômeno está prevista para ocorrer entre os meses de outubro e novembro.

Durante agosto, praticamente todas as regiões brasileiras devem registrar temperaturas superiores à média histórica. Entretanto, os impactos variam conforme as características climáticas de cada localidade.

Enquanto o Sul tende a enfrentar episódios de chuva intensa, temporais e ventos fortes, o Sudeste e o Centro-Oeste devem conviver com calor persistente e baixos índices de umidade relativa do ar. Já no Norte e em parte do Nordeste, a redução das chuvas aumenta o risco de queimadas e incêndios florestais.

Apesar da predominância do calor, a passagem de massas de ar polar continua prevista para este mês. Segundo o meteorologista Franco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma nova incursão de ar frio deverá atingir os estados do Sul, o Sudeste e parte do Centro-Oeste por volta do dia 11. Após esse período, a tendência é de retomada das temperaturas elevadas durante a segunda metade de agosto.

Fenômeno deve atingir seu pico entre outubro e novembro

Segundo Diogo Arsego, meteorologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o El Niño permanecerá influenciando o clima brasileiro pelos próximos meses.

Entre os principais efeitos observados no país está o aumento das precipitações na Região Sul, consequência direta das alterações provocadas pelo aquecimento das águas do Pacífico sobre a circulação atmosférica.

Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, explica que esse aquecimento modifica o comportamento da atmosfera sobre a América do Sul, favorecendo o transporte de umidade para os estados sulistas e criando condições favoráveis para tempestades mais intensas.

Região Sul deve continuar sob risco de temporais

Após um mês de julho marcado por fortes temporais, o Sul do Brasil deve continuar enfrentando condições favoráveis à ocorrência de eventos severos.

Nas últimas semanas, o Rio Grande do Sul registrou sucessivos episódios de chuva intensa, ventania e granizo, que provocaram danos em dezenas de municípios.

Logo no início de julho, um vendaval acompanhado de granizo atingiu Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Conforme a Defesa Civil municipal, dez residências foram destruídas, outras 180 sofreram destelhamentos e aproximadamente 720 pessoas ficaram desabrigadas.

Posteriormente, entre os dias 17 e 20, uma nova sequência de temporais afetou 49 municípios gaúchos. A Defesa Civil estadual contabilizou destelhamentos, queda de árvores e postes, além de pelo menos 19 pessoas desalojadas.

No encerramento do mês, um tornado atingiu a região noroeste do Estado, deixando quatro pessoas feridas.

Para agosto, os especialistas avaliam que o ambiente atmosférico continuará altamente instável.

Entre o próximo fim de semana, a formação de um ciclone extratropical entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai poderá provocar rajadas de vento que podem alcançar até 95 quilômetros por hora.

“Não deixa de ser também uma contribuição do El Niño para estar causando esse forte contraste de temperatura e um ciclone mais intenso”, afirma o meteorologista.

Além da atuação desse sistema, novas áreas de instabilidade deverão favorecer episódios de chuva forte entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina ao longo das próximas semanas. Também existe possibilidade de formação de geadas em algumas localidades.

“Ainda não conseguimos precisar a intensidade, as regiões que serão mais atingidas e as datas mais prováveis. Isso só acompanhando a previsão de tempo em uma menor escala de tempo”, diz ele.

O monitoramento constante será essencial para avaliar a evolução desses sistemas meteorológicos.

“Hoje não é possível afirmar se teremos outros tornados no Sul, mas a gente tem uma atmosfera muito instável, e não se descartam novos eventos graves”, acrescenta Verardo, do Climatempo.

Cemaden mantém alertas para inundações e alagamentos

Os riscos também aparecem nas avaliações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Em boletim divulgado na terça-feira (04/08), o órgão classificou como alto o risco de continuidade das inundações na região de Uruguaiana, localizada na fronteira com a Argentina. A situação decorre da propagação da onda de cheia na bacia do Rio Uruguai.

Já na Região Metropolitana de Porto Alegre, o Cemaden apontou risco moderado para alagamentos. O excesso de umidade acumulado no solo, somado à previsão de novas chuvas, pode favorecer o transbordamento de córregos e provocar inundações em áreas urbanas mais baixas.

Sudeste e Centro-Oeste terão calor persistente e baixa umidade

Nos estados do Sudeste e do Centro-Oeste, agosto deverá apresentar temperaturas acima da média climatológica, sobretudo durante a segunda quinzena.

Embora uma massa de ar frio esteja prevista para os próximos dias, a redução temporária das temperaturas não altera a expectativa predominante de calor para o restante do mês, conforme avaliação de Franco de Assis Diniz, do Inmet.

Mesmo sendo um período tradicionalmente seco, parte do Estado de São Paulo poderá registrar episódios isolados de chuva, segundo Gustavo Verardo.

Já no Centro-Oeste, principalmente em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, a combinação entre calor intenso e baixa umidade relativa do ar deverá predominar durante boa parte do mês.

Norte e Nordeste terão estiagem prolongada e avanço das queimadas

A previsão para o Norte e parte do Nordeste aponta redução das chuvas ao longo de agosto, condição que tende a favorecer o aumento dos focos de incêndio.

“Isso pode trazer um problema especialmente associado às queimadas”, afirma Arsego, do CPTEC, observando que boa parte do Nordeste já atravessa, naturalmente, um período seco nesta época do ano.

Gustavo Verardo compartilha a mesma avaliação e destaca que as condições previstas seguem o comportamento típico da estação.

“Dias mais quentes e focos de queimadas devem ganhar força, especificamente entre o norte de Minas Gerais, Goiás, sul da Bahia, Tocantins e Pará”, ele prevê.

Litoral nordestino permanece sob atenção para chuvas intensas

Apesar da tendência de estiagem no interior das regiões Norte e Nordeste, parte do litoral continua sob monitoramento devido ao risco de chuvas volumosas.

Segundo boletim divulgado pelo Cemaden, permanece moderado o risco para eventos hidrológicos nas regiões de Maceió, Recife, João Pessoa e Natal.

Nessas áreas, pancadas de chuva poderão provocar alagamentos urbanos e transbordamento de pequenos cursos d’água, principalmente em regiões densamente povoadas.

O órgão também classificou como moderado o risco geológico em áreas dos estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba.

Conforme o boletim, o solo já encharcado, aliado à previsão de novas precipitações, aumenta a possibilidade de deslizamentos pontuais em encostas urbanas e áreas suscetíveis à movimentação de terra.