Estudo internacional alerta para explosão de diagnósticos nas próximas décadas; mulheres e populações de países mais pobres estão entre os grupos mais afetados
O mundo enfrenta a perspectiva de uma escalada alarmante nos casos de demência. Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Neurology estima que o número de pessoas que desenvolvem a doença anualmente poderá saltar de 11,4 milhões, em 2023, para 24,7 milhões em 2050. O crescimento superior a 100% representa um desafio para governos, famílias e sistemas de saúde em todos os continentes.
O levantamento, conduzido por pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW Sydney), na Austrália, analisou informações de 38.418 pessoas, reunidas em 22 estudos realizados em 18 países e territórios.
Os resultados revelam um cenário preocupante: a demência apresenta maior incidência entre mulheres e nas populações de países de baixa e média renda, justamente onde o acesso ao diagnóstico e ao tratamento especializado costuma ser mais limitado.
Mulheres e países pobres concentram maior risco
A pesquisa identificou uma taxa global de 9,7 novos casos por mil pessoas-ano. Entre as mulheres, o índice chegou a 10,6, enquanto entre os homens ficou em 8,6, após ajuste por idade.
A diferença econômica é ainda mais expressiva. Nos países de baixa e média renda, a incidência alcançou 13,6 casos por mil pessoas-ano, contra 8,3 nas nações mais ricas.
Para o pesquisador Perminder Sachdev, um dos responsáveis pelo estudo, o envelhecimento acelerado da população, associado à precariedade dos serviços de saúde em diversas regiões, pode agravar a situação.
“A maior incidência que observamos em países de baixa e média renda é particularmente preocupante, pois essas regiões estão passando por um rápido envelhecimento populacional, ao mesmo tempo que frequentemente dispõem de menos recursos para prevenção, diagnóstico e tratamento”, alertou.
Doença já afeta mais de 57 milhões de pessoas
A demência compromete progressivamente funções essenciais do cérebro, como memória, raciocínio, linguagem e autonomia. O Alzheimer é sua manifestação mais comum.
Atualmente, mais de 57 milhões de pessoas convivem com a condição em todo o planeta. Projeções anteriores indicam que esse contingente poderá se aproximar de 150 milhões até 2050.
O pesquisador Henry Brodaty, codiretor do Centro para o Envelhecimento Cerebral Saudável, alerta que a dimensão do problema exige providências imediatas.
“Vinte e quatro milhões de novos casos de demência por ano exerceriam uma enorme pressão sobre indivíduos, famílias, sistemas de saúde e economias em todo o mundo”, afirmou.
Alerta para uma crise de saúde pública
Além de dimensionar o avanço da doença, o estudo evidencia a necessidade de ampliar programas de prevenção, identificação precoce e atendimento especializado, sobretudo nas regiões economicamente mais vulneráveis.
Os cientistas ressaltam que as diferenças de incidência entre homens e mulheres e entre países ainda precisam ser investigadas. Fatores sociais, econômicos, educacionais e ambientais podem contribuir para esse cenário.
Embora as projeções não representem um resultado inevitável, os números expõem a urgência de preparar os sistemas de saúde para uma demanda potencialmente muito maior.
Com quase 25 milhões de novos casos anuais previstos para 2050, a demência ameaça se consolidar como uma das maiores crises sanitárias e sociais associadas ao envelhecimento da população mundial.




