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Compostos da Cannabis mostram eficácia inédita no controle de agitação em pacientes com Alzheimer

João Oliveira
22 de julho de 2026 às 09:52
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Compostos da Cannabis mostram eficácia inédita no controle de agitação em pacientes com Alzheimer
Divulgação / ClickNews

Descoberta promissora em meio à escassez de tratamentos efetivos

 

Na ausência de terapias capazes de interromper ou reverter a progressão do Alzheimer — doença neurodegenerativa irreversível e progressiva —, um estudo apresentado em 22 de julho de 2026 na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC) oferece uma perspectiva inédita: a combinação de tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), compostos da Cannabis, demonstrou reduzir de forma significativa a agitação associada à demência avançada. O sintoma, frequente em casos graves, impacta diretamente a qualidade de vida dos pacientes e a rotina de cuidadores, tornando a descoberta um marco potencial na gestão paliativa da doença.

Mecanismo de ação e resultados observados

O estudo, cujos detalhes técnicos não foram divulgados, baseou-se na administração controlada dos dois canabinoides em pacientes com estágios avançados da doença, conhecidos por apresentarem alta incidência de episódios de agitação e agressividade. Os resultados indicaram uma queda expressiva na frequência e intensidade desses comportamentos, sugerindo um efeito sinérgico entre o THC — responsável pelos efeitos psicoativos — e o CBD — que atua modulando a ansiedade e a inflamação. Embora os mecanismos celulares exatos ainda necessitem de aprofundamento, pesquisadores sugerem que a interação com receptores do sistema endocanabinoide possa estar relacionada à regulação de neurotransmissores como a serotonina e o glutamato.

Impacto além dos sintomas: reflexos na saúde pública e familiar

A agitação em demência avançada não só deteriora o bem-estar do paciente, mas também representa um dos maiores desafios para sistemas de saúde e redes de apoio. Com a escalada global de casos de Alzheimer — estimada em mais de 55 milhões de pessoas em 2025, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) —, a busca por soluções paliativas se intensifica. A redução da carga sobre cuidadores, que frequentemente enfrentam esgotamento físico e emocional, emerge como um benefício indireto da terapia, ainda que não quantificado pelo estudo. Caso os resultados sejam replicados em ensaios clínicos mais amplos, a abordagem poderia aliviar a pressão sobre instituições de longa permanência e reduzir custos associados ao manejo de sintomas comportamentais.

Contexto regulatório e perspectivas de acesso

A viabilidade da terapia depende, contudo, de um cenário regulatório que ainda se mostra fragmentado. Enquanto países como Canadá, Israel e alguns estados dos EUA já autorizam o uso medicinal de Cannabis — com destaque para produtos à base de CBD isentos de THC —, outros, como grande parte da América Latina, mantêm legislações restritivas ou em fase de revisão. No Brasil, embora o cultivo e a importação de derivados de Cannabis para fins medicinais sejam permitidos desde 2019, o acesso permanece limitado por barreiras burocráticas e alto custo. A ausência de uma política unificada na região pode atrasar a incorporação da terapia, mesmo diante de evidências promissoras. Especialistas alertam que, sem regulamentação clara, pacientes e famílias poderão enfrentar dificuldades para obter os compostos em dosagens adequadas ou enfrentar variações na qualidade dos produtos.

O que falta para uma adoção generalizada?

Apesar dos resultados animadores, o estudo ainda não foi publicado em revistas científicas revisadas por pares, o que limita a disseminação de suas conclusões. Além disso, questões como dosagem ideal, interações medicamentosas — especialmente com antidepressivos e antipsicóticos comumente prescritos a pacientes com Alzheimer — e potenciais efeitos adversos em longo prazo permanecem em aberto. Pesquisadores envolvidos no projeto destacam a necessidade de ensaios clínicos randomizados e controlados, com amostras maiores, para validar a segurança e eficácia da combinação. Até lá, a terapia segue como uma promessa em potencial, mas não como uma solução consolidada. Para pacientes e famílias, resta a esperança de que o avanço científico se traduza rapidamente em opções terapêuticas acessíveis e regulamentadas.