Quando o Brasil era menor que o seu Sertão – que se estendia das profundezas dos territórios centro-oestinos, amazônicos e nordestinos, até as franjas dos grandes centros urbanos, que nem eram tão grandes assim – dizia-se, pelas bocas e penas de políticos e intelectuais que, lá, era como era, porque não havia a presença do Estado; com efeito, que aquelas imensidões precisavam ser integradas ao restante do País, inclusive para não animar o espírito invasor da “potência do Norte”. Daí o governo brasileiro ter concebido, decretado e implementado uma forte e ampla política de interiorização, sintetizada no epíteto: Integrar para não entregar. Para a efetivação daquela política, a máquina estatal ampliada (numa interpretação gramsciana), tanto por seus elementos da sociedade política, quanto pelos da sociedade civil, foi mobilizada de maneira a regular e reorientar a vida social e, principalmente, econômica, mudando definitivamente o modo de ser e viver naqueles ermos.
É de se destacar, talvez, como a ação de maior significância e impacto para os que já viviam ali, bem como para os diversos sujeitos sociais que foram incentivados a migrarem pra lá, a “distribuição”, redistribuição e posse lega da terra – que resultou na estrutura fundiária baseada no latifúndio; isto, mediante a subtração e aniquilamento da pequena propriedade rural, que se efetivou pela expulsão violenta de seus ocupantes ou posseiros, com o apoio ostensivo e intransigente da polícia, da justiça e da política, por mandatários-sabujos, notadamente deputados, prefeitos e vereadores. Assim, observado à luz da Filosofia da Práxis, o Estado estava presente em cada corrutela do Araguaia, por exemplo, na forma das Polícias, da Justiça, das Exatorias, Prefeituras, Cartórios, Escolas, Igrejas, Sindicatos e o escambau – que desenvolviam suas ações expressando as contradições fundamentais da sociedade, decorrentes das necessidades e interesses antagônicos de trabalhadores e proprietários. Evidencia-se, então, que o problema não era a ausência, mas, a necessidade de qualificar a presença já existente do Estado.
Confirmando o econômico como o conteúdo fundamental do Estado, e que, no caso, naquele então, a Economia se desenvolvia em descompasso com as relações e finalidades especificamente capitalistas – o Governo tratou de implantar, ampliar e fazer funcionar uma estrutura material, institucional, fundamental para promover a superação das antigas relações de produção, substituindo-as por relações de caráter especificamente capitalista; nesse sentido, suprimiu a posse, como forma de ocupação e apropriação da terra, instituindo a propriedade legal, atestada em cartório, como única forma de propriedade. A imposição dessa política confrontou o modo de ser e viver daquela gente, especialmente pela subtração das suas condições materiais de vida, fundadas na posse e cultivo da terra; que, contestada e tratada como terra devoluta, foi reapropriada e dada pela institucionalidade, legalmente, para os que já eram ou se fizeram por esses meios, grandes proprietários.
Com efeito, as relações de trabalho transigiram definitivamente para o assalariamento, cujo caráter expropriatório foi perversamente agravado por instrumentos e figuras como a do “Gato”, intermediário que mobilizava e contratava a força de trabalho em diversas regiões do país, para o trabalho duro, de formação das grandes fazendas; ali eram submetidos às mais desumanas condições de vida e trabalho, semelhantes às escravagistas. Assim, pela expropriação violenta, inclusive por assassinatos de posseiros e pequenos proprietários, pela sujeição dos peões-do-trecho às mais abjetas condições de vida e trabalho e, custeados por montanhas de recursos públicos, os grandes empreendimentos agropecuários foram formados em nossos sertões; desta forma, conjugando violência, coerção e convencimento das massas trabalhadoras e comunidades tradicionais, ribeirinhas, etc., foi que o Estado Capitalista garantiu à classe proprietária (empresários rurais e urbanos) as condições necessárias para que se tornasse a classe dominante que é – em face do que, impõe-se a pergunta: é desarrazoado afirmar que o Agronegócio (vitalmente dependente do Governo), é a Casa Grande rebocada com tecnologia?
Sob aquelas condições, as notícias que chegavam nas vilas e cidades sobre o que passavam aqueles trabalhadores, eram terríveis: uns que trabalhavam “alongados” na fazenda por seis, oito, meses, sem ver a cor de dinheiro, e que, no acerto de contas, o Gato lhes apresentava dívidas com passagem, comida, algum remédio, etc., que superavam tudo que o peão tinha pra receber; sob ameaça, o coitado saía dali com “uma mão na frente e outra atrás”. Também, de outros que, depois de quase um ano de trabalho, receberam um bom dinheirinho no acerto e final, meteram esse dinheiro no bolso e ganharam a estrada no rumo de casa; mas, no meio do caminho sofreram emboscada: foram roubados e assassinados, restando seus corpos ali abandonados. Desses, nunca mais suas famílias tiveram notícias; por eles, o Estado nada fez – somente a Igreja Católica, com seus Bispo e Padres “comunistas”, os defendia e denunciou suas mortes.
Naquele ambiente difícil, perverso e injusto, o trabalhador tentava sobrevier, não enjeitando serviço. Mas, também havia os que chegavam ali corridos da justiça e da vingança de algum familiar de um que foi assassinado: naqueles ermos, só por acaso conhecidos se encontravam. Assim, um sem-número de tipos, os mais diversos, eram vistos nas ruas, bares e cabarés das cidadezinhas e corrutelas: não poucos, entregues ao alcoolismo; outros que, doentes, dementes, zanzavam sem rumo, falando e gesticulando ao léu, esquecidos de quem eram, de onde vieram; além dos que, conjugando álcool com má-índole, deram-se às mais tenebrosas violências: pistoleiros, matadores de gente a mando, por encomenda. Desses, ficou conhecido um, que tinha por alcunha Cachaça-Com-Farinha: sujeito atarracado, forte, olhar sem brilho, morto, opaco como o das serpentes peçonhentas; o carga-torta trazia consigo, sempre, um punhal “língua-de-peba”: com quase meio metro, de aço fino e duro, oxidado, ponta afiadíssima, enfeitado por um cabo feito com rabo de tatu…
Guardada numa bainha de couro cru, trabalhada em arremates de bom artesão, o bruto trazia aquela arma metida na parte de trás das calças; era de jeito que, conforme ele se sentava, o cabo se mostrava reluzindo de sob a camisa. Dizia-se na região, que aquele apelido devia-se a um gesto seu, tido como diabólico, de tão macabro que era: que depois de apunhalar alguém, entrava no primeiro botequim que visse, pedia um copo de pinga, enfiava a ponta do punhal no copo, lavando assim a arma do sangue do morto. Sob silêncio pavoroso, ele levantava o copo à altura daqueles olhos-mortos, olhava os presentes em desafio mudo, bebia até a metade do copo com aquela cachaça ensanguentada, estalava a língua; aí, com o copo numa mão, enfiava a outra mão num bolso da calça, tirava dali um punhado de farinha de mandioca e jogava na boca: ouvia-se o mastigar dos dentes, quebrando os grãos duros da farinha, mastigava devagar até formar a massa que engolia com gosto – arrematava tudo, virando o copo na boca com o resto daquela cachaça avermelhada…
Já no fim dos anos de 1980, correu a notícia de que o Cachaça-Com-Farinha tinha sido morto: morte por tiro e faca – naturalmente…


