O paradoxo da brasilidade global: artesanal vs. padrão internacional
No mercado norte-americano, a criatividade brasileira — representada pelo ‘brazilian core’ e pelo resgate do artesanal — encontra terreno fértil, mas a transição para o mainstream exige mais do que criatividade: demanda glocalização, ou seja, a capacidade de adaptar a identidade local ao gosto global sem diluir a essência da marca.
Segundo Silvana Scheffel, professora de Comunicação e Publicidade da ESPM e curadora do hub de luxo da instituição, o processo envolve um equilíbrio delicado. “As tendências que privilegiam o movimento artesanal e a brasilidade são fortes, mas é preciso adaptar o produto ao público-alvo local, aos hábitos de consumo e às expectativas de qualidade”, explicou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Qualidade como moeda de entrada — e sobrevivência
A exigência do mercado externo não se limita ao discurso: impõe mudanças estruturais. As marcas brasileiras que almejam conquistar espaço nos EUA precisam elevar seus padrões em múltiplos aspectos. Desde a seleção de matérias-primas superiores até a precisão de acabamentos, costuras e aviamentos, a transição para o patamar internacional é inevitável — e onerosa.
Scheffel destaca que, embora o DNA da marca deva ser preservado, a internacionalização impõe um processo de aprimoramento contínuo. “Não basta ter um produto bonito e com identidade; é necessário construir valor percebido, atender aos critérios de durabilidade e funcionalidade que o consumidor americano exige”, afirmou.
O custo oculto da criatividade: quando a brasilidade vira estratégia global
A criatividade tupiniquim já é reconhecida globalmente, mas sua tradução para o mercado norte-americano exige mais do que apelo estético. O ‘brazilian core’ — conceito que une elementos culturais, como estampas tropicais, transparências e silhuetas fluidas — precisa ser reinterpretado para dialogar com os valores locais, como sustentabilidade, minimalismo funcional e inclusividade.
Para as marcas, isso significa investir em pesquisa de mercado aprofundada, parcerias com designers internacionais e até mesmo reposicionamento de portfólio. “O público americano não busca apenas exotismo; ele quer autenticidade aliada a experiência de consumo premium”, pontua a especialista.
Consequências: quem não se adapta, fica para trás
A pressão por qualidade e adaptação não é uma opção, mas uma condição de sobrevivência. Marcas que ignoram as exigências do mercado internacional — seja por resistência à mudança ou por subestimar os custos envolvidos — correm o risco de ficar restritas ao nicho de ‘produtos de viagem’ ou a lojas de souvenirs. Por outro lado, aquelas que conseguem equilibrar brasilidade e excelência global têm potencial para se tornar referências globais, como já ocorre com algumas grifes de lifestyle.
O desafio é claro: o Brasil tem criatividade e identidade, mas o mercado americano exige mais. A glocalização, nesse contexto, não é apenas uma estratégia — é a única porta de entrada para o sucesso além das fronteiras nacionais.




