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Saúde

Aos 80 anos, referência mundial em demência revela cinco hábitos essenciais para preservar a saúde do cérebro

Redação
27 de outubro de 2026 às 19:28
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Aos 80 anos, referência mundial em demência revela cinco hábitos essenciais para preservar a saúde do cérebro

Reprodução

Com mais de meio século dedicado ao estudo do envelhecimento e da memória, neurologista da Clínica Mayo destaca a importância da atividade física, alimentação equilibrada, sono regular, estímulos intelectuais e convivência social para reduzir os riscos de declínio cognitivo

Aos 80 anos, o neurologista norte-americano Ron Petersen continua exercendo uma intensa atividade profissional, viajando para compromissos científicos, acompanhando pacientes e conduzindo pesquisas sobre os mecanismos do envelhecimento cerebral. Considerado uma das principais autoridades internacionais em demência e saúde cognitiva, ele sustenta que envelhecer com lucidez não depende exclusivamente da genética ou dos avanços da medicina. Hábitos incorporados à rotina podem desempenhar um papel decisivo na preservação da memória e das capacidades intelectuais.

Com mais de cinco décadas de atuação científica, Petersen contribuiu para transformar a compreensão médica sobre as alterações cognitivas associadas à idade. Entre suas principais contribuições está a consolidação do conceito de comprometimento cognitivo leve, condição intermediária entre as mudanças consideradas normais do envelhecimento e os quadros de demência.

O conceito ampliou as possibilidades de identificação precoce de alterações da memória e estimulou investigações sobre intervenções capazes de retardar a progressão de problemas cognitivos.

Diretor do Estudo de Envelhecimento da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, Petersen reúne mais de 1.500 publicações científicas em coautoria e mantém uma rotina que combina pesquisa clínica e atendimento médico. Recentemente, recebeu uma premiação pelo conjunto de sua trajetória concedida pela Academia Nacional de Neuropsicologia.

Apesar da complexidade dos temas que investiga, suas recomendações para preservar a saúde cerebral estão longe de exigir procedimentos sofisticados. O neurologista defende mudanças acessíveis, sustentadas pela regularidade e pela disposição de permanecer física, mental e socialmente ativo.

“Envelhecer não precisa ser um processo passivo”, disse ele. “Podemos influenciá-lo. Podemos participar. E é aí que o estilo de vida entra em jogo.”

Exercícios físicos estão no centro da estratégia de prevenção

Entre todas as medidas associadas à proteção das funções cognitivas, Petersen atribui especial importância à atividade física. Na avaliação do neurologista, movimentar o corpo regularmente representa uma das intervenções mais relevantes para quem pretende envelhecer preservando a autonomia e a capacidade de raciocínio.

“Se alguém me pressionasse e dissesse: ‘Você tem que fazer uma coisa. O que seria?'”, minha resposta seria exercício, disse Petersen.

O pesquisador procura frequentar a academia entre três e quatro vezes por semana, geralmente acompanhado da esposa. Sua programação inclui caminhadas em ritmo acelerado, exercícios na esteira com variações de velocidade e inclinação, musculação e atividades destinadas à manutenção da flexibilidade.

“Eu faço caminhadas rápidas. Às vezes, uso a esteira, alternando entre subidas e descidas e variando a velocidade”, disse ele.

A prática de golfe também integra suas atividades. Já o treinamento de força, realizado com aparelhos como leg press e supino, ajuda a preservar a musculatura e a capacidade funcional.

Para Petersen, o condicionamento físico não beneficia apenas o cérebro. A manutenção da força muscular, do equilíbrio e da mobilidade é particularmente importante na terceira idade, quando quedas podem provocar lesões graves e comprometer a independência.

O especialista classifica esse risco como “um verdadeiro pesadelo do envelhecimento”.

Pesquisas desenvolvidas por Petersen e outros cientistas identificaram associações entre a prática regular de exercícios, a preservação das funções cognitivas e a redução do risco de doenças neurodegenerativas, incluindo o Alzheimer.

Sua orientação é acumular aproximadamente 150 minutos semanais de atividades aeróbicas, preferencialmente combinadas com exercícios de fortalecimento muscular.

A recomendação, contudo, não deve desestimular pessoas sedentárias. Mesmo períodos relativamente curtos de movimento podem representar ganhos importantes, especialmente quando substituem uma rotina de inatividade.

“Fazer mais do que você faz agora é provavelmente a melhor coisa a se fazer”, disse ele.

Manter a mente em atividade vai além dos jogos de memória

Embora tenha dedicado praticamente toda a vida ao funcionamento do cérebro, Petersen não segue uma rotina baseada em palavras cruzadas, sudoku ou aplicativos de treinamento cognitivo.

O neurologista considera que os estímulos intelectuais podem assumir diferentes formas e precisam, sobretudo, despertar interesse genuíno.

Sua própria rotina profissional envolve leitura de estudos, análise de informações científicas, discussões com colegas e acompanhamento de pacientes. Fora do trabalho, procura diversificar as atividades e reservar espaço para o descanso.

A televisão ocupa uma parcela limitada de seu tempo, geralmente destinada a noticiários e transmissões esportivas. Morador de Minnesota, acompanha equipes profissionais da região e também participa da vida esportiva dos netos.

A leitura constitui outro interesse pessoal, especialmente quando envolve acontecimentos históricos e relatos baseados em fatos reais.

“Não leio tanto quanto poderia, deveria e gostaria, mas prefiro ler livros de não ficção do que de ficção”, disse ele.

Entre as obras que despertaram recentemente sua atenção está The Gales of November, livro sobre o naufrágio do cargueiro Edmund Fitzgerald, ocorrido no Lago Superior, nos Estados Unidos.

“Estou lendo um livro agora chamado ‘The Gales of November’, que fala sobre o naufrágio do Edmund Fitzgerald no Lago Superior. É simplesmente fascinante.”

Segundo pesquisas sobre envelhecimento cognitivo, experiências que exigem aprendizado, concentração e participação intelectual podem contribuir para a manutenção das habilidades cerebrais.

Aprender outro idioma, desenvolver habilidades artísticas, conhecer ferramentas tecnológicas, ouvir música, dedicar-se a atividades manuais ou participar de conversas estimulantes são alternativas que ajudam a manter o cérebro envolvido em novas experiências.

Para Petersen, não existe uma única atividade obrigatória. A continuidade depende, em grande parte, do prazer proporcionado pela experiência.

Por isso, recomenda “encontrar uma atividade que seja divertida, que você goste de fazer e que tenha vontade de fazer todos os dias”.

Alimentação equilibrada protege o coração e beneficia o cérebro

A relação entre alimentação e saúde cognitiva ocupa espaço crescente nas pesquisas sobre envelhecimento. Embora ainda existam dúvidas sobre a superioridade de determinadas dietas, Petersen considera consistente a orientação de priorizar padrões alimentares reconhecidamente benéficos ao sistema cardiovascular.

Entre os modelos frequentemente investigados estão a dieta mediterrânea e a dieta MIND, que privilegiam o consumo de vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas e peixes.

Esses padrões alimentares têm sido associados, em estudos observacionais, a menor risco de comprometimento cognitivo e demência. Isso não significa, entretanto, que uma dieta específica seja capaz de impedir isoladamente o desenvolvimento dessas doenças.

“Acredito que o que devemos fazer pela saúde do nosso coração também é bom para o cérebro”, disse ele.

Na vida cotidiana, o neurologista não adota uma alimentação excessivamente restritiva. Define-se como onívoro e procura manter escolhas equilibradas, sem eliminar completamente alimentos de que gosta.

No café da manhã, costuma consumir granola, iogurte e frutas vermelhas. O almoço varia conforme os compromissos profissionais e pode incluir combinações semelhantes.

À noite, dá preferência a peixes e frango. A carne vermelha aparece com menor frequência, aproximadamente uma vez a cada duas semanas.

Durante viagens, admite que nem sempre consegue manter os mesmos hábitos alimentares.

O consumo de bebidas alcoólicas também faz parte de suas reflexões sobre saúde. Estudos recentes têm reforçado a associação entre ingestão de álcool, especialmente em quantidades elevadas, e maior risco de alterações cognitivas.

Petersen relata consumir pequenas quantidades ocasionalmente, principalmente em encontros familiares ou com amigos. Reconhece, porém, que não existe justificativa médica para recomendar o início do consumo de álcool como estratégia de proteção cerebral.

“Há sempre um aspecto de prazer envolvido também. Sabe, os pacientes perguntam: ‘Devo beber?’ Eu respondo: ‘Bem, se você não bebe, eu não começaria a beber. Mas se você bebe e aprecia um drinque à tarde ou uma taça de vinho no jantar, provavelmente não há problema.’”

A avaliação individual, no entanto, deve considerar as evidências atuais sobre os riscos do álcool, inclusive em níveis baixos de consumo, e as condições de saúde de cada pessoa.

Qualidade do sono tem influência direta sobre memória e cognição

A manutenção de horários regulares para dormir e acordar representa outro componente importante da rotina do neurologista.

Petersen costuma deitar-se por volta das 22h30 e levantar-se aproximadamente às 6h30, preservando uma janela de oito horas para o descanso noturno. Nos fins de semana, eventualmente prolonga o período de sono.

O pesquisador reconhece que o envelhecimento frequentemente traz mudanças na arquitetura do sono, com despertares mais frequentes e dificuldade para retornar ao descanso.

“Geralmente, o que acontece é que a quantidade aumenta e a qualidade diminui”, disse Petersen. “Então, podemos passar mais tempo na cama, mas acordamos [e] não conseguimos voltar a dormir.”

Dormir adequadamente é fundamental para processos associados à consolidação das memórias, à aprendizagem e à regulação de diferentes funções cerebrais.

Durante o sono, também ocorrem mecanismos envolvidos na remoção de resíduos metabólicos do cérebro, tema que vem recebendo atenção crescente da comunidade científica.

Distúrbios como insônia crônica e apneia obstrutiva do sono têm sido associados a maior risco de comprometimento cognitivo. Embora essas associações não estabeleçam necessariamente uma relação direta de causa e efeito, reforçam a importância de investigar alterações persistentes no descanso noturno.

Para preservar a qualidade do sono, Petersen evita cafeína durante a noite e procura manter horários relativamente estáveis.

Outra preocupação envolve cochilos prolongados durante o dia.

Segundo o especialista, pequenos períodos de descanso podem ser benéficos, especialmente quando ajudam a recuperar a disposição. A sonolência excessiva, por outro lado, merece atenção.

“Algumas pessoas podem ficar indispostas por 10 a 15 minutos e — bingo! — voltam a jogar imediatamente e se sentem revigoradas. E sabe, acho isso ótimo. Fico um pouco mais preocupado quando a pessoa fica indisposta por uma hora, duas horas, algo assim no meio da tarde.”

Quando a necessidade de dormir durante o dia se torna frequente ou compromete a rotina, a recomendação é procurar avaliação médica para investigar possíveis alterações do sono.

Convivência familiar e vínculos sociais ajudam a preservar a saúde cognitiva

Aos 80 anos, Petersen considera que as relações pessoais são tão importantes para um envelhecimento saudável quanto os cuidados com o corpo.

Pai de dois filhos e avô de seis netos, ele mantém contato frequente com os familiares, que vivem relativamente próximos. Os encontros costumam ocorrer semanalmente e incluem atividades esportivas, conversas e momentos de lazer.

A convivência com amigos também ocupa lugar relevante em sua rotina.

Pesquisas sobre longevidade vêm identificando relações entre isolamento social, solidão persistente e maior risco de declínio cognitivo.

Por outro lado, a manutenção de vínculos afetivos e a participação em atividades coletivas podem favorecer o bem-estar emocional, estimular funções mentais e contribuir para a preservação da autonomia.

Petersen observa que o isolamento pode surgir progressivamente com o avanço da idade, seja pela redução dos compromissos profissionais, por limitações físicas ou pela perda de pessoas próximas.

“É fácil se isolar quando se envelhece”, disse Petersen.

“Pensamentos como ‘Ah, não vou sair. Não, não quero fazer isso. Vamos ficar em casa’, esse tipo de coisa. E acho que combater essa tendência é uma recomendação válida.”

A orientação é preservar oportunidades de convivência, mesmo quando isso exige esforço para superar o comodismo ou reorganizar a rotina.

Envelhecimento saudável depende de hábitos consistentes, não de soluções milagrosas

A experiência acumulada por Ron Petersen ao longo de mais de 50 anos de pesquisas aponta para uma conclusão: preservar a saúde cerebral envolve a combinação de diferentes medidas preventivas adotadas de maneira contínua.

Exercitar-se regularmente, manter uma alimentação equilibrada, dormir bem, cultivar interesses intelectuais e preservar as relações sociais são comportamentos associados a melhores condições de envelhecimento.

Nenhuma dessas práticas oferece garantia absoluta contra o Alzheimer ou outras formas de demência. O desenvolvimento dessas doenças envolve múltiplos fatores, incluindo idade, predisposição genética e condições clínicas.

Ainda assim, a adoção de hábitos saudáveis pode contribuir para reduzir riscos modificáveis e melhorar a qualidade de vida, mesmo quando iniciada em fases mais avançadas.

Aos 80 anos, mantendo uma agenda de pesquisas, atendimentos, viagens e compromissos familiares, Petersen procura incorporar à própria vida os princípios que investiga cientificamente.

Sua trajetória reforça uma perspectiva cada vez mais presente na medicina preventiva: o envelhecimento cerebral não pode ser completamente controlado, mas existem escolhas cotidianas capazes de favorecer a saúde cognitiva e a autonomia ao longo dos anos.

Com informações do The Washington Post.

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