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INFLAÇÃO TEIMOSA

 

* Por Vivaldo Lopes

 

O IBGE divulgou (11) ontem, os dados da inflação do mês de abril. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), utilizado para medir a inflação no Brasil, apresentou alta de 1,06%, a maior variação para esse mês desde 1996.  Em abril do ano passado, a variação havia sido de 0,31%. Nos últimos 12 meses, a inflação brasileira chegou a 12,13%. Os principais responsáveis pela alta do mês passado foram os alimentos (no domicílio e fora), bebidas e combustíveis. A alta dos combustíveis, por sua vez, impactou os transportes de pessoas e de mercadorias. Juntos, esses itens contribuíram com 80% da inflação de abril. Individualmente, o aumento da gasolina foi o que produziu maior impacto no índice do mês. Depois da gasolina, o etanol foi o segundo componente que mais impactou a inflação mensal.

A resiliência da inflação em patamar elevado e os componentes que lhe dão tração passaram a povoar as discussões entre economistas, analistas financeiros, empresários, Banco Central e membros da administração federal. Todos trabalham com cenários de redução da pressão inflacionária a partir de junho, chegando ao final de 2022 abaixo dos atuais 12,13% e mais próximo de 10%.

Considero pouco provável que a inflação sofra queda expressiva no segundo semestre. Porque os principais fatores que impulsionaram a inflação até aqui dão sinais que continuarão em alta nos próximos meses.

A inflação brasileira tem parte considerável importada do cenário global, realidade que assombra todas as economias, especialmente as dos países desenvolvidos. A inflação americana chegou ao patamar de 8,3%, em 12 meses, índice que não se registrava por lá nos últimos 40 anos. Isso força o Federal Reserva, banco central americano a elevar os juros, o que pode produzir recessão na economia americana. E a China, para combater nova onda de infestação de covid-19 em seu território, implantou um rigoroso lockdown, freando drasticamente sua retomada econômica, da qual depende o mundo inteiro, inclusive o Brasil. Para piorar ainda mais o cenário mundial, a Rússia promoveu a insana invasão da Ucrânia, produzindo corrosivos efeitos econômicos colaterais em todas as economias desenvolvidas e em desenvolvimento, pois afetou o fornecimento de petróleo, gás natural, grãos, fertilizantes e até mesmo gás neon, insumo imprescindível para a produção de microprocessadores (chips), elemento fundamental para todas as cadeias industriais do planeta. A alta mundial de preços vem na esteira da pandemia da covid-19 (2020 e 2021) que paralisou a economia global e quebrou as cadeias mundiais de logística e suprimento de insumos e componentes eletrônicos, gerando escassez e encarecendo consideravelmente a produção industrial. Nada indica que tais cadeias serão restabelecidas no segundo semestre de 2022 e os preços dos insumos e componentes industriais voltarão ao seu leito natural. Assim, a alta de preços internacionais continuará pressionando os preços internos.

No mercado doméstico, apenas as tarifas de energia elétrica devem sofrer queda a partir de maio com a retirada das famigeradas bandeiras vermelhas de escassez hídrica. Os demais itens que pressionam a inflação desde o ano passado seguirão na mesma toada de alta. A Petrobras reafirma a cada semana que vai continuar com sua política de aumentar os preços de gasolina, gás e diesel. Os preços dos alimentos também demonstram que continuarão sua dinâmica de alta continuada, diante de preços internacionais elevados, que estimula as exportações em detrimento do mercado nacional. Exceção dos alimentos in natura, como verduras, legumes, frutas que, historicamente apresentam quedas sazonais de preços no período de seca, a partir do segundo quadrimestre do ano.

Mesmo com o esforço do Banco Central para combater a inflação por meio do aumento da taxa básica de juros, as projeções indicam que os alimentos e os combustíveis continuarão aumentando no segundo semestre e, por conseguinte, mantendo a inflação acima dos 10%, afetando a renda, o consumo, inibindo o crescimento e, principalmente, tornando a vida das famílias mais pobres ainda mais difícil.

* Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA- Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP (vivaldo@uol.com.br).