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A Fé e as Rezas Poderosas de um Homem Simples, “Seo Moysés” do Porto.

Por Edileuza Faria*

O vai e vem de carros, caminhões, ônibus e motocicletas são constantes. Algumas pessoas caminham apressadas. Outras nem tanto. Nas principais Avenidas e Ruas, os diversos pontos comerciais ali existentes movimentam o cotidiano do lugar. É um dia comum. Assim é o contemporâneo Bairro do Porto, uma das regiões mais antiga e tradicional de Cuiabá.

Um bairro nostálgico, histórico e cultural; para todo lado que se olha, tem pessoas para conhecer… conversar… histórias para se ouvir… coisas para saber… para comprar…para pescar…comer…rezar… e na Orla do Porto se divertir…e toda beleza do Rio Cuiabá contemplar…

O Bairro do Porto teve sua origem no início do século XVlll, nos idos de 1721. De acordo com a história, o Porto está associado com a Fundação das Minas do Cuiabá, que posteriormente foi elevado ao Arraial Bom Jesus de Cuiabá no ano de 1827. Naquele tempo, as viagens terrestres eram longas, desgastantes e bastante cansativas. Com isso, o Rio Cuiabá era o meio de transporte mais utilizado para o carregamento de mercadorias e de pessoas que aqui chegavam ou partiam para outras terras pelas águas do rio.

E o Porto se desenvolveu às margens do Rio Cuiabá, tornou-se o centro de carga e descarga de diversos produtos que abasteciam a cidade e região.

Circular pelas ruas e becos do Bairro, é um misto de descobertas e de surpresas…Moradores mais antigos do local, cultivam o hábito de   uma boa prosa, e ressuscitam personagens históricos, lendas e fatos que marcaram época, e descrevem um Porto bem diferente deste que conhecemos hoje.

Por falar em “personagens” que fizeram história no Porto de outrora, o “afamado” benzedor “Seo Moysés” ainda é lembrado pelos moradores mais antigos. Homem simples  de perfil contido, mas possuidor de uma fé inabalável nas suas orações e benzeduras.

Naqueles tempos, o conhecimento antigo e as crendices populares predominavam, e muitas pessoas abriam mão das consultas médicas, e recorriam ao benzedor para a cura dos seus males, tais como: quebrante, dor de barriga, arca caída, cobreiro, rendiduras, (nervos rendidos), pasmo (sustos), dores de dente, ouvido, mau olhado e outros males do corpo e da alma.

Aos 33 anos, a técnica em nutrição Cássia Santos da Cruz, é neta do “Seo Moysés”. A casa em que reside no Bairro do Porto, é a mesma em que seu avô morava e sua mãe Benedita Bom Despacho dos Santos, conhecida no local como Dona Dita. “Meu avô casou e veio morar nessa casa. Minha mãe por toda sua vida morou aqui, eu nasci aqui”, conta Cássia. Dona Dita sofria de problemas renais, e devido as complicações da doença, desde ano de 2014, Dita não vive mais  na casa…

Cássia cresceu ouvindo histórias do avô em especial, as que sua mãe contava. Da casa cheia de gente que chegava de toda parte a procura das rezas do benzedor. Sobre a Fé fervorosa e a humildade do Avô, que não fazia distinção de ninguém, e atendia todos a qualquer hora do dia ou da noite. “Minha mãe falava que a casa era movimentada. Meu avô largava o prato de comida de lado, para atender a pessoa”, lembra.

Aqueles que recorriam às orações do “Seo Moysés”, após a reza, o benzedor ensinava para as pessoas (principalmente para mães de crianças pequenas) receitas de remédios caseiros, chás e banhos à base de casca de árvores, sementes, folhas e raízes. E não cobrava nada. Dizia que fazia em nome de Deus.

O benzedor não sabia dizer não. E estava sempre à disposição para ajudar aqueles que o procuravam. Quando não benzia em casa, “Seo Moysés” atendia além das fronteiras do Bairro. Fervoroso na Fé em Deus, possuía hábitos simples, e era costume d’ele andar com uns raminhos de arruda presos na orelha. “Minha mãe dizia que meu avô era muito conhecido. Quem encontrava com ele na rua, aqui em casa, nas lojas comerciais do Porto, nos consultórios médicos, nas residências das famílias do Bairro, ou em qualquer outro ambiente, era normal as pessoas pedirem para ele benzer, e ele não recusava. Estendia o braço direito, fazia o sinal da cruz  e abençoava as pessoas e o lugar em que estava…”.

A professora Louridina Antonia Monteiro, hoje com 60 anos, conta que quando criança, sua mãe a levava  e os irmãos até a casa do “Seo Moysés” para serem ‘bentos’ (benzidos). E como toda criança esperta e curiosa, durante o ritual, a menina ficava atenta para tentar entender as misteriosas palavras que o benzedor dizia em voz baixa enquanto benzia. “Seo Moysés era um homem negro, magro, alto de rosto comprido e fala mansa. Sua voz era fanha, as palavras que pronunciavam eram carregadas com o sotaque cuiabano de beira de rio. Quando íamos a sua casa, de imediato ele largava o que estava fazendo, e antes de nos receber sempre lavava as mãos. Às vezes a camisa que ele usava estava aberta, mas até chagar a porta para nos atender, os botões já estavam fechados. A calça comprida era dobrada na altura da canela. Mas o que eu não esqueço é do seu olhar que lembra os olhos da imagem de São Benedito, um olhar sereno e pacífico, que nos dizia que ele era um homem bom e acolhedor”, recorda a professora.

O interessante é que “Seo Moysés” aprendeu a benzer depois de adulto. Quem   ensinou os segredos jamais revelados das palavras benditas das rezas, foi a esposa Alice Rodrigues dos Santos, que aos 12 anos de idade já benzia.   Mas, depois do casamento, a chegada dos filhos, os afazeres domésticos se multiplicaram, e dona Alice ficou sem tempo para atender quem necessitava das suas orações.

Após repassar os segredos da reza ao marido, ela se dedicou mais a casa, as tarefas domésticas, aos filhos, e aos pequenos animais de estimação que criava. Porém, na ausência do marido, Dona Alice não deixava de atender quem batia a sua porta em busca das orações. O casal teve 9 filhos, mas nenhum seguiu os passos dos pais, “minha mãe e meus tios, ninguém aprendeu a benzer”, relata a neta.

Católico fervoroso “Seo Moysés” era ministro de eucaristia e deixava transparecer para quem quisesse ver a sua fé e devoção.  Não faltava a nenhuma missa na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e São Gonçalo do Porto. Num tempo em que o analfabetismo predominava, o benzedor sabia ler e escrever. Aprendeu com a mãe adotiva Izabelinha Suído, conhecida como Dona Zebinha que era professora e nunca casou. Com isso ele ministrava aulas de catequese no colégio dos padres (atual Colégio Salesiano São Gonçalo).

O fato d’ele ser um benzedor não atrapalhava a sua relação com a religião e muito menos com os sacerdotes (Padres), que vez ou outra, até mandavam alguns fiéis para receber suas rezas poderosas.

Em nome das tradições religiosas, “Seo Moysés” era festeiro. E sua presença era garantida nos festejos dos santos católicos em especial, São João. Os devotos atribuíam a ele a responsabilidade de tirar a reza (dar início as orações e cantos religiosos durante a procissão).

A experiência profissional, do “Seo Moysés” foi como continuo (zelador) do tradicional Colégio Estadual Senador Azeredo (hoje a Casa do artesão), e sua paciência com as crianças era admirável. Ele também fazia os pagamentos dos professores do colégio.

Depois de aposentado, para aumentar a renda da família, vendia bolos e salgados que a esposa fazia, e ainda baldeava água do rio Cuiabá para abastecer a casa de alguns moradores e vizinhos do Bairro, que não tinham o luxo da água encanada. “A mãe contava que meu avô pegava um pedaço de pau, e em cada ponta colocava uma lata de dezoito litros cheia d’água do rio, e carregava nas costas. Em um dia ele fazia várias viagens. Mas nunca reclamava e dizia: ‘Cada um tem o que merece nessa vida’, recorda a neta.

Acometido por um derrame “Seo Moysé” morreu aos 64 anos. O corpo do benzedor foi velado na casa onde hoje vive a neta o marido e a bisneta. “Minha mãe comentava que no velório do meu avô, a casa ficou pequena para receber quem veio se despedir. A rua ficou tomada de gente. Meu Avô era visto por muitas pessoas como um homem santo, e até hoje é lembrado…”finaliza.

Moysés dos Santos benzedor do Porto de outrora, em vida deixou registrado no lugar onde sempre morou sua trajetória, seu legado, sua história…

*Edileuza Faria é Jornalista e Bacharel em Direito