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IRIS,LIDERANÇA QUE SE ETERNIZA

*  Por Castro Filho

 

No início de 1954, vim do interior com a finalidade de estudar na Escola Técnica Federal de Goiás. Logo que ali cheguei, fiquei sabendo da existência de um jovem que por lá passara, deixando fama. Era bom orador e tinha liderança. Chamava-se Iris Rezende Machado. À época já se encontrava no Liceu de Goiânia e/ou na Escola Técnica de Comércio de Campinas. Por todos os lugares por onde passara, foi Presidente do Grêmio.

Eleito vereador em 1958, substituiu, por alguns meses, o então Prefeito Jaime Câmara. Foi aí que se sentiu atraído para o setor administrativo. A seguir, deputado estadual, foi quando o conheci pessoalmente.  Na época, já demonstrava sua vocação como tocar de obras. Eleito Presidente da Assembleia, logo ampliou o prédio.

Gostou, tanto que, em 1965, resolveu candidatar-se a Prefeito, pelo PSD de Pedro Ludovico.  Empreitada difícil; parada muito dura. O candidato da UDN era José Ludovico, que se desentendera com os parentes e trocou de Partido. Como Govenador, poucos anos antes, Juca havia sido, até então, o melhor Prefeito para Goiânia, cujos órgãos, muitos dos quais pertenciam ainda à administração estadual.

Na campanha de 1965, era eu diretor da Rádio Jornal, onde mantinha dois programas diários e era seu único radio repórter.  Mesmo correndo o risco de perder o ano na Faculdade de Direito Federal (já no 3º ano), acabei aceitando ser o locutor oficial da campanha. Compromisso: acompanhar o candidato a governador, Peixoto da Silveira, em todo o Norte e nas demais principais cidades do Estado, assim como nos dois últimos comícios, que, tradicionalmente, realizavam-se, no final das campanhas, na Praça Cel. Joaquim Lúcio, em Campinas, e na Praça do Bandeirante.

Ao final, Peixoto perdeu para Otávio Lage; Iris Rezende, surpreendentemente, ganhou de Juca Ludovico!  Aproximou-se o dia da posse. Fui procurado por Iris, na Rádio Jornal, às 10 horas da noite. Convidou-me para ser o seu chefe de imprensa e de relações públicas.  Embora honrado, agradeci. Não tinha condição; teria que deixar a Rádio, em cujo faturamento eu tinha participação, bem como os meus programas. O prejuízo financeiro seria muito grande.  Presente, o Dr. Lizandro Vieira da Paixão, dono da Rádio, que era deputado federal pelo partido coligado, PTB, também ponderou, dizendo que minha saída da emissora, então líder de audiência em Goiânia, para sua empresa, igualmente, seria muito prejudicial. Não se convenceu. Educado, mas, resoluto, levantou-se e disse: entre vários, escolhi você e é você que eu quero. Pense, volto amanhã, neste mesmo horário, para receber seu SIM. Despediu-se.

No dia seguinte, exatamente na hora aprazada, retornou.  Perguntou: e então? a posse é daqui a dois dias, será num caminhão, na frente da Prefeitura (um prédio alugado, na Av. Anhanguera n. 20, que não tinha auditório).  Quero que você tome todas as providências, prepare o ato; vou fazer um discurso, convide a imprensa, você será o locutor. Mas, Iris… Não tem mas – interrompeu – vim ouvir o sim!  Você é mineiro, eu sei, mas já está em Goiânia, como eu, há muitos anos. Devemos demais a esta Cidade. Ela está precisando muito de nós agora. Até lá, será às 10 horas da manhã. Levantou-se rápido, despediu-se e saiu.  Embora honrado, fiquei atordoado. Se fosse, iria deixar de receber em torno de um milhão de cruzeiros por mês, em troca de 480 mil. Virei para o Dr. Lizandro e perguntei. E agora, doutor?  Respondeu: olha, eu sei que ambos teremos prejuízo. Mas, para mim, era muito difícil dizer ao Iris que não concordava. Somos políticos, nossos partidos são coligados.  Pense…!  mas sugiro que você vá, fique por uns três meses, monte o serviço de imprensa e de relações públicas como ele quer; exija a contratação de um auxiliar, prepare-o para ser seu substituto…  Ao final, peça desculpas e volte. As vagas, de diretor e dos seus programas, ficam reservadas.

Fui, encantei-me logo com a liderança, a capacidade de trabalho de Iris e com seu plano de governo. Logo, vieram os mutirões, limpeza pública, tapagem de buracos e asfaltamento de ruas; Vila Redenção, com o Hospital Dª Iris; ligação asfáltica Goiânia-Fama-Campinas e, no ano seguinte, outra, ligando a Praça Cívica a Campinas, via Avenida Assis Chateaubriand-Mutirão-Vila Coimbra, até a antiga Praça da Araguarina; construção da segunda pista da Av. Anhanguera, atravessando Campinas, até o trevo de Trindade. Depois, um prédio novo para a Prefeitura, na Praça Cívica e, com a experiência adquirida nos Estados Unidos, aonde fora a convite do Departamento de Estado, o Mutirama! que não conseguiu inaugurar. Foi cassado dois dias antes.

Durante todo o tempo, entusiasmo total! Mesmo não o conhecendo, era (e é) muito difícil alguém estar com Iris, ainda que por poucos minutos, e não sair seu fã. Fiquei, não por três meses, mas por quase quatro anos, até sua cassação que, como se sabe, não se deu por desonestidade nem por resistência ao Regime. Aconteceu por ser o maior líder à época, pronto para ser governador a partir das eleições de 1970 (se realizadas).  Aos militares, porém, não interessavam líderes civis. Ao contrário, até.

Rememorando: meses depois da posse, já inaugurado o novo endereço provisório da Prefeitura – um grande galpão construído às pressas, na Praça do Trabalhador – como, embora solteiro, eu era arrimo de família, com pai já idoso, não podendo trabalhar, para continuar com Iris, precisava, sem prejuízo do serviço na Prefeitura, voltar ao rádio. Aceitei – mesmo à contragosto dele – um convite da Rádio Clube, para produzir e apresentar um programa musical, diariamente, entre onze e doze horas (hora de almoço, que, quase sempre, era sacrificado, patrocinado pela MASP-PEDRIL, do nosso grande amigo comum Afrânio de Souza). Mesmo com sacrifício, o importante era continuar com ele, participando de sua luta incansável.

As notícias sobre os mutirões, e demais atividades revolucionárias dele em Goiânia, ganharam as emissoras de rádio, televisão e páginas de jornais daqui e alhures. Não tardou muito, recebemos um telefonema de São Paulo: a Revista Realidade, recém fundada para concorrer (e como concorreu!)  com as maiores da época – O Cruzeiro e Manchete –  pretendia mandar um repórter a Goiânia, para entrevistá-lo e fazer uma reportagem sobre o trabalho dele. Respondemos que seria recebido com o muito prazer, mas a Prefeitura não tinha verba para fazer qualquer despesa com tais publicações. O interlocutor disse que não se tratava de matéria paga; era puramente jornalística, sem ônus algum ao Município. Na semana seguinte, chegaram: um repórter e um fotógrafo. Aqui permaneceram por uns três dias. Fizeram a entrevista e uma reportagem longa, editada com a seguinte chamada de capa, em manchete: EM GOÁS, NASCE UM DEMAGOGO!  Quando vimos, esfriamos, abrimos logo para ver que diabos estava dizendo a tal matéria gratuita. Em várias páginas centrais, a surpresa: num trabalho jornalístico de excelente qualidade, a manchete emocionante: “ATENÇÃO, ESTÁ NASCENDO UM LÍDER!”.

Frase profética. A Revista tinha razão.  Se ela ainda existisse, poderia, quem sabe, fazer a última reportagem, e terminar dizendo: “Aquele que, há 54 anos, vaticinamos, dizendo: “ESTÁ NASCENDO UM LÍDER” – Iris Rezende Machado – está deixando a vida pública.  Sai para ETERNIZAR-SE NA HISTÓRIA POLITICOADMINISTRATIVA DE GOIÁS”. Seguramente, outra profecia!

* Castro Filho é membro da Associação Goiana de Imprensa, ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), mestre em Direito, ex-professor. Atualmente consultor jurídico e advogado.