Foto: Carlos Barria/Reuters

Trump insiste, mas autoridades eleitorais descartam fraude nos EUA

Apesar da insistência do presidente republicano, Donald Trump, em denunciar irregularidades nas eleições de 3 de novembro, autoridades republicanas e democratas de 45 estados norte-americanos garantiram ao jornal The New York Times não terem encontrado evidências de fraudes ou de anomalias capazes de afetar o resultado das urnas.

Em uma das declarações mais incisivas, Frank LaRose, republicano e secretário de Estado de Ohio, fez uma crítica a Trump, sem citar o nome do magnata. “Há uma grande capacidade humana de inventar coisas que não são verdadeiras sobre a eleição. As teorias da conspiração, os rumores e todas aquelas coisas correm soltas. Por alguma razão, as eleições fomentam esse tipo de mitologia”, disse. O democrata Steve Simon, secretário de Estado em

Minnesota, respondeu ao NY Times que desconhece “um único caso em que alguém tenha argumentado que um voto foi apurado quando não deveria tê-lo sido”. “Não houve fraude”, assegurou. Trump e sete republicanos de Michigan entraram com uma ação federal para bloquear a certificação dos resultados eleitorais no estado, onde o democrata Joe Biden venceu com 147 mil votos de diferença.

O presidente republicano chegou a publicar um vídeo, ontem, em que supostos funcionários do serviço postal coletam votos de dentro de uma caixa de coleta, em uma calçada, na Califórnia. “Vocês estão olhando para as cédulas! É a esse estágio que o nosso país chegou?”, pergunta Trump, em seu perfil no Twitter. Em outra mensagem, o titular da Casa Branca denuncia que “um cara chamado Al Schmidt, comissário da Filadélfia e autointitulado republicano, é usado pela ‘mídia fake news’ para explicar como as coisas foram honestas na eleição da Filadélfia”. “Ele se recusa a olhar para uma montanha de corrupção e de desonestidade. Nós vencemos”, escreveu o magnata. Mais uma vez, o Twitter marcou a publicação como “contestada”.

Trump também atacou as “pesquisas falsas” da emissora ABC e do jornal The Washington Post. “(Elas) Produziram uma sondagem de supressão possivelmente ilegal pouco antes da eleição, mostrando-me em uma queda de 17 pontos percentuais em Wisconsin, quando, na verdade, no dia da votação, a corrida estava equilibrada. Agora, estamos nos preparando para ganhar o estado. Muitos desses exemplos ‘deploráveis’”, desabafou Trump, sem mostrar provas.

Alheio à relutância em parabenizar-lhe pela vitória, o presidente eleito dos Estados Unidos mantém os preparativos para a transição de governo. Pelo cronograma eleitoral, Joe Biden tomará posse em 69 dias. A emissora CNN divulgou que ele deverá anunciar hoje o chefe de gabinete da Casa Branca durante sua gestão. O principal cotado ao cargo é Ron Klain, que também comandou o gabinete de Biden entre 2009 e 2011, quando ele era vice-presidente de Barack Obama.

Ontem, tanto Biden quanto Trump participaram de cerimônias alusivas ao Dia dos Veteranos. “Serei um comandante-em-chefe que respeitará seu sacrifício, compreenderá seu serviço e jamais trairá os valores pelos quais vocês lutaram com tanta bravura”, tuitou o democrata, que depositou uma coroa de flores no Memorial da Guerra da Coreia, na Filadélfia, acompanhado da futura primeira-dama, Jill Biden. No front da batalha contra a covid-19, os Estados Unidos registraram o recorde de mais de 200 mil casos de infecção entre terça-feira e ontem, além de 1.535 mortes.

Ex-advogado-chefe do Conselho de Ética da Casa Branca entre 2005 e 2007, durante o governo de George W. Bush, Richard W. Painter sublinhou ao Correio que não houve sinal de irregularidade nas eleições de 3 de novembro. “Os líderes republicanos e democratas reconhecem que não existiu demonstração importante de fraude que pudesse afetar o resultado em qualquer estado onde os democratas foram vitoriosos. A não ser que um ou outro eleitor possa não ter votado, o que não implica em mudança decisiva no desenlace da votação”, explicou o também professor da Faculdade de Direito da Universidade de Minnesota.

“A eleição não foi impactada por fraude. Creio que Trump, ao continuar a falar sobre ilegalidades na votação, mina a confiança na democracia norte-americana e coloca os partidos Republicano e Democrata em uma situação muito complicada”, acrescentou Painter. “Os republicanos sofrerão os danos maiores. Por isso, mais líderes do partido de Trump vão se distanciar do presidente, ainda que não critiquem diretamente a atitude dele.”

Geórgia

O estado da Geórgia, onde Biden lidera a apuração com mais de 14 mil votos de diferença para Trump, anunciou que fará a recontagem manual e auditada das cédulas. “Com uma margem tão próxima, exige-se uma recontagem manual completa em cada município. Isso ajudará a aumentar a confiabilidade (da votação). Será uma auditoria, uma recontagem e uma resondagem, tudo de uma vez. Será um trabalho pesado, mas trabalharemos com os condados para fazê-lo em tempo de nossa certificação estadual”, afirmou o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger. Por sua vez, Tim Murtaugh, porta-voz da campanha de Trump, disse a jornalistas que a recontagem levará tempo e não descartou uma mudança no resultado das eleições. “Se todos estiverem procurando por uma única ação que será a bala de prata que derrubará toda a eleição, será um processo”, comentou, segundo o The New York Times.

A aparição do magnata

Dois dias depois de demitir o secretário de Defesa, Mark Esper, e de trocar postos importantes no Pentágono, o presidente Donald Trump fez, ontem, sua primeira aparição oficial desde a derrota nas eleições de 3 de novembro. O republicano compareceu ao Cemitério Nacional de Arlington, no estado da Virgínia, na data de união nacional pelo Dia dos Veteranos. Em cerimônia ocorrida debaixo de chuva, Trump preferiu não falar à imprensa. Em comunicado escrito com antecedência, o magnata declarou: “Desfrutamos dos privilégios de paz, prosperidade e liberdade, graças aos nossos veteranos, e estaremos sempre em dívida com eles de forma incalculável”.

» Eu acho

“O Partido Republicano sofrerá imensamente se não apoiar o presidente eleito como o nosso próximo chefe de Estado. Isso não significa que os republicanos concordem com Joe Biden. Os congressistas republicanos vão se opor às políticas de Biden, mas é uma obrigação deles, dos democratas e dos independentes reconhecerem-no como o vencedor desta eleição.” Richard W. Painter, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Minnesota e ex-advogado-chefe do Conselho de Ética da Casa Branca.

O Partido Republicano conseguiu, ontem, a 50ª cadeira no Senado dos Estados Unidos, com a reeleição de Dan Sullivan, no estado do Alasca. Segundo projeções das emissoras CNN e NBC, o senador obteve mais de 57% dos votos. A vitória de Sullivan mantém, pelo menos por enquanto, o domínio do Senado pelos aliados de Donald Trump. Agora, o Partido Republicano controla 50 dos 100 assentos na Casa contra 48 para os democratas. Ainda restam duas cadeiras, que serão disputadas na eleição legislativa no estado da Geórgia, tradicionalmente conservador, em 5 de janeiro.

Os democratas precisarão ganhar as duas cadeiras para empatar com os republicanos e dar ao presidente eleito, Joe Biden, mais liberdade e tranquilidade para implementar sua política. Com o empate, o voto de Minerva caberia à futura vice-presidente, Kamala Harris, do Partido Democrata. Nenhuma lei pode ser aprovada nos Estados Unidos sem o aval do Senado, a Câmara Alta do Congresso. A Casa também detém o poder de aprovar nomeações do presidente: ministros, embaixadores e juízes, incluindo os magistrados da Suprema Corte.

Confiança

Na terça-feira, Biden mostrou-se confiante em poder trabalhar com um número suficiente de congressistas republicanos, caso seja necessário. Em relação à corrida presidencial, o presidente Trump conseguiu os três votos eleitorais do Alasca, segundo a mídia americana nesta quarta-feira, mas essa vitória não muda nada no que diz respeito ao resultado geral das eleições. Biden tem, ao menos, 279 votos dos 538 votos eleitorais e precisava de 270 para chegar à Casa Branca. Trump conseguiu 217, enquanto espera-se o resultado final na Geórgia, Carolina do Norte, além do Arizona, onde alguns meios de comunicação já dão a vitória ao democrata.

 

 

Rodrigo Craveiro Via Correio Braziliense