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(crédito: Antonio Cruz/Agencia Brasil)

Trio Moro, Huck e Doria recebe ataques do governo e da oposição

A possibilidade de uma chapa formada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro e pelo apresentador Luciano Huck causou alvoroço no governo e no meio político nacional. A dois anos das eleições presidenciais, os dois deram a largada para a corrida ao Planalto, num encontro em Curitiba. O ex-juiz da Lava-Jato também se articula com outros possíveis apoiadores, como Luiz Henrique Mandetta (DEM), ex-ministro da Saúde, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Até mesmo o vice-presidente Hamilton Mourão aparece nas pretensões do ex-magistrado.

O encontro entre Moro e Huck estava sendo planejado havia meses e ocorreu no mês passado. O apresentador de tevê aparece como principal opção para vice em uma chapa, em razão do poder de influência e do nível de engajamento político que vem ganhando desde 2018, quando pensou em se lançar à presidência. A intenção do ex-ministro da Justiça do governo é criar uma alternativa de centro ao presidente Jair Bolsonaro, representante da direita, e à esquerda, conduzida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus apoiadores.

As negociações seguem a pleno vapor e, ontem, Huck almoçou com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nem o comunicador nem Sergio Moro têm disputas de cargos eletivos no currículo. O deputado seria uma peça-chave para ampliar a articulação e conseguir apoio no Congresso e nos estados. No Planalto, os olhares se voltam para integrantes do governo que podem mudar de lado nos próximos meses e passar a apoiar Moro, que ainda conta com a simpatia de muitos integrantes do Executivo.

O incômodo com a provável chapa ficou visível no governo. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, usou o Twitter para se manifestar sobre a eventual parceria. “Não basta trair no governo, trair na saída, tem de continuar flertando com a traição. É um triplo mortal carpado”, escreveu. Por ora, no entanto, a recomendação é que os integrantes do Executivo evitem se pronunciar sobre o assunto, para não dar mais projeção ao ex-ministro.

Representantes da esquerda também comentaram o tema. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) disparou contra Moro. “A fraude que campeia no Brasil não cede espaço. No dia em que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultra-esquerda, o que eu nunca fui”, afirmou, em um evento de campanha, num galpão na zona oeste de São Paulo. Ele disse, ainda, que o bolsonarismo e o PT vêm perdendo força e isso deve ficar evidenciado nas eleições municipais deste ano. “Está muito cedo ainda, falta uma semana, mas parece que o bolsonarismo boçal e o lulopetismo corrompido vão levar uma grande surra no Brasil inteiro a preço de hoje”, ressaltou. “Isso quer dizer que o eleitorado brasileiro, em sua esmagadora maioria, como segunda razão do seu voto, está banindo esses dois extremos. O primeiro motivo é a água, é a luz, é o telefone, moradia, ônibus. A segunda é um posicionamento político.”

Do centro à direita

Moro afirma ser um político de centro, o que seria uma alternativa a Bolsonaro e aos candidatos de esquerda. No entanto, especialistas divergem sobre o alinhamento do ex-ministro, principalmente por ele ter aceitado integrar o atual governo por mais de um ano. O professor Ricardo Caichiolo, cientista político do Ibmec de Brasília, acredita que a formação da chapa deve se concretizar, mesmo que ainda faltem dois anos para as eleições. “As últimas pesquisas apontam Moro com 10% a 11% das intenções de voto. Mandetta tem um percentual bem razoável, além do Doria, que tem uma pegada mais ao centro quando se compara com a direita, ou a extrema direita, representada pelo Bolsonaro. O que deve começar, agora, é a articulação para saber quem encabeça a chapa. Pode ser o Moro, Mandetta ou Doria”, disse.

O cientista político Leonardo Queiroz Leite afirmou que Moro pode ser avaliado de acordo com a conduta que teve no Ministério da Justiça. “Sergio Moro ainda não tem uma linha política clara, mas tende a ficar, em primeiro momento, como centro, ou centrodireita. Mas, hoje, ele precisa fazer acenos para seus possíveis parceiros. Ele deve testar o discurso e ver onde deve ter resistência. Deve ter um estilo mais conciliador, como o Rodrigo Maia, no DEM”, frisou.

“Zero” chance de apoio

Antes do encontro, Rodrigo Maia afirmou que a chance “é zero” de dar respaldo a uma chapa que tenha Moro. “Não posso apoiar uma chapa integrada por alguém de extrema-direita”, justificou, em entrevista à colunista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo. “Moro já defendeu ideias e divide a parte do eleitorado de extrema-direita com Bolsonaro. Por isso, ele cai nas pesquisas quando disputa com o presidente”, frisou. Em outubro, o jornal O Globo revelou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) reabriu uma investigação sobre supostos pagamentos da empreiteira OAS a Maia. O inquérito — no âmbito da Lava-Jato, que já teve Moro como juiz — corre em sigilo e investiga supostos repasses de caixa dois da OAS ao deputado, com base na delação premiada de funcionários do setor de contabilidade paralela da empreiteira.

O vice-presidente Hamilton Mourão foi ventilado pelo ex-ministro Sergio Moro como eventual integrante de uma chapa de centro para concorrer às eleições ao Planalto em 2022. De acordo com interlocutores do militar, ele, de fato, tem pretensões políticas para o próximo pleito, mas deve manter o apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Segundo um aliado de Mourão, ele vê a eventual candidatura dele à Presidência, ou vice em outra chapa, como uma traição contra Bolsonaro, que lhe deu a oportunidade de concorrer nas eleições de 2018. O general sabe que pode ser deixado de lado pelo presidente e não ser convidado para concorrer novamente a vice. “Ele prefere trair do que ser traído”, disse um amigo próximo do vice-presidente, sob a condição de anonimato. Em entrevista ao jornal O Globo, Moro citou nomes como o apresentador Luciano Huck e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, além de Mourão, para compor uma chapa com o objetivo de concorrer contra Bolsonaro e candidatos de esquerda.

Mourão tem dito, para pessoas próximas, que se não for convidado por Bolsonaro para ser vice, concorreria ao Senado. Se os planos políticos não derem certo com o chefe do Executivo nem no Legislativo, ele se afasta do cenário político para se dedicar aos netos. Mas uma parceria com Moro não tinha sido avaliada até agora. No momento, o vice-presidente optou por não se manifestar sobre o caso e focar na gestão que está em andamento.

 

 

Renato Souza Via Correio Braziliense