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Um dia antes, Trump disse que o amigo Bolsonaro vem enfrentando "um momento difícil" Alan Santos/PR

Políticos e especialistas criticam postura de Bolsonaro diante de vitória de Biden

O presidente Jair Bolsonaro resiste em telefonar para o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, para parabenizá-lo pela vitória, gesto que significa o reconhecimento de um chefe do Executivo a outro. A pressão para que o comandante do Planalto tome a atitude pode vir do Congresso. A tônica é de que o Parlamento não tem poder nem deve fazê-lo, mas deputados e senadores criticam a situação. Especialista alertam que o gesto do mandatário brasileiro provoca um desgaste ainda maior à já combalida diplomacia do país.

O que se sabe é que Bolsonaro ainda não tomou uma decisão sobre o tema. Na avaliação de interlocutores do Planalto, ele só deve se manifestar após o republicano e candidato derrotado Donald Trump resolver os problemas jurídicos sobre a apuração dos votos nos Estados Unidos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), primeira autoridade brasileira a parabenizar Biden, disse esperar que Bolsonaro faça o gesto. Ele fez críticas ao modo com que o presidente da República e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, têm se comportado em relação às eleições americanas.

“O governo brasileiro vai reorganizar sua relação com o presidente eleito. Isso é muito importante. Como a democracia americana é a mais importante do Ocidente, eu espero que o governo brasileiro possa parabenizar o presidente eleito, respeitando as urnas, e estabelecer uma relação com o novo presidente de forma pragmática, que interesse aos dois países, em que as trocas possam ser priorizadas, que foi o que não vimos com Trump”, pregou Maia. “Vimos, pela primeira vez, um país mais pobre beneficiar a eleição do país mais rico. Espero que o presidente possa parabenizar o presidente eleito e reconstruir nossa relação com o vitorioso das eleições americanas.”

Outros parlamentares comentaram a situação. Integrante da Frente Parlamentar Brasil-EUA da Câmara, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) disse que Bolsonaro está sendo coerente, mas criticou o presidente por declarar apoio a Trump. “Não tenho ideia de como Bolsonaro vai se comportar, mas ele errou de se posicionar. Um chefe de Estado não deve interferir no processo democrático de país estrangeiro”, frisou. O líder do PT na Casa, deputado Ênio Verri (PR), apontou um Brasil ainda mais isolado. “Bolsonaro deverá continuar fazendo as besteiras que sempre faz. E nos expondo ao julgamento do resto do mundo”, criticou.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, amenizou o silêncio de Bolsonaro. Para ele, a atitude não deve impactar nas relações comerciais entre os dois países. “Essa demora não tem muita importância, por ser meramente protocolar. Por ser apoiador do Trump, Bolsonaro adotou uma cautela. Ele fez o mesmo quando os candidatos apoiados por ele perderam na Argentina e na Bolívia, por exemplo”, explicou. “A relação de negócios será mantida, porque o interesse comercial entre os dois países é bem maior. Teremos mudanças nessa relação de amizade entre os dois presidentes, tudo será mais pragmático entre os dois.”

Protocolo

Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Pedro Feliú, por sua vez, destacou que Bolsonaro quebrou o protocolo diplomático. “Essa atitude só piora um pouco. Mas, ainda assim, é possível que o Brasil reverta”, disse, citando a agenda ambiental, de grande importância para Biden.

Segundo Feliú, o Brasil queimou pontes de uma relação política com a China, depois das manifestações contrárias ao país por parte do governo Bolsonaro, e o mundo sabe disso. Isso dá, segundo ele, garantia a Biden de que o Brasil não poderá recorrer à China, que seria uma alternativa econômica aos Estados Unidos. “Isso dá certa segurança a ele de até, talvez, baixar o Brasil nas prioridades americanas.”

Cumprimentos“na hora certa”

Enquanto o governo brasileiro mantém o silêncio sobre a vitória de Joe Biden nos EUA, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou ontem que “na hora certa” o presidente Jair Bolsonaro transmitirá os cumprimentos ao eleito nos EUA. Ele opinou que o país “não corre risco” de ficar para trás nas relações com os americanos mesmo sendo um dos poucos países que ainda não falaram sobre o resultado da votação. “Eu julgo que o presidente está aguardando terminar esse imbróglio de discussão se tem voto falso, se não tem voto falso, para dar o posicionamento dele. É óbvio que o presidente, na hora certa, vai transmitir os cumprimentos do Brasil a quem for eleito”, disse em conversa com jornalistas, ao chegar ao edifício da vice-presidência.

 

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, buscou passar, ontem, uma imagem de alinhamento entre Brasil e Europa em relação às pautas ambientais, apesar das recentes pressões vindas de países daquele continente devido ao aumento do desmatamento e queimadas.

Araújo afirmou que o Brasil compartilha diversas características com a Europa, como preocupação maior com os mais vulneráveis e com o desenvolvimento sustentável. No entanto, conforme o chanceler, existem correntes simpáticas “a um cartel político criminoso” na América do Sul que “não querem que se enxergue essa profunda sintonia” entre o governo do presidente Jair Bolsonaro e a Europa.

“Querem criar desacordo e animosidade entre nós. Para isso, usam um tecido muito denso e sofisticado de desinformação em torno, principalmente, do tema ambiental. É preciso entender quem são aqueles que querem nos dividir, quem são aqueles que querem que a Europa enxergue o Brasil, no momento, por uma lente completamente distorcida”, disse, sem citar nomes. As declarações foram gravadas e transmitidas no 6º Simpósio sobre Segurança Regional Europa-América do Sul.

Para o ministro, as ações são, em grande parte, daqueles que não querem uma parceria entre Brasil e Europa “no combate ao crime organizado e suas conexões políticas”. “Quanto mais atuarmos em conjunto no combate ao crime e em favor da segurança, mais ficará evidente a sintonia e a irmandade de sentimentos e objetivos que nos une. A diplomacia brasileira quer se constituir, hoje, num instrumento de defesa desses valores, diante da ameaça representada pelo cartel político criminoso”, frisou, também de maneira genérica.

No ano passado, Alemanha e Noruega suspenderam repasses ao Fundo Amazônia, após discordar do governo Bolsonaro, alegando que não estavam vendo ações efetivas para conter os níveis de degradação ambiental. Na última semana, o vice-presidente Hamilton Mourão fez uma viagem à Amazônia com embaixadores de Alemanha, África do Sul, Espanha, França, Portugal, Reino Unido, Suécia, Canadá, Colômbia e Peru. O objetivo era, justamente, mudar a imagem de que o país não tem combatido desmatamento e queimadas na região.

Venezuela

No discurso na abertura do simpósio, Araújo afirmou que nunca foi tão importante uma colaboração pela segurança entre Europa e América do Sul. Conforme o ministro, existe uma tendência de consolidação “de uma grande rede de todos os tipos de crime com correntes políticas totalitárias ou simpáticas ao totalitarismo”. Para o chanceler, é preciso reconhecer o problema, que também afeta a Europa, e enfrentá-lo em conjunto com o Brasil.

O primeiro fator a entender, segundo ele, “é a operação desse cartel político criminoso”. “Que podemos classificar como um iceberg, cuja ponta apenas é na Venezuela, no regime que lesa a humanidade, de Nicolás Maduro. A Venezuela se tornou o paraíso do crime organizado e do terrorismo”, criticou. Ele afirmou que “esse cartel, a partir da América do Sul, afeta todas as regiões”.

 

 

Luiz Calcagno, Sarah Teófilo e Wesley Oliveira Via Correio Braziliense