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A RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

*  Por Vivaldo Lopes

Formou-se um quase consenso no meio governamental, empresarial, analistas do mercado financeiro, economistas e consultorias financeiras que a retomada da atividade econômica do país se dará, de forma lenta, em 2021, após a inesperada interrupção de 2020. As divergências surgem a partir da discussão sobre como financiar a recuperação. Alguns admitem ser aceitável que, diante da atual situação fragilizada da economia, o governo deve gastar mais dinheiro para promover a recuperação e assegurar o futuro.  Alegam que os gastos para alavancar a recuperação serão compensados com o PIB voltando a crescer, aumentando o consumo, a produção, lucros, empregos e arrecadação de tributos. Outra linha de pensamento assegura que o estado atuou bem na fase mais aguda da crise econômica, ofertando crédito para as empresas, flexibilização tributária e trabalhista, renda emergencial aos desempregados e socialmente fragilizados pela pandemia. Deve, daqui em diante, atuar para promover as reformas estruturais, como a administrativa, emergencial, tributária, novo pacto federativo, privatizações, novos marcos regulatórios, reduzir gastos operacionais, manter a inflação sob controle, juros baixos. Nesse novo ambiente de negócios pós pandemia o capital privado terá protagonismo na recuperação da economia, exigindo-se menos gastos governamentais.

Após a freada brusca e a profunda queda do PIB nos meses de março, abril e maio, a economia brasileira voltou a crescer timidamente em junho, sinalizando reaquecimento nos dois últimos trimestre do ano. Um dos motores desse reaquecimento foi o alto impacto do programa de auxílio emergencial que injetou mais de R$ 264 bilhões, beneficiando mais de 68 milhões de pessoas, segundo relatórios divulgados pelo Ministério da Economia. Além das medidas elencadas acima, o tesouro nacional aprovou programa de socorro financeiro aos estados e municípios que contemplou aporte financeiro para enfrentarem crise de caixa com a queda de arrecadação e suspensão do pagamento das parcelas das dívidas destes com o próprio tesouro federal e bancos públicos. Esse enorme esforço fiscal vai custar mais de R$ 800 bilhões ao país, aumentando a dívida pública.

Vejo como fundamental a participação do capital privado na retomada do crescimento econômico, sem, entretanto, prescindir da participação do estado. As argumentações econômicas são de que o Brasil teve que aumentar seu endividamento para enfrentar a crise sanitária que virou crise econômica. Atingiu 95% do PIB, patamar acima do aceitável pelo mercado mundial de crédito para países emergentes. Se a administração federal tiver força e habilidade política para aprovar as reformas, dará a sua grande contribuição para a economia deslanchar e o investimento privado prosperar, especialmente em áreas como infraestrutura, inovação tecnológica e a chamada industrialização 4.0. Por outro lado, é preciso considerar que o histórico e a cultura brasileira de alta dependência do setor público não vão desaparecer num passe de mágica a partir de janeiro próximo. A “descoberta”, pelo governo federal, de um imenso exército de desamparados e o próprio sucesso do programa de auxílio emergencial estabeleceram uma verdade: a impossibilidade de se retirar repentinamente essa proteção social ao final deste ano. Trata-se até mesmo de uma questão humanitária: ajudar as famílias a pagar seus aluguéis, manter comida para suas crianças e prepará-las para se tornarem adultos saudáveis e produtivos. O mercado de trabalho levará mais tempo para reaquecer e o número de desempregados deve até aumentar nos primeiros meses do próximo ano, exigindo um programa de transferência de renda antes de retornarem ao mercado. A elevada liquidez de poupança no mercado mundial, juros internos e internacionais muito baixos proporcionam oportunidade ímpar para o Brasil captar recursos a custos menores, alterar o perfil de sua dívida e ajudar a financiar a travessia da crise para o reaquecimento da atividade econômica sem ameaçar a solvência futura do país. A aprovação das reformas, realocação de recursos orçamentários e redução dos gastos são componentes importantes para tornar isso uma realidade. Será preciso, naturalmente, que o atual governo consiga liderar coalização que envolva toda nação, poder executivo, parlamento nacional e judiciário, alinhados sob o princípio de que a situação exige grandeza de todos e que o momento é de se tomar decisões pensando nas próximas gerações e não apenas nas próximas eleições.

 

* Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP (vivaldo@uol.com.br)