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Movimentação popular em prol da intervenção militar - Foto Reprodução

No ABC, secretária de origem austríaca ajudou a localizar estudantes na ditadura

Monika Kirchhoff tinha menos de 20 anos quando passou a ter contato com a ditadura militar de um jeito inusitado: oferecendo cafezinho, fazendo sala, atendendo telefonemas.
Na década de 1960, ela trabalhava como secretária de um importante executivo em uma montadora de veículos em São Bernardo Campo (SP). Por questões éticas, prefere não dizer quem era seu chefe nem o nome da empresa.
O patrão chefiava o departamento responsável pelas vendas de veículos a órgãos de governos. A rotina da jovem incluía intermediar ligações entre a empresa e importantes autoridades do governo federal em Brasília, incluindo integrantes do alto escalão das Forças Armadas.
Generais de quatro estrelas e autoridades da segurança pública estadual entravam e saíam o tempo todo do gabinete em que ela trabalhava. Com frequência, quando o vaivém era intenso, precisavam esperar antes de serem atendidos e acabavam puxando papo com ela e demais funcionários do local.
Hoje com 73 anos, viúva, com três filhos e oito netos, ela vive em São Bento do Sul (SC), para onde se mudou há cerca de 30 anos.
Ao ver a Primeira Página da Folha de S.Paulo de 28 de junho, mostrando a campanha em defesa da democracia, lembrou-se de sua experiência no ABC de cinco décadas atrás e enviou uma mensagem para o jornal.
“Folha, boa tarde, vivi este período. Amigos cursando ensino superior à noite não voltavam para casa. Golpe militar, ditadura, nunca mais”, escreveu, acrescentando um sinal de polegar negativo ao final da frase.
Os amigos que sumiam, relata ela em entrevista por telefone, eram parte da rotina. Muitos dos que trabalhavam na empresa estudavam em faculdades da região à noite, e era comum não voltarem para casa.
“Ligavam para mim muitas mães desesperadas porque os filhos tinham ido para a faculdade e haviam sumido. Pediam que eu acionasse os advogados da empresa para que ajudassem a localizá-los”, afirma.
A influência da montadora junto ao governo costumava funcionar e, em geral, jovens que haviam sido levados à delegacia pelo simples motivo de serem estudantes eram soltos.
Outra cena frequente ocorria durante o trajeto entre sua casa na época, em São Caetano do Sul, e o trabalho, percorrido num ônibus da empresa. “Era muito comum pegarmos a via Anchieta e cruzarmos com caminhões do Exército, com soldados todos armados. Não era difícil também encontrarmos tanques pela estrada.”
A ditadura brasileira não foi a primeira a afetar diretamente a vida de Kirchhoff. Ela nasceu na Áustria, filha de húngaros que foram perseguidos pelos nazistas.
Seu pai era oficial do Exército da Hungria e acabou preso por não querer revelar a localização de equipamentos militares que o regime de Adolf Hitler queria confiscar. Talvez por ser católico, e não judeu, foi enviado para uma prisão, e não um campo de concentração.
“Meu pai foi preso e torturado. Minha mãe convenceu os guardas da prisão a desligar a corrente elétrica da cerca em troca de bebida. Meu pai então fugiu passando por baixo da cerca e foi abrigado num porão por um padre católico”, afirma.
Com a ajuda da Cruz Vermelha, o casal foi para a Áustria ao fim da guerra, onde Monika nasceu. Em 1948, quando ela tinha dois anos, decidiram tentar a sorte no Brasil. Vieram de navio e se instalaram em São Paulo, o pai trabalhando como mordomo e a mãe como cozinheira para famílias abastadas da capital.
Aos 18 anos, ano do golpe de 1964, a jovem entrou na montadora como estagiária e não demorou muito para virar secretária. Com o tempo, acabava ganhando a confiança de interlocutores que iam ao local tratar de vendas de veículos com seu chefe.
“Meu chefe era uma pessoa muito democrática. Às vezes chegava um vereador de cidadezinha do interior que queria conversar sobre uma ambulância, e o general tinha que esperar a sua vez de entrar”, diz.
Enquanto esperavam, conversavam amenidades. “Eu dava uma de bobinha e deixava a pessoa falar. E era interessante como as pessoas se entusiasmavam, e contavam, e tal e coisa. Num trabalho como o meu tem que ser muito diplomático, e eu era mesmo”, lembra.
De vez em quando, ela arriscava encaixar nas conversas com figurões do regime alguma pergunta ou comentário sobre política. “Eles respondiam sempre que o comunismo estava dentro do Brasil, que tinha que erradicar esse câncer e tudo mais”, lembra.
A paranoia com a ameaça vermelha alcançou diretamente seu pai. Um dia, no centro de São Paulo, ele conversava em alemão com um amigo quando foi abordado por policiais e levado para a delegacia. “Achavam que estivesse falando russo, que eram comunistas infiltrados no Brasil”, lembra. A confusão, felizmente, foi desfeita em pouco tempo.
Na década de 1970, após ter se formado em administração, ela pediu demissão. Passou a se dedicar ao trabalho social e aos filhos. O marido era um engenheiro brasileiro, filho de alemães, que morreu há 11 anos.
Moraram um tempo em Barretos (SP), onde a brasileira-austríaca sofreu com o calor. Lá, trabalhou com o movimento de escolas Waldorf.
Ao se mudar para Santa Catarina, onde há uma grande colônia austríaca, engajou-se em ações de adoção legal. Envolveu-se também com a Pastoral da Criança, onde conheceu sua fundadora, Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, em 2010.
Por sorte, ela nunca foi presa ou sentiu efeitos físicos da repressão, o que não a impede de até hoje ter verdadeiro horror àqueles anos. “Eu sei o que é a ditadura, e por isso me revolta quando vejo pessoas que pedem a sua volta. É muito deprimente isso, muito triste.”

 

As informações são de FÁBIO ZANINI / (FOLHAPRESS)