(Foto: Diego Padgurschi/Folhapress)

Vírus ameaça PIB chinês e economia global

Com um salto de 40% no número de mortos e infectados pelo coronavírus chinês de domingo (26) para esta segunda-feira (27), o mercado financeiro teve um pregão de forte aversão a risco.
A Bolsa brasileira teve a maior queda percentual desde junho de 2019. O dólar comercial chegou a bater nos R$ 4,23 durante o pregão.
Para investidores, o caso fugiu do controle chinês e pode ter grandes impactos na economia. Até o momento, 81 pessoas morreram e 2.744 foram infectadas. Analistas estimam que o dano econômico possa se assemelhar à epidemia de Sars (síndrome respiratória aguda grave) que deixou centenas de mortos em 2003.
“Naquela época, as economias iniciavam um movimento de expansão após uma grave crise; hoje, o mundo está exatamente na direção oposta, com as grandes economias lutando para impedir que uma desaceleração mais forte na atividade possa se tornar uma recessão, diz relatório da Rico Investimentos.
Segundo a Rico, se o coronavírus estender seus efeitos, os indicadores econômicos do primeiro trimestre podem ser “duramente impactados”.
“E, com os juros tão baixos mundo afora, os bancos centrais podem ter menos ferramentas para estimular as economias”, afirma o texto.
Para Tommy Wu, da Oxford Economics, o impacto econômico pode ser forte, mas terá curta duração -e será menos severo do que com o Sars- porque a resposta das autoridades foi mais rápida.
Em 2003, o surto de Sars fez o crescimento do PIB chinês desacelerar dois pontos percentuais entre o primeiro e segundo trimestre, de 11,1% a 9,1%. No ano, a China cresceu 10%.
Desde então, a economia do país cresceu muito. “Então o impacto do coronavírus deve ser reduzido, de 0,5 ponto percentual para baixo. Contudo, qualquer mudança no crescimento chinês, por menor que seja, impacta muito a economia mundial”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities.
Para a agência de classificação de risco S&P, o crescimento do PIB chinês pode cair cerca de 1,2 ponto percentual em 2020 caso os gastos de consumo, especialmente em transporte e diversão, recuem 10%.
Para restringir a propagação do vírus, o governo suspendeu viagens dentro China e para o exterior, afetando o turismo, peso-pesado da economia com 11% do PIB em 2018, segundo cifras oficiais.
Segundo a consultoria Capital Economics, os gastos de turistas chineses também são uma importante parte do PIB de diversos países asiáticao, como Camboja, Tailândia, Japão e Singapura.
Em 2003, com a Sars, a demanda de passageiros aéreos na Ásia caiu 45%. O turismo está mais dependente dos chineses agora. Se o efeito se repetir, “isso levaria a uma queda entre 1,5 e 2 pontos percentuais do PIB dos países mais vulneráveis”, diz a Capital Economics.
Segundo a Organização Nacional de Turismo Japonês (JNTO), chineses representaram 27% do total de visitantes ao país em 2018, com 8,4 milhões de turistas -sem contar pessoas vindas de Hong Kong.
“Das compras de cosméticos feitas por turistas estrangeiros, 90% são de chineses”, aponta relatório do Mitsubishi UFJ Morgan Stanley.
Na Tailândia, o impacto pode ser ainda maior. O turismo representa 18% do PIB do país, e chineses são mais de 25% dos visitantes. No pior momento da Sars, diz Julian Evans-Pritchard, da Capital Economics, o tráfego de passageiros chineses caiu 50% no país, e as vendas do varejo, pela metade.
O FMI, previa, em 20 de janeiro, que a China cresceria 6% em 2020. Em 2019, o país cresceu 6,1%, pior índice em 29 anos.
O mercado teme que o coronavírus agrave a desaceleração do mundo, já que a China é a segunda maior economia global. Para conter o vírus, Pequim adotou medidas de confinamento para a região metropolitana de Wuhan, berço do coronavírus, assim como quase toda a província central de Hubei, a que pertence.
Wuhan é uma megalópole industrial, entre dois eixos importantes: Yangtze, o rio mais longo da Ásia, que atravessa a cidade de oeste a leste, e o eixo norte-sul de trem, que vai de Pequim a Hong Kong.
Devido à sua localização estratégica, vários consulados estão em Wuhan (França, Reino Unido, Estados Unidos). Além disso, de lá partem voos diretos para Europa, Oriente Médio e EUA.
A cidade fabrica 60% dos trilhos de alta velocidade chineses e tem cerca de 160 empresas japonesas. Importante centro automotivo, é berço da Dongfeng, segunda maior montadora do país e parceira da japonesa Nissan e Honda. Além da paralisação das indústrias da região, companhias de outras partes do país estenderam o recesso do Ano-Novo chinês, provocando uma forte queda no preço de matérias-primas. Nesta segunda, o barril de petróleo Brent caiu 2%, abaixo de US$ 60 pela primeira vez desde outubro, derrubando as ações da Petrobras em 4,3%.
Bolsas de todo o mundo tiveram forte queda. Europa e EUA registraram os maiores recuos em mais de três meses: Londres, Paris e Frankfurt caíram cerca de 2,5%, e Dow Jones e S&P 500, 1,6% cada uma. A Nasdaq cedeu 1,9%, e a Bolsa de Tóquio teve queda de 2%.
O mercado acionário chinês segue fechado pelo Ano-Novo Lunar até 3 de fevereiro. A princípio, as atividades retornariam na quinta (30), mas o governo estendeu o feriado de modo a conter o vírus.
No Brasil, o Ibovespa teve queda de 3,29%, a maior desde junho de 2019, a 114.482 pontos. Juntas, Petrobras e Vale, que caiu 6%, perderam R$ 34 bilhões em valor de mercado.
O dólar comercial bateu R$ 4,23 durante o pregão, mas perdeu força e fechou em alta de 0,5%, a R$ 4,21, maior valor desde 2 de dezembro. O grama do ouro subiu 1,65%, a R$ 215,51.
Em momentos de aversão a risco, investidores tendem a vender ações e comprar ativos mais seguros, como ouro e dólar. Para Lucas Tambellini, estrategista do Itaú BBA, o temor com o vírus foi um motivo para investidores venderem ações e embolsarem ganhos.
Nas últimas semanas, Ibovespa e índices americanos chegaram às máximas históricas.
“O mercado estava em uma trajetória de resultados muitos bons. Faltava um gatilho para a realização de lucro”, diz.

 

 

As informações são de Júlia Moura / Folhapress