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The Son - AMC/Globoplay/Divulgação

Faroeste em série: 2 ótimas estreias na GloboPlay (e uma joia na Netflix)

Se você é uma dessas pessoas que não se interessam por westerns, reconsidere suas preferências assistindo a Inferno Sobre Rodas, The Son e Godless

Por Isabela Boscov – da Veja

Produzida pelo canal AMC entre 2011 e 2016, esta é uma das minhas séries preferidas da década, e me enchia de tristeza que ela não estivesse disponível em nenhuma plataforma brasileira. Pois a primeira das cinco temporadas estreou esta semana na GloboPlay. Cullen Bohannon, ex-latifundiário, ex-dono de escravos e ex-oficial do exército do Sul, chegou ao fim da Guerra Civil (1861-1865) com uma dose extra de ódio da União: enquanto ele lutava, soldados do Norte invadiram sua casa e mataram a sua família. Findo o conflito, ele sai no encalço dos assassinos até o meio das grandes pradarias do Oeste, onde a ferrovia Transcontinental está sendo construída. E por lá fica, contratado como capataz – Cullen é o tipo do sujeito que impõe respeito sem esforço – pelo robber baron encarregado daquele trecho (Colm Meaney, pingando vigarice). Anson Mount em geral não é um ator que se destaque muito, mas o fato é que nasceu para interpretar o protagonista desta série, um sujeito em que honra e desonra colidem de maneiras cataclísmicas – e que, veja-se que ironia, descobre que só os negros libertos empregados na ferrovia estão em situação tão periclitante e desesperada quanto a dele. Anson Mount faz um belíssimo trabalho, melhor a cada episódio e a cada temporada, aprofundando os temas de violência e redenção deste western sujo e malvado, filmado em locações deslumbrantes (Alberta, no Canadá, finge-se de Oeste americano) e repleto de personagens envolventes. Por exemplo, a prostituta que foi raptada por índios na infância, cresceu com eles e tem uma tatuagem peculiaríssima no queixo – muito bem interpretada por Robin McLeavy, e baseada numa personagem verídica. Assim como The Son e Godless, as duas outras séries incluídas neste post, Inferno Sobre Rodas é uma legítima representante do que se costuma chamar de faroeste pós-moderno: se até os anos 50 o cinema tratava a expansão americana para o Oeste como um avanço da lei e da civilização sobre um território selvagem, de lá para cá esse sinal fica cada vez mais invertido – a violência, a selvageria e a ganância é que avançam sobre um Oeste antes equilibrado em um estado duro e inóspito, mas natural.

Inferno Sobre Rodas
Hell on Wheels – AMC/Globoplay/Divulgação

The Son

Onde: na GloboPlay

Em 1849, quando era adolescente, Eli McCullough viu sua família ser massacrada diante dos seus olhos pelos comanches, que então o raptaram e o levaram para viver com eles. Em 1915, já idoso, sustentado pela reputação de herói militar e estabelecido como latifundiário no Sul do Texas, Eli tenta iniciar um novo ciclo na sua jornada implacável de ambição e de sobrevivência a qualquer custo: quer trocar o gado que até ali fora a fonte de sua riqueza pelo petróleo e quer barrar do jeito que for a guerrilha dos rebeldes mexicanos que lutam para recuperar a terra que havia sido sua. Eli gostaria, também, de pôr alguma ordem na sua casa, mas essa parece ser a batalha mais difícil – seu filho Phineas (o ótimo David Wilson Barnes) é um dândi, seu filho Peter (Henry Garrett, que cresce à medida que a história avança) está quebrando com o desgosto de toda uma vida de violência, e seus netos, que deveriam ser a geração “civilizada”, estão dando mostras de que a maçã nunca cai muito longe da árvore mesmo. Por enquanto, só a primeira das duas temporadas está disponível na GloboPlay, e o mais interessante dela é a maneira como o passado de Eli com os comanches (fase em que ele é interpretado pelo muito interessante Jacob Lofland, que já havia chamado minha atenção em Amor Bandido) e o presente dele (Pierce Brosnan o encarna aí) vão se desenvolvendo paralelamente, até mostrar como aquele menino virou este homem. The Son não tem a produção nem o apelo visceral de Inferno Sobre Rodas, mas é bastante decente em si mesma – e, na parte dedicada à adolescência de Eli, trata de um tema curiosíssimo, a assimilação muito rápida e completa das crianças brancas raptadas pelas tribos das pradarias, como os comanches, os apaches e os kiowa. Mesmo quando eram testemunhas de extrema violência contra a sua família – o caso de Eli –, as crianças em geral mergulhavam de tal forma no novo estilo de vida que, em meses, esqueciam dos pais, desaprendiam seu idioma original, apavoravam-se com a ideia de serem devolvidas ao mundo dos brancos e, se retornavam a ele, passavam o resto da vida ansiando pelo que haviam perdido.

The Son
The Son – AMC/Globoplay/Divulgação

Godless

Onde: na Netflix

Se você anda procurando um programa desses que fazem disparar o coração e causam dependência, a solução é Godless, uma minissérie de impecáveis 7 horas e meia divididas em episódios de duração variada. Em 1884, um rapaz ferido a bala aparece no rancho de Alice Fletcher (Michelle Dockery), perto da cidade de La Belle, onde um acidente na mina matou todos os maridos de uma vez. Homens, em La Belle, há apenas uns dois ou três velhos, além do xerife cada vez mais míope e desacreditado (Scoot McNairy) e do seu assistente (Thomas Brodie-Sangster), um garoto magrinho que não toma banho e adora fazer malabarismos com os revólveres. O marido de Alice, porém, teve morte diferente – foi assassinado pelas costas, por ser índio. Alice é uma pária, e tenta tocar o rancho com a sogra e o filho dos seus 13 anos, que não teve tempo de aprender com o pai a ser índio e tem medo até de cavalos. Roy Goode (o maravilhoso Jack O’Connell), o rapaz ferido, tem exatamente o que falta a Alice nesse momento: habilidade para domar a manada que ela comprou e precisa revender. “Sou o azar em pessoa”, avisa ele, quando ela o convida a ficar. “Pois somos dois”, retruca ela. O azar de Roy tem inclusive nome: Frank Griffin (Jeff Daniels), um psicopata com estranhas tintas religiosas. Frank criou Roy e o considera seu filho; e, como Roy fugiu dele, Frank e seu bando vêm cavalgando pelo território à sua procura como uma praga bíblica, assassinando cidades inteiras simplesmente por terem dado uma noite de pouso ou uma refeição a Roy. A beleza de Godless – e ela é do tipo que envolve e comove – é tirar do enredo tudo que se pareça com arranjo ou artifício: a trama simplesmente acontece, em infinitas relações de causa e efeito, à medida que os personagens entram na órbita uns dos outros. Seria injusto não destacar o trabalho sensacional de Merritt Wever como Maggie, a irmã do xerife míope, que veste as roupas do marido morto e decide que ela própria é que vai ser o homem da sua vida. E é preciso mencionar, também, a trilha maravilhosa e as locações embasbacantes no Novo México. Acima de tudo, Godless partiu meu coração com as coisas lindas que brotam de uma vida miserável. E o showdown, o grande enfrentamento final obrigatório nos faroestes, é estrondoso.

Godless
Godless – Netflix/Divulgação