*FOTO DE ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 30.10.2019 - O apresentador Luciano Huck e João Doria, governador do estado de São Paulo, participam do evento "Summit Brasil - O que é Poder?", promovido pelos jornais O Estado de São Paulo e New York Times, no Pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, zona sul de São Paulo, nesta quarta-feira (30). (Foto: Paulo Lopes/BW Press/Folhapress)

Aliança de centro hesita sobre candidaturas

Quando viu a primeira versão de um vídeo criado para defender posições de centro na política, um dirigente partidário implicou com uma palavra. A peça terminava com uma assinatura que enfatizava o termo “juntos”.
Reunido com presidentes de outras siglas, esse cacique argumentou que, embora as legendas concordassem em muitos pontos, era impossível garantir que continuariam unidas. O filme acabou alterado, para realçar apenas a palavra “centro”.
Por trás da aliança informal inaugurada por partidos como DEM, PP, PL e Republicanos, surgem divergências sobre o produto eleitoral que será apresentado por esse consórcio daqui a três anos.
Dirigentes dessas siglas afirmam que é cedo para falar de nomes e dizem que é mais importante discutir as pautas de interesse do país. Há, porém, resistências evidentes a pré-candidatos que frequentam o cenário político como potenciais presidenciáveis.
Três deles são citados nas conversas desses caciques: o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o apresentador da TV Globo Luciano Huck (sem partido) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).
A ideia é esperar a construção dessas e outras eventuais candidaturas antes de tomar qualquer posição, mas os partidos já mostram divisões.
Alguns dos integrantes do grupo de centro se opõem vigorosamente à entrada do PSDB nas conversas e, consequentemente, às discussões sobre o apoio dessa coalizão a Doria em 2022.
Existem também incertezas em relação à disposição de Huck para entrar na corrida presidencial, além de dúvidas sobre uma aproximação com nomes marcadamente de esquerda, como Ciro.
Ainda que insistam que a série de vídeos lançada em conjunto por esses partidos é apenas um movimento político, e não eleitoral, a hesitação nas discussões internas sobre potenciais candidatos indica um risco de que o grupo pode se desfazer até a eleição.
Capitaneado pelo DEM do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), o movimento foi criado para defender um comportamento político moderado. O objetivo é furar a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Com uma plataforma de vídeos e informações que será lançada em breve, o objetivo é apontar a necessidade de equilíbrio entre os dois lados e pavimentar a estrada para o lançamento de um candidato com esse perfil em 2022.
DEM, PP, PL, Solidariedade e Avante participam oficialmente do grupo. Cada um gasta R$ 40 mil de recursos do fundo partidário por mês para financiar a plataforma.
Presidentes do PSD, do MDB e do Republicanos também participam de reuniões, que costumam ocorrer na residência oficial de Maia ou na casa do primeiro vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP).
Embora a discussão pública sobre a escolha de um candidato esteja bloqueada, as preferências surgem em diálogos internos. Num grupo de WhatsApp, o presidente de uma das siglas pediu recentemente que os colegas vetassem a entrada do PSDB nas conversas. Outros dois dirigentes concordaram.
Parte dos caciques de centro acredita que os tucanos, que foram protagonistas de seis eleições presidenciais nos últimos 25 anos, só aceitariam integrar o grupo sob a garantia de que o nome lançado em 2022 será o de Doria.
Entre os articuladores, há resistência crescente ao nome do paulista. Sob condição de anonimato, o dirigente de um desses partidos diz que Doria não conseguirá desbancar Bolsonaro pela direita, mas também terá dificuldades de convencer o eleitorado de que é um político de centro.
Mesmo siglas que carregaram historicamente posições mais conservadoras, como DEM e PP, acreditam que pode ser útil dar alguns passos em direção ao outro lado do espectro ideológico.
A percepção é que Bolsonaro tem chances de chegar a 2022 com apoio suficiente para disputar o segundo turno, principalmente se a recuperação econômica se consolidar. Nesse caso, as estradas estariam congestionadas à direita.
Uma aposta seria investir na conquista de um segmento mais identificado com partidos e candidatos de esquerda –em especial, as faixas de renda mais baixa. Pesquisas internas mostram que Huck tem potencial para atrair parte desse grupo e até capturar uma fatia do eleitorado lulista.
O nome do apresentador da Globo, entretanto, desagrada a siglas mais conservadoras, como o Republicanos. Eles acreditam que Huck tem posições muito liberais em temas de costumes, o que inviabilizaria uma aliança.
O presidente de um dos partidos diz ainda que há movimentos para atrair o PDT e o PSB, preferencialmente depois das eleições municipais do ano que vem. O objetivo é dar uma cara mais plural ao grupo e permitir uma aproximação com Ciro Gomes.
Em 2018, parte das siglas de centro tentou costurar um apoio em bloco à candidatura do ex-ministro. No fim, eles decidiram se aliar a Geraldo Alckmin (PSDB). A coligação deu ao tucano as maiores fatias de tempo de TV e do fundo eleitoral, mas ele terminou a disputa em quarto lugar, com menos de 5% dos votos.
Pela esquerda, aliados de Lula chegaram a procurar dirigentes das legendas de centro depois da saída do ex-presidente da prisão em busca de uma reaproximação.
Alguns desses partidos podem caminhar com o PT em eleições municipais no ano que vem, mas o grupo considera improvável a construção de um projeto comum. A ideia é justamente buscar uma via distante da polarização entre o ex-presidente e Bolsonaro.

 

 

As informações são de Bruno  Boghossian/Folhapress