Cena do filme 'Cadê Você, Bernadette?' (//Divulgação)

‘Cadê Você, Bernadette?’: drama cômico e tragicamente humano

(Where’d You Go, Bernadette, Estados Unidos, 2019. Já em cartaz no país) Se há uma cartilha pela qual Bernadette (Cate Blanchett) reza é a de que o inferno são os outros: à exceção da filha, Bee, e — mais ou menos — do marido, ela não suporta as demais mães da escola, acha sua vizinha (Kristen Wiig) especialmente intolerável e já denota aversão antecipada às pessoas que ainda não conheceu, como os passageiros do cruzeiro à Antártica que a adolescente Bee (a adorável Emma Nelson) quer impingir a ela. Bernadette também detesta lugares — por exemplo, Seattle, onde tem de morar porque seu marido, Elgin (Billy Crudup), é um bambambã da tecnologia que trabalha com a Microsoft. A ideia de seguir em direção ao Polo Sul e atravessar o turbulento Estreito de Drake a apavora. Na verdade, ela mal sai da mansão antiga e arruinada que comprou para reformar, mas na qual os trabalhos não avançam. E, no entanto, na interpretação radiante de Cate Blanchett e na direção como sempre calorosa de Richard Linklater, de Boyhood e da trilogia Antes do AmanhecerAntes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite, a própria Bernadette nada tem de detestável nem sequer de antipático: é simplesmente alguém que perdeu um eixo e precisa com urgência acordar para a necessidade de reencontrá-lo, antes que as pessoas mais queridas e preciosas desistam de tentar penetrar suas defesas. Linklater tem a dádiva muito especial de pôr os atores dentro da pele dos seus personagens e então fazê-los sentir-se completamente à vontade nela. Por isso, quando o cineasta pouco a pouco revela como Bernadette chegou a esse estado de neurose, a história dela não soa inventada nem forçada; soa apenas cômica e tragicamente humana — e, felizmente, passível ainda de otimismo.

—COM INFORMAÇÕES  Isabela Boscov/ VEJA