O Coringa de Rousseau: "O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros"- Imagem: Reprodução

Quem ri por último?

*Por Vinicius Nery Fidalgo

 

Sendo um filme da categoria de heróis, e dirigido por um diretor consagrado no mundo da comédia (Todd Philips), o novo filme do Coringa engana o telespectador que assiste na intenção de dar umas risadas ou ver alguma ação. Desprovido de piadas, Coringa, esse brilhantemente interpretado por Joaquin Phoenix, conta a melancólica história de um comediante fracassado  que parece a todo o momento tentar equilibrar a insanidade que habita sua cabeça e a sua vida exterior, fadada a trabalhar para sustentar a mãe e seus remédios.

A tensão que Philips implica ao longo do filme é capaz de agoniar até quem não é fã da temática de anti-heróis. A sensação que se tem quando se assiste ao filme é de que existe um elástico sendo puxado pelas duas extremidades, e a cada minuto ele se tenciona mais e mais. E enquanto esperamos o rompimento da liga, essa apenas vai se tencionando cada vez mais, para a agonia do telespectador.

Se na HQ de Alan Moore, A Piada Mortal, o Coringa mostra que basta um dia ruim, apenas, para que qualquer pessoa comum seja capaz de perder toda sua sanidade e adentrar os sinuosos caminhos sem retorno da loucura, no Coringa de 2019 Philips mostra que se um dia ruim já é o suficiente, imagine uma vida inteira de lástimas e humilhação. Ao retratar o sofrimento da visão de quem é oprimido, o Coringa deixa de ser o vilão maniqueísta que até então fora, para se tornar um personagem mais humanizado, de forma que quase dá para entender o porquê dele ser quem é e fazer o que faz.

Repleto de reflexões acerca do mundo contemporâneo, mesmo se passando em outro século, a disputa de classes é retratada com a sutileza que só Gotham é capaz de oferecer. Espelhada em Nova York, a cidade é dividida por um abismo social enorme onde quem se vê na base dessa estrutura nem sonha mais com alguma oportunidade. A elite reina absolutamente, enquanto a massa se agita em insatisfação, bastando apenas uma gota d’água para que um motim se inicie.

E nesse clima “saudável”, existe a questão dos doentes mentais. Uma das melhores reflexões do filme, que é abordada em uma cena particular, seria o fato de a sociedade exigir que as pessoas que sofrem de algum distúrbio se portem de maneira “normal”, sendo que o normal é uma simples questão de perspectiva. O que é normal para uma pessoa neurotípica é o estranho para uma atípica. Quem é o dono da razão? Se é que existe alguma.

Em um clima tenso e sombrio, a obra de Philips aborda diversas questões sociais de forma muito bem trabalhada. É possível traçar um paralelo entre o novo Coringa e Watchmen, o filme baseado nas histórias de Alan Moore, onde ambos usam a premissa de super heróis e vilões para apontar cruelmente as enormes falhas que a sociedade atual alimenta a cada dia cegamente. O Coringa veio para humanizar o vilão, deixá-lo mais próximo de nós em uma forma de alerta, onde quem é o causador do produto final “vilão” somos nós mesmos. Enquanto a sociedade se alimentar de ignorância e ganância, vários Coringas irão surgir. E se quem ri por último, ri melhor, sabemos muito bem quem é que estará dando a última gargalhada.

Vinicius Nery Fidalgo é Estudante de Jornalismo e Estagiário no Portal CLICKNEWS