(Sony/Divulgação)

Jura que você nunca viu… “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”?

Roy Neary (Richard Dreyfuss), funcionário de manutenção da companhia elétrica numa cidadezinha interiorana de Indiana, está na caminhonete, indo cuidar de um apagão geral na área, quando descobre o motivo do blecaute: aquelas luzes coloridas e muito brilhantes que ele vê pelo retrovisor não são de outro carro. Não são, aliás, de nada que ele imaginasse ser possível – e a proximidade do contato, a revelação, o choque e a excitação vão fazer a vida de Roy desmoronar. Como sua mulher, seus filhos e seus chefes poderiam entender a obsessão que começa a devorá-lo? Só alguém como Jillian (Melinda Dillon) poderia compreender: numa noite estrelada, ela viu as nuvens se avolumarem e rolarem como ondas pelo céu e então levarem emboram seu filho pequeno enquanto a casa inteira ganhava vida e sacudia. Ou alguém como o Dr. Lacombe (o cineasta francês François Truffaut, graciosamente cortejado com um papel-homenagem), o cientista que sabe que algo está para acontecer porque os indícios não param de surgir – aviões desaparecidos na II Guerra aparecem durante a noite no deserto mexicano, um navio perdido há décadas é encontrado de borco na Mongólia, a centenas de quilômetros da costa mais próxima. Revi Contatos Imediatos do Terceiro Grau esta semana (veja lá embaixo onde assistir), depois de muitos anos sem revisitá-lo, e fiquei impressionada: que fluência Steven Spielberg tem na direção, que voluptuosidade e que empatia ele imprime à imagem, que domínio ele tem dos muitos fios da história – e como sabe puxá-los todos juntos na hora certa.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

 (Sony/Divulgação)

Lançado em 1977, Contatos Imediatos foi o quarto longa-metragem realizado por Spielberg, em seguida a Encurralado (1971), A Louca Escapada (1974) e Tubarão (1975). Com esse histórico, não é surpresa nenhuma que, aos 30 anos de idade, ele já revelasse tantas qualidades como diretor nesta história de gente transtornada pela ideia de um contato alienígena. Depois de Tubarão, também, não surpreende em nada a maneira como certos elementos do filme entraram direto na corrente sanguínea do pop – a imagem icônica do menino emoldurado pela porta de casa e banhado por uma inatural luz laranja, a sequência de cinco notas musicais que é o “olá, como vai” dos extraterrestres. Nessa fase, essa era a especialidade de Spielberg: a comunicação plena, imediata e intensa com a plateia, que prosseguiria com E.T. – O Extraterrestre, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida etc. etc. etc.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

 (Sony/Divulgação)

O que surpreende, sim, é que Spielberg tenha tido a audácia de obrigar a ficção científica a uma guinada tão radical apenas dez anos depois do 2001 – Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, que permanece o exemplar definitivo e mais influente do gênero. À época do lançamento, o tratamento de aventura causou certa perplexidade, assim como a entrega do personagem de Dreyfuss a essa nova possibilidade em sua vida (Spielberg hoje diz que, se fosse fazer de novo, daria ao protagonista outro rumo, mas era jovem e não tinha família). Revendo hoje, o que sobressaiu, para mim, foi o deslumbramento de Spielberg, traduzido à perfeição pelos efeitos especiais (fotográficos, não digitais) concebidos por ele e executados pelo grande Douglas Trumbull, que cuidou também de 2001, para a sequência final. Ela é mesmo um pouco longa demais, mas contém algo precioso: a embriaguez de um cineasta com o novo, o desconhecido, o inesperado. Nem sempre essa foi a nota dominante dos filmes que Spielberg faria, mas ele não a perdeu: quarenta anos depois, essa mesma efervescência reapareceu, intacta (e com uma genial homenagem a Kubrick), no recente Jogador Nº 1.

COM INFORMAÇÕES  Isabela Boscov/ VEJA