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O Vice Presidente Hamilton Mourão - Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Bispo rebate Mourão e diz que governo quer ‘cancelar identidade dos indígenas’

Bispo que atua em São Félix do Araguaia, em Mato Grosso, dom Adriano Ciocca Vasino respondeu neste sábado (12), no Vaticano, às declarações do vice-presidente Hamilton Mourão e disse que o governo quer “cancelar a cultura e identidade dos indígenas”.
À Folha dom Adriano afirmou que o incômodo do governo Jair Bolsonaro com o Sínodo da Amazônia é “provavelmente porque eles dizem uma coisa e depois fazem outra coisa”. “Falar é fácil, mas, para cumprir de forma coerente com aquilo que a legislação prevê, a gente vê que tem um hiato muito grande”, diz.
Segundo ele, a atitude adequada do governo é estabelecer mais diálogo com a Igreja Católica e com os povos indígenas para compreender melhor as necessidades e as exigências de quem vive ali.
“Mas percebemos o contrário: este governo está querendo cancelar a cultura e a identidade dos indígenas. Eles querem que os índios como índios desapareçam e se agreguem à sociedade branca como pobres. Sociologicamente, entrariam numa outra categoria e desapareceriam como cultura e identidade próprias”, afirmou.
Mourão afirmou nesta sexta (11) que daria um “pequeno recado” ao Vaticano sobre a Amazônia.
“A mensagem que eu quero passar, em nome do nosso governo, é que a Amazônia brasileira é brasileira. É responsabilidade nossa preservá-la e protegê-la. Quero deixar isso claro.”
Para dom Adriano, no entanto, a soberania do Brasil não está em discussão.
Ele é um dos 57 bispos brasileiros que participam do Sínodo da Amazônia, reunião de religiosos e especialista dos nove países do bioma com o papa Francisco, que convocou a assembleia há dois anos para debater a ação da Igreja Católica na região e a situação do meio ambiente e dos moradores. São 258 participantes, que se reúnem até o dia 27 de outubro.
“A soberania do Brasil e dos outros países que fazem parte da Amazônia não está em discussão, a responsabilidade primária é dos países que têm a Amazônia. Mas não podemos esquecer que estamos num mundo globalizado e que é importante que se supere a ideia de soberanismo, que é um pouco ultrapassada e uma forma de populismo. E que não ajuda nem o Brasil, nem a Amazônia, nem a saúde do nosso planeta”, afirmou o religioso a jornalistas, em entrevista organizada pelo Vaticano.
Antes do encontro, iniciado no dia 6 de outubro, o governo brasileiro criticou a iniciativa da igreja, argumentando que se tratava de uma ameaça à soberania brasileira sobre as questões relativas à Amazônia.
Dom Adriano é italiano e vive há 40 anos no Brasil, sendo sete em Mato Grosso e outros 33 anos no sertão pernambucano.
“Tenho contato com os xavante em Maraiwatsede, que sofreram demais em 2012 quando reocuparam a terra numa operação que foi quase de guerra, com os tapirapé, que têm a terra Urubu Branco invadida, e os carajá, atingidos por muitos suicídios de jovens, de doenças venéreas e alcoolismo, porque os brancos nas temporadas de praia do rio Araguaia corromperam bastante a coisa”, revelou.
“As populações indígenas têm um desconforto muito grande diante da política concreta que o governo está executando. Eles se sentem literalmente desamparados e sentem que as exigências que eles fazem, como, por exemplo, de preservação de terra deles e de respeito das áreas de defesa do agrotóxico, não são respeitadas. E ninguém se importa com isso.”

ENTENDA O SÍNODO
O que é – O Sínodo dos Bispos é uma reunião episcopal de especialistas. Convocado e presidido pelo papa, discute temas gerais da Igreja Católica (como juventude, em 2018), extraordinários (considerados urgentes) e especiais (sobre uma região). Instituído em 1965, acontece neste ano pela 16ª vez
Especial Amazônia – Anunciado em 2017, o Sínodo da Amazônia trata de assuntos comuns aos nove países do bioma, organizados em dois eixos: pastoral católica e ambiental
Para que serve – É um mecanismo de consulta do papa. Os convocados debatem e fornecem material para que ele dê diretrizes ao clero, expressas em um documento chamado exortação apostólica. As últimas duas exortações pós-sinodais foram publicadas cerca de cinco meses depois de cada assembleia
Quem participa – O Sínodo da Amazônia reúne 185 padres sinodais (como são chamados os bispos participantes), sendo 57 brasileiros. Além dos bispos da região, há convidados de outros países e de congregações religiosas. Também participam líderes de outras comunidades cristãs, da população e especialistas –no total, há 35 mulheres. O papa costuma presidir todas as sessões

 

As informações são de MICHELE OLIVEIRA/Folhapress