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Por:Adrian DENNIS

Como uma unidade secreta russa agiu para desestabilizar países na Europa

NOVA YORK – Primeiro veio a campanha de desestabilização na Moldávia, seguida pelo envenenamento de um traficante de armas na  Bulgária e, em seguida, um golpe frustrado em Montenegro. No ano passado, houve uma tentativa de assassinar um ex-espião russo no Reino Unido utilizando um agente neurotóxico. Apesar de essas operações deixarem a marca dos serviços de inteligência da Rússia, autoridades viram as ações como episódios isolados e não conectados.

Mas agora agentes de segurança do Ocidente concluíram que essas operações, e potencialmente muitas outras, fazem parte de uma campanha coordenada e ainda ativa para desestabilizar a Europa, executada por uma unidade de elite de dentro do sistema de inteligência russo especializada em subversão, sabotagem e assassinato.

O grupo, conhecido como Unidade 29155, tem operado por há pelo menos uma década, mas apenas recentemente os agentes no ocidente descobriram sobre ela. Membros da Inteligência em pelo menos quatro países disseram que não está claro com que frequência a unidade age e alertaram que é impossível saber quando e onde ela irá operar.

O propósito da Unidade 29155, que até agora não havia sido relatado, sublinha o quanto o presidente russo, Vladimir Putin, está ativamente atuando para combater o Ocidente com a sua chamada guerra híbrida – uma mistura de propaganda, ataques hackers e desinformação – assim como confrontação militar aberta.

“Acho que nós esquecemos como organicamente cruéis os russos podem ser”, disse Peter Zwack, um militar reformado da Inteligência e ex-adido de defesa na Embaixada dos EUA em Moscou, que disse que até então desconhecia a existência da unidade.

Em uma mensagem de texto, Dmitri Peskov, porta-voz do presidente Putin, disse que as perguntas sobre a unidade deveriam ser encaminhadas ao Ministério da Defesa, que não respondeu aos pedidos de entrevista.

Unidade pertence à hierarquia de comando da agência de inteligência militar russa

Funcionando atrás de muros de concretos da sede do 161º Centro de Treinamento Especializado para Fins Especiais, em Moscou, a unidade está localizada dentro da hierarquia de comando da agência de inteligência militar russa, conhecida como GRU.

Ainda que a maioria das ações da GRU permaneçam um mistério, as agências de inteligência ocidentais começaram a ter uma noção de seu funcionamento. Nos meses anteriores às eleições presidenciais americanas de 2016, agentes americanos disseram que duas unidades cyber da GRU, conhecidas como 26165 e 74455, hackearam os servidores do Comitê Nacional Democrata e da campanha de sua então candidata Hillary Clinton. Em seguida, publicaram os mais embaraçosos e-mails internos.

No ano passado, o procurador especial Robert Mueller III, designado para investigar a interferência russa nas eleições de 2016, apontou uma dúzia de agentes dessas unidades. As equipes de hackers, em sua maioria, operam de Moscou, a milhares de quilômetros de seus alvos.

Em contraste, membros da Unidade 29155 viajaram entre vários países europeus. Alguns deles são veteranos condecorados das guerras mais sangrentas russas, incluindo AfeganistãoChechênia e Ucrânia. Suas atuações são tão secretas, de acordo com os serviços de inteligência ocidentais, que a existência da unidade é desconhecida até mesmo entre agentes da GRU.

A unidade parece ser uma comunidade unida. Uma fotografia tirada em 2017 mostra seu comandante, major-general Andrei V. Averyanov, no casamento de sua filha usando um terno cinza e gravata borboleta. Ele está ao lado do coronel Anatoly Chepiga, um dos dois oficiais acusados pelo Reino Unido de envenenar um ex-espião russo, Serguei Skripal.

Em vários níveis, cada uma das quatro operações ligadas à unidade atraiu atenção pública, mesmo que tenha demorado um tempo para as autoridades confirmarem que elas estavam conectadas. As agências de inteligência do ocidente primeiro identificaram a unidade após a tentativa de golpe em Montenegro, que envolveu um plano com dois oficiais para assassinar o primeiro-ministro e cercar o prédio do Parlamento.

Mas oficiais começaram a compreender a agenda específica de ruptura da unidade apenas após o envenenamento de Skripal em março de 2018, um ex-agente da GRU que traiu a Rússia ao espionar para o Reino Unido. Skripal e sua filha, Yulia, ficaram gravemente feridos após serem expostos ao Novitchok, um poderoso agente neurotóxico de concepção soviética, mas sobreviveram.

O envenenamento desencadeou uma onda geopolítica de críticas, com mais de 20 nações, incluindo os EUA, expulsando 150 diplomatas russos em uma demonstração de solidariedade com os britânicos.

Mais tarde, as autoridades britânicas apresentaram os nomes de dois suspeitos, que viajaram usando pseudônimos, mas depois foram identificados como o coronel Chepiga e Alexander Mishkin. Seis meses após o envenenamento, procuradores britânicos acusaram os dois homens por transportar agente neurotóxico até a casa de Skripal em Salisbury e borrifá-lo na sua porta.

Mas a operação era mais complexa do que os oficiais revelaram na época. Exatamente um ano antes do envenenamento, três agentes da Unidade 29155 viajaram para o Reino Unido, possivelmente para treinar o ataque ao ex-espião. Um deles era Mishkin. O segundo homem viajava sob o pseudônimo Serguei Pavlov. Agentes de inteligência acreditam que o terceiro membro, que usava o pseudônimo de Serguei Fedotov, chefiava a missão.

Logo depois, os agentes concluíram que os dois oficiais – os homens usando os nomes de Fedotov e Pavlov – faziam parte de uma equipe que tentou envenenar o negociante de armas da Bulgária Emilian Gebrev, em 2015. Segundo os europeus, os outros envolvidos eram Ivan Lebedev, Nikolai Kononikhin, Alexey Nikitin e Danil Stepanov – todos pseudônimos.

Essa equipe tentou duas vezes matar Gebrev, uma vez em Sofia, a capital, e outra um mês mais tarde na sua no Mar Negro.

Falando a repórteres em fevereiro durante a Conferência de Segurança de Munique (Alemanha), Alex Younger, o chefe do serviço de inteligência britânico, MI6, criticou o aumento da ameaça russa e sugeriu uma atuação coordenada, sem especificar uma unidade.

O Kremlin acredita que a Rússia está em guerra com a ordem liberal do ocidente, que ele vê uma ameaça a sua existência.

Espiões do Exército Vermelho e oficiais da GRU

Em uma cerimônia para marcar o centenário da GRU, Putin ficou diante de uma grande logo da agência – um cravo vermelho e uma granada em explosão – que ele descreveu como “lendário”. Um ex-agente da inteligência, Putin traçou uma linha direta entre os espiões do Exército Vermelho, que ajudaram a derrotar os nazistas na 2ª Guerra, e oficiais da GRU, cuja ‘capacidade única’ é agora utilizada contra um diferente tipo de inimigo.

Em 2006, Putin assinou uma lei autorizando o assassinato de alvos fora da Rússia, no mesmo ano, uma equipe de assassinos russos usaram isotopos radioativos contra Alexander Litvinenko, outro ex-espião russo, em Londres.

A Unidade 29155 não é o único grupo autorizado a conduzir esse tipo de operações, segundo os investigadores. As autoridades britânicas atribuíram o assassinato de Litvinenko ao Serviço Federal de Segurança, a agência que já foi chefiada por Putin e frequentemente compete com a GRU.

Ainda que pouco se saiba sobre a Unidade 29155, há algumas pistas nos registros públicos russos que sugerem ligações com a ampla estratégia híbrida do Kremlin.

Uma diretiva de 2012 do Ministério da Defesa Russo determina bônus para três unidades por suas “conquistas especiais no serviço militar”. Uma delas era a Unidade 29155. Outra unidade é a 74455, que estava envolvida na interferência nas eleições de 2016. A terceira era a Unidade 99450, que os agentes acreditam que estejam envolvida na anexação da Península da Crimeia, em 2014.

Um oficial aposentado da GRU que conhece a Unidade 29155 disse que ela é especializada em preparar as missões, em grupos ou individuais, que envolvam “explosões, assassinatos, qualquer coisa”. “Os homens que servem nela são realmente muito sérios”, disse ele ao Times.

Negligência nas operações preocupa autoridades europeias

Autoridades de segurança europeias estão perplexas com a aparente negligência nas operações da unidade. Skripal sobreviveu à tentativa de assassinato, assim como Gebrev, o traficante de armas búlgaro. A tentativa de golpe no Montenegro chamou muita atenção, mas acabou fracassando. Um ano depois, Montenegro aderiu à Otan. As autoridades de segurança dizem que é possível que ainda não tenham descoberto outras operações que foram bem-sucedidas.

É difícil saber se a bagunça incomodou o Kremlin. Talvez, dizem os especialistas em inteligência, isso faça parte do objetivo. “Esse tipo de operação de inteligência se tornou parte da guerra psicológica”, disse Eerik-Niiles Kross, ex-chefe de inteligência da Estônia. “Não é que eles se tornaram muito mais agressivos. Eles querem ser sentidos. Faz parte do jogo.” / NYT 

Com informações da Redação/ Estadão