Vista Aérea do centro de Cuiabá - Foto Reprodução

Cuiabá 300 anos

Segunda-feira, dia 08 de abril de 2019. Feriado dos 300 anos de Cuiabá.

Meus filhos estão com seis anos de idade. Pego o carro e vamos para a Praça Conde de Azambuja. Estaciono numa garagem vertical erguida próxima dali seguimos.

Explico que o antigo Largo do Sebo virou Praça Real pela presença dos primeiros governadores ali residentes, dentre os quais destacou-se o grande Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres.

Hoje o lugar é chamado carinhosamente de Praça da Mandioca.

Subimos numa das jardineiras. A nossa é apelidada Maria Dimpina e está pintada com violetas na lateral.

O que é jardineira, papai? É esse caminhônibus que já teve aqui em Cuiabá bem antigamente, quando o mundo ainda era preto-e-branco e chegou novamente agora filho pra gente passear pela cidade, respondo lembrando em meus pensamentos do querido Fernando Tadeu de Miranda Borges.

Quando todos se posicionam nos bancos de madeira, nosso guia distribui folders com roteiro baseado na obra do imortal Rubens de Mendonça.

O clima está agradável. Subimos a rua Ricardo Franco e as placas instaladas nas esquinas indicam que aquele que dá nome à rua foi um destacado militar na Guerra do Paraguai, assim como Antônio Maria, cuiabano que ajudou na retomada de Corumbá em 13 de junho de 1867.

Os casarões estão todos restaurados. Indico a meus filhos dois particularmente importantes: o primeiro, morou o Marechal Deodoro da Fonseca 1º. Presidente do Brasil, afastado da capital do Império, Rio de Janeiro, por ordem do Imperador Dom Pedro II, por temer o movimento republicano que eclodia entre os militares; o segundo, do então Coronel Floriano Peixoto, destacado para Mato Grosso, antes de virar o segundo Presidente da República.

Damos a volta no Palácio Presidencial e explico às crianças que, até há poucos anos era uma sede da prefeitura feia que foi recuperada no mesmo estilo de 1819, quando o brigadeiro Jerônimo Joaquim Nunes tomou para si como sede do governo.

Na fachada estão as três bandeiras hasteadas: do Brasil, de Mato Grosso e de Cuiabá e, posicionados à frente, recebendo cumprimentos estão o prefeito da cidade e o governador do Estado, com a cuiabania animada pela fanfarra do Colégio Estadual Presidente Médici.

Damos a volta e entramos pela Rua Barão de Melgaço. Descemos por alguns minutos para visitar a Casa de Bem Bem, onde agora funciona o Centro Cultural de Arte Contemporânea Antônio Sodré.

Mais adiante paramos na Casa Barão de Melgaço, sede da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico que está completando 100 anos e foi fundado pelo então Presidente da Província de Mato Grosso Dom Aquino Correa.

O casarão que foi erguido em 1775 para ser residência do francês Auguste Leverger, almirante da Marinha, naturalizado brasileiro, herói da Guerra do Paraguai, casado com cuiabana e presidente da província por 5 vezes.

Já fui presidente daqui antes de vocês nascerem – digo às crianças.

Na esquina, aponto para o Solar dos Muller, totalmente recuperado para visitação.

Vamos adiante pela mesma rua Barão de Melgaço e  jardineira, seguindo devagarinho, faz com que eu consiga mostrar à Esquerda o Campo D’Ourique restaurado, com um grande monumento à rusga, movimento nativista contra os portugueses que controlavam as finanças da cidade em 1834.

Paramos pra ver.

O prédio atrás do Centro Geodésico da América do Sul virou o Museu Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

Aprendemos com o guia que ali já foi o Largo da Forca, local de execução de condenados, que depois virou campo de touradas, sede da assembleia legislativa de Mato Grosso de depois Câmara Municipal de Cuiabá.

Contornamos o quarteirão e descemos pela rua Isaac Póvoas, grande intelectual que pertenceu à Academia Mato-grossense de Letras. Viramos na 13 de junho, antiga Rua Bela do Juiz.

A meus filhos, lembro do querido Prof. Aníbal Alencastro e suas histórias, nas quais contava que ali morava uma linda moça prometida em casamento, pela qual um juiz vindo de fora se apaixonou e teve que acabar fugindo da cidade sem sua musa.

Chegamos ao Porto e em frente ao Arsenal de Guerra, levo as crianças para um lanche na Praça Jejé de Oyá, um espaço aberto construído especialmente para shows de música.

Há uma grande exposição no Salão Aline Figueiredo. Podemos apreciar quadros de Ricardo Guilherme Dicke, Valmir Leite e de Moacyr de Freitas. Compramos ali algumas gravuras para emoldurar e enriquecer de cultura nossa casa.

Lanche feito, ouvimos o maestro Abel dos Anjos reger o Conjunto Musical Sinjão Capilé, que toca os chorinhos compostos por Zulmira Canavarros.

Damos a volta e passamos pelo antigo Grupo Escolar Senador Azeredo, que carinhosamente tinha o apelido de “Peixe Frito”, uma das principais escolas cuiabanas, assim como o Colégio dos Padres, o Asilo Santa Rita, o Liceu Cuiabano Ana Maria de Arruda Muller e a Escola Modelo.

Voltamos à Praça Conde de Azambuja.

Papai, por que a Praça da Mandioca tinha esse nome antes?, um deles me pergunta.

Eu digo que foi uma homenagem ao primeiro governador-geral, Rolim de Moura, 2o Vice-Rei do Brasil.

De uma monitora treinada, recebemos um catálogo com todas as indicações dos casarões restaurados no quadrilátero histórico, prontos para consulta virtual quando chegarmos em casa, bem como uma “agenda cuiabana”, calendário com todas as datas especiais, realizado com base na obra do grande Estevão de Mendonça.

Está na hora de almoçarmos. Saímos direto para comer um pacu assado com farofa de banana. Onde? No Centro Gastronômico de Tradições Cuiabanas Elza Biancardini, é claro!

À noite, vai ter missa. Vamos ao Largo do Rosário, onde fizeram o Marco Zero de Cuiabá. Haverá teatro e todo mundo vai estar lá.

O que poderia ter virado realidade, o que vemos com frequência em lugares turísticos que visita-se mundo afora, está tão distante no horizonte de nossas esperanças que talvez, quem sabe, Eduardo Mahon, que aqui rendo minhas homenagens por irretocável ensaio, fará esse passeio com seus filhos quando estes estiverem não com 6 anos, daqui a três dias, mas com 60.

Essa linda obra fica de minha homenagem como cuiabano que sou de pai, mãe e parteira, ao tricentenário de nossa querida Cidade Verde.

De tão bom que achei, o guardei para a posteridade e ela chegou infelizmente com distância abissal do que sonhara o autor.

* O texto foi escrito há 2 anos e meio, em 23 de outubro de 2016, pelo advogado e escritor Eduardo Mahon e adaptado pelo Economista e comentarista de rádio Kaike Rachid Maia.