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Alunos choram em memorial de homenagem às vítimas do ataque na escola Professor Raul Brasil, em Suzano. - UESLEI MARCELINO REUTERS

Saúde mental dos estudantes, mais um desafio para as escolas brasileiras

Duas semanas após o massacre de Suzano, investigadores ainda se debruçam sobre um complexo quebra-cabeçapara tentar entender o que levou os dois ex-alunos da escola estadual Professor Raul Brasil a matarem oito pessoas, ferirem outras 11 e a tirarem as próprias vidas. Não havia evidências óbvias de que os autores da matança tinham problemas psicológicos, mas o caso levou educadores de todo o Brasil a discutir com prioridade como as escolas devem se atentar à saúde mental de seus estudantes, a debater o que pode ser feito para identificar onde há transtornos e, assim, evitar que evoluam para desfechos trágicos. Enquanto alguns políticos brasileiros defenderam, somente horas após o atentado, que se os professores estivessem armados a tragédia de Suzano poderia ter sido evitada, especialistas rechaçam a hipótese, mas apontam para a necessidade de incluir a saúde mental na lista de capacitações da rede de ensino, hoje despreparada para lidar com a questão.

Um estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com escolas públicas de São Paulo e do Rio Grande do Sul, mostra que 80% dos estudantes com algum transtorno mental — como por exemplo ansiedade, fobias, déficit de atenção, hiperatividade ou esquizofrenia — não recebem tratamento médico nem psicológico. Os pesquisadores realizaram uma série de exames de neuroimagem, além de avaliações genéticas e psiquiátricas em 2.511 alunos com idades entre seis e 12 anos. Destes, 652 apresentaram pelo menos um transtorno mental, mas apenas 20% havia recebido algum tipo de tratamento (medicamentoso ou terapêutico).

“As escolas normalmente não estão preparadas para lidar com a saúde mental. O diagnóstico e o tratamento geralmente são feitos nos postos de saúde, Capes e ambulatórios. A gente vê a escola mais como uma forma de detectar esses problemas”, afirma Daniel Fatori, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da USP e um dos autores do levantamento. O pesquisador defende uma formação continuada para que os professores consigam identificar eventuais problemas psicológicos e encaminhar os estudantes para a rede de saúde, mesma ponderação defendida dias após o massacre de Suzano pelo secretário de Educação de São Paulo, Rossieli Soares. A tarefa, entretanto, não não é fácil, considerando que a maioria das instituições de ensino da rede pública brasileira não têm estrutura para o básico. Entretanto, é algo que algumas escolas dos EUA e do Canadá, países que já vivenciaram tragédias semelhantes a de Suzano, incluíram recentemente à grade curricular.

“As escolas da rede pública costumam ter um número muito grande de alunos, e isso dificulta o contato próximo do professor. Não há uma solução mágica”, pondera Fatori, reconhecendo que trata-se de um desafio complexo, embora urgente. Ainda segundo o pesquisador da USP, a tendência do professor é identificar o aluno que tem agitação ou falta de atenção. Alguns problemas ligados à quietude, como depressão e ansiedade, são difíceis de detectar porque o perfil não necessariamente é de um aluno que causa problema na sala de aula.

“Quando a gente fala em saúde mental, não se trata só de alguma patologia, mas também de promover dentro da escola um ambiente saudável, com uma convivência positiva”, avalia Telma Vinha, pesquisadora da Faculdade de Educação da Unicamp e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem). Para Vinha, a escola precisa assumir o seu papel como educadora complementar, onde os estudantes serão formados para conviver em uma sociedade. Para isso, precisa se modernizar, além de aprofundar o debate sobre temas que afetam diretamente os alunos, em especial o bullying. Se o ensino médio sempre foi uma fase difícil para adolescentes no momento em que definem a própria identidade, os problemas ganham dimensões ainda maiores com as redes sociais. “As grandes escolas particulares já estão se adaptando às tecnologias, mas as escolas públicas não. O que a gente tem visto é que muitas delas sequer tem internet, mesmo as que estão em regiões maiores”, lamenta.

Para a pesquisadora, é preciso formar a comunidade escolar para que os estudantes tenham alfabetização tecnológica, já que a maioria deles usa a internet, mas não têm consciência da imagem virtual que estão formando nem dos riscos aos quais estão expostos. No caso do massacre em Suzano, o Ministério Público investiga o auxílio de grupos radicais na Internet no planejamento do crime. São grupos de troca de mensagens conhecidos como chans, que garantem o anonimato aos usuários e são famosos pelas discussões de caráter racista, homofóbico, misógino e com conteúdo de pedofilia. “A escola precisa trabalhar isso [a educação tecnológica], assim como aprender a identificar discursos de ódio. Ela precisa começar a falar de temas como o linchamento virtual, por exemplo. Mas infelizmente não está preparada”, acrescenta Vinha. Segundo ela, é preciso formar professores para que eles saibam o que é problema de convivência, o que é indisciplina, o que é bullying. E poderem atuar para melhorar a convivência nas escolas.

O isolamento social, o bullying e mesmo as agressões virtuais são questões que estão diretamente ligadas à evasão escolar e, em última instância, à violência, seja física ou verbal. Um dos autores do massacre de Suzano era um jovem de 17 anos que deixou a escola no ano passado. Embora não haja informações concretas sobre as possíveis ligações entre o abandono escolar e os assassinatos, o fato chama atenção para a falta de controle ou acompanhamento de alunos que abandonam a escola, a maior parte deles durante o Ensino Médio. Estados como Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Pernambuco têm programas de monitoramento da evasão escolar. “Alguns Estados claramente têm políticas na escola para buscar o aluno que abandona, ir na casa da família. Mas esta não é uma realidade brasileira. Na maioria das escolas, o aluno abandona e nada é feito”, afirma Telma Vinha.

Depois da tragédia de Suzano, o Governo de São Paulo sinalizou que reforçará a segurança nas escolas vulneráveis, inclusive com a instalação de câmeras de segurança. “O que aconteceu em Suzano tem aspectos muito específicos que precisam de um atendimento especial que vai além de ações de segurança como colocar um policial ou detector de metais nas escolas. Não vai ser só isso que vai resolver. Como a gente identifica um menino que tenha algum tipo de problema ou como a gente faz para não perder um aluno?”, questionou o secretário de Educação de São Paulo. Sem apresentar ações concretas, o gestor diz que as escolas precisam aprender a identificar jovens com eventuais problemas e criar redes para apoiá-los.

Armas os professores não é uma alternativa, na opinião da pesquisadora da Unicamp. “O papel do professor não é andar armado. A segurança dentro de escola não tem que se dar armando pessoas, mas oferecendo educação de qualidade e segurança externa na comunidade”, afirma Telma Vinha, rechaçando um argumento defendido pelo senador Major Olimpio, correligionário do presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo a presença de policiais na escola recebe ponderações. Para a pesquisadora, é salutar que a força policial garanta a segurança no entorno desde que não compartilhe a gestão escolar. “Isso poderia até melhorar a disciplina, mas limitaria o poder de questionamento desses alunos e traria uma série de questões que educam muito pouco. Ninguém é contra a disciplina, mas há metodologias para conseguir isso mais democratizadas. Que tipo de pessoa eu quero formar? Quero um aluno com visão crítica? Então as políticas precisam ser coerentes com isso”, conclui Vinha.

 

Por Beatriz Jucá – El País