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Abadiânia: A Casa de Dom Inácio, onde o médium João de Deus realiza atendimentos e cirurgias espirituais. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Polícia faz operação de busca e apreensão em casa espiritual de João de Deus

Policiais realizam nesta terça-feira (18) uma operação de busca e apreensão na Casa Dom Inácio de Loyola, espécie de hospital espiritual criado pelo médium João Teixeira de Faria em Abadiânia, no interior de Goiás.
Cerca de 18 policiais chegaram ao local por volta das 14h30 e anunciaram a busca a funcionários da instituição.
As buscas visam apreender mídias, como celulares e computadores, e outros eventuais materiais que comprovem a prática de crimes sob investigação.
O objetivo também é identificar funcionários que possam testemunhar nos inquéritos e conhecer o local onde, segundo as vítimas, ocorriam os abusos.
A chegada deixou funcionários apreensivos. Nesta terça, o centro não possui atividades agendadas.
As buscas são acompanhadas por membros do Ministério Público e por representantes da defesa do médium.
O advogado Ronivan Peixoto Júnior, que acompanha as buscas a pedido da defesa de João de Deus, diz que funcionários têm dado acesso a todos os documentos solicitados por policiais.
No início da visita, policiais foram aos escritórios e solicitaram acesso a documentos com dados da contabilidade da casa. A Promotoria investiga se houve uma movimentação nas contas do médium no valor de R$ 35 milhões na última semana. Segundo o advogado, o médium está em situação difícil devido à saude frágil.
Em seguida, visitaram locais onde João de Deus costuma realizar atendimentos, como a “sala das correntes”, onde fiéis fazem meditação, e outras estruturas. O grupo busca visitar também locais apontados em denúncias por mulheres que relatam terem sido vítimas de abuso.
Acusado de abuso sexual, João de Deus se entregou à polícia no domingo (16). Segundo o advogado, o médium tem se mostrado preocupado e abatido.
“Estive com ele ontem. Está abatido. Não dormiu direito, colocaram ele em um colchão no chão”, diz.
As buscas na Casa Dom Inácio foram encerradas por volta das 17h. A delegada Karla Fernandes, que faz parte da força-tarefa, deixou o local sem falar com a imprensa.
A previsão é que policiais façam buscas em outros endereços ligados ao médium em Abadiânia ainda nesta terça-feira.
Um desses locais também alvo de buscas é a casa que o médium mantém em frente à instituição filantrópica Casa da Sopa, criada por ele no centro de Abadiânia.

MUDANÇA DE CELA
João de Deus foi transferido na segunda (17) para uma cela ao lado da que dividia com três advogados no núcleo de custódia do complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia.
A mudança se deve à chegada de um quarto advogado à prisão. Ele foi alojado junto com os demais colegas de profissão e o médium, realocado.
A nova cela de João de Deus tem 7,5 metros quadrados. É o espaço de uma enfermaria desativada.
Como não tem banheiro, o ele continua usando o do recinto vizinho.
Há apenas uma cama de metal com colchonete e um armário.
O cômodo não tem janela, só uma porta que dá acesso ao corredor do pavilhão. Por isso, o preso ganhou um ventilador.

ACUSAÇÕES
Os casos de supostos abusos cometidos por João de Deus começaram a se tornar públicos no sábado (8), após 13 supostas vítimas relatarem violações à TV Globo e ao jornal O Globo.
Na segunda (10), Aline Sales, 29, contou à Folha que esteve na casa dom Inácio em 2012, foi levada para um banheiro, posta de costas e que João de Deus colocou a mão dela em seu pênis.
Desde então, a força-tarefa montada pelo Ministério Público de Goiás recebeu 506 relatos de supostos abusos cometidos pelo médium. A maioria chegou por email e as denunciantes estão sendo chamadas a prestar depoimentos.
Na última sexta (14), a Justiça decretou a prisão preventiva do médium. Ele ficou escondido num sítio na zona rural de Abadiânia até se entregar na tarde de domingo (16) e ser levado para a prisão em Aparecida de Goiânia.
O momento da apresentação foi registrado com exclusividade pela colunista Mônica Bergamo, da Folha.

MÉDIUM NEGA ABUSOS
No depoimento que prestou à polícia, o médium negou qualquer tipo de culpa nos abusos sexuais dos quais é suspeito, e sua defesa tentou desqualificar as denunciantes. “Ele não admite [envolvimento]. Apresenta suas versões e cabe à polícia provar”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, que acompanhou a oitiva.
O médium falou por mais de duas horas a duas delegadas. Segundo a delegada Karla Fernandes, ele respondeu a todas as perguntas e se recordou de alguns atendimentos feitos a mulheres que o denunciaram.
O suspeito disse que a regra era recebê-las coletivamente, e não em recintos individuais, como consta dos relatos de supostas vítimas.
O delegado espera concluir os inquéritos sobre violências relatadas por 15 mulheres em 15 dias, quando será tomada a decisão sobre eventuais indiciamentos. Por ora, os crimes em apuração são os de estupro e violação sexual mediante fraude (no caso específico usar a fé para obter sexo).
A delegada Karla disse que a prisão poderá aumentar o número de denúncias. Além dos 15 casos sob análise da polícia, o Ministério Público recebeu centenas de relatos de abusos. “Entendemos que, com a prisão, haverá o encorajamento de vítimas e isso pode levar a um aumento da procura”, declarou.

 

Por Natália Cancian e Fábio Fabrini/Folhapress