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Larissa beija a testa da filha Lorena na UTI do Incor (Foto: Celso Tavares/G1)

Com dois corações artificiais, menina de 1 ano aguarda transplante no Incor de SP

Família viajou mais de 2,5 mil km e largou tudo para acompanhar tratamento da pequena Lorena.

A  Unidade de Terapia Intensiva (UTI) infantil do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, é lar de pequenos grandes guerreiros. Um deles é a menina Lorena Torres, de 1 ano. Vítima de uma rara doença cardíaca congênita, ela passou por uma complexa cirurgia para implantar dois corações artificiais no ano passado e hoje aguarda, ao lado dos pais, a doação de um órgão compatível.

A saga de Lorena começou aos seis dias de vida, na cidade onde nasceu, Maceió (AL). “Depois de mamar, eu percebi a respiração dela mais ofegante e procurei o hospital de emergência mais próximo. No raio-X deu para ver que o coração dela era bem grande, bem aumentado”, disse sua mãe, Larissa Monique Farias da Silva, de 31 anos.

Depois de ficar quase um mês internada na UTI de um centro médico da capital alagoana, os médicos não conseguiram fechar um diagnóstico. Os pais foram aconselhados a ir ao Incor, um dos centros de referência em tratamentos cardíacos no país e o responsável por mais de 40% dos transplantes de coração do estado de São Paulo.

Mesmo debilitada, no início de novembro do ano passado a menina enfrentou uma viagem de avião de quase 2,5 mil quilômetros entre Maceió e a capital paulista. Chegando à cidade, foi levada às pressas ao hospital.

Já nos primeiros exames foi constatado que ela sofre de miocardiopatia dilatada, doença que limitou o funcionamento de seu coração a apenas 11% da capacidade total. “Ela estava com disfunção nos dois ventrículos, tanto o direito quanto o esquerdo”, disse o médico Luiz Fernando Caneo, cirurgião da Unidade Cirúrgica de Cardiopatias Congênitas do Incor.

A grosso modo, os ventrículos são câmaras responsáveis por movimentar o sangue no coração. O direito leva o sangue venoso, pobre em oxigênio, para as artérias pulmonares. O esquerdo leva o sangue já oxigenado para o resto do corpo.

Com o diagnóstico fechado, os médicos viram que o transplante era a única saída. A preocupação naquele momento era estabilizar a pequena paciente para aguentar a espera pelo órgão. Segundo Larissa, remédios foram ministrados para facilitar a circulação sanguínea, mas a situação era tão crítica que a filha sofreu um infarto.

“Ela teve uma parada de 20 minutos, porque, pela fragilidade do coração, as drogas vasoativas não estavam dando mais efeito. Foi quando o cirurgião disse que ela não ia aguentar esperar até o transplante se não ficasse em uma máquina, que é o Berlin Heart”, disse.

Corações artificiais

O berlin heart excor é considerado por especialistas ouvidos pelo G1como o melhor coração artificial para crianças com menos de 20 kg. Ele consiste em uma bomba localizada no lado de fora do corpo que faz o trabalho do ventrículo. O caso de Lorena foi mais grave e demandou a instalação de dois aparelhos, um para cada ventrículo (confira abaixo como eles funcionam).

Essas bombas, porém, não substituem totalmente o coração. Elas servem justamente para poupar o esforço do órgão. “Quase 90% do débito cardíaco é dado por essa bomba. Isso dá um incremento de débito cardíaco que o coração fraco não estava dando. Com isso, eu melhoro a perfusão dos rins, melhora a perfusão hepática”, disse o médico Caneo.

Uma vantagem é que, por ser externo, não precisa ser trocado de acordo com o crescimento da menina. Além disso, pode durar mais de um ano. A bomba, porém, exige atenção constante de equipe especializada e o paciente precisa ser medicado diariamente para evitar a formação de coágulos. Isso, somado ao maquinário responsável por seu funcionamento, que mais parece um arquivo de metal, impedem que o implantado deixe a UTI até o transplante.

Justiça

Berlin Heart Excor renovou as esperanças dos pais de Lorena. Mas por pouco tempo. Como o dispositivo não é comum no Brasil, Larissa teve dificuldade para que seu plano de saúde liberasse o implante, tendo até de entrar na Justiça. “Nesse meio, em uma semana, eu lutando para conseguir a autorização, ela teve mais quatro paradas. De uma vez. Ela parou, reanimaram, parou, reanimaram, e assim foi.”

Na data limite para a cirurgia, Larissa conseguiu uma liminar que possibilitou o procedimento. O próprio Caneo foi quem fez a cirurgia. “Permitiu que ela ganhasse peso, melhorasse a função hepática, a função renal, e consiga chegar ao transplante em melhores condições”, disse o médico.

Convívio

Lorena se adaptou bem à cirurgia. “No início incomodou, mas agora a gente está vendo que ela está se acostumando mais com os coraçõezinhos dela”, disse o pai da menina, Renato Luciano Torres, de 34 anos. Ela foi destubada, começou a receber alimentação oral e passou a interagir mais com os pais, voltando inclusive a sorrir.

Os pais, que tiveram de largar empregos e sua casa em Maceió, agora se revezam em uma poltrona instalada permanentemente ao lado do leito da filha. Recebem atenção e carinho da equipe liderada pela médica Filomena Galas. Para quebrar a aparência sóbria de hospital, a parede ao lado foi decorada com fotos, desenhos e mensagens positivas.

A tecnologia fez com que o medo da perda se transformasse em esperança. Agora, os pais de Lorena seguem ansiosos por um coração compatível. Enquanto ele não vem, o casal faz campanha de incentivo à doação de órgãos.

“É difícil aceitar a questão da doação, principalmente em se tratando de criança, uma questão bem delicada. Mas o que eu falaria aos pais [de um doador] é que tivessem a consciência de que doando o órgão de um filho, seja o coração ou outro órgão, vai salvar a vida de outra criança”, disse Larissa. “E ele vai saber que o coração do filho dele está podendo bater no peito de outra criança.”

Por Paulo Toledo Piza, G1 SP