Atriz Tônia Carrero - Ana Branco/21-08-2000 / O Globo

Morre aos 95 anos a atriz Tônia Carrero

Artista, que estava internada para uma cirurgia, não resistiu e teve parada cardíaca

 

RIO – Aos 95 anos, a atriz Tônia Carrero morreu na noite deste sábado, por volta das 22h15, vítima de uma parada cardíaca. Ela havia sido internada na sexta-feira, na Clínica São Vicente, na Gávea, para a realização de um um procedimento cirúrgico simples, mas não resistiu. A clínica confirmou a morte, mas sem dar detalhes. O velório será realizado neste domingo, das 14h às 22h, no Teatro Municipal. A cremação do corpo de Tônia, como era seu desejo, ocorrerá na segunda, ao meio-dia, no Memorial do Carmo.

Em entrevista à GloboNews, a neta da atriz, Luísa Thiré, informou que Tônia estava com uma úlcera no sacro e morreu durante procedimento médico. Segundo Luísa, o velório deve ocorrer neste domingo, e a avó deve ser cremada na segunda-feira.

Consagrada no teatro, cinema e televisão, a atriz, nascida Maria Antonietta de Farias Portocarrero, no Rio de Janeiro, filha do general Hermenegildo Portocarrero e de Zilda de Farias, é mãe do ator Cecil Thiré, e avó dos atores Miguel Thiré, Luísa Thiré e Carlos Thiré.

Apesar de graduada em Educação Física, a formação de Tônia como se deu num curo em Paris, na década de 1940, com Jean Louis Barrault, quando já era casada com o artista plástico Carlos Arthur Thiré. Antes de partir para a França, fez um pequeno papel no filme “Querida Susana”.

A estreia no palco foi na companhia de Fernando de Barros, com a peça “Um Deus dormiu lá em casa”, de Guilherme Figueiredo — dirigida por Adolfo Celi, seu segundo marido —, em parceria com o ator Paulo Autran, em 1949. Sua atuação lhe rendeu o prêmio de atriz revelação pela Associação de Críticos Cariocas. Em 1951, convidada pelo empresário Franco Zampari, Tônia se mudou para São Paulo e se tornou estrela da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde atual em filmes como “Apassionata” (1952), de Fernando de Barros, “Tico-tico no fubá” (1952), de Adolfo Celi, e “É proibido beijar” (1954), de Ugo Lombardi.

RELEMBRE A TRAJETÓRIA DE TÔNIA CARRERO

 

1949. Ao lado de Paulo Autran, Tônia Carrero estreou no teatro na peça “Um deus dormiu lá em casa”, de Guilherme Figueiredo, pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).Foto: Divulgação

1952. Época de glória da Cia Cinematográfica Vera Cruz. Na foto, Tônia atua em “Tico-tico no fubá”, de Adolfo Celi.Foto: Arquivo

1952. “Apassionata”, de Fernando de Barros. Na cena do filme, Tônia e Anselmo Duarte.Foto: Reprodução

1954. Em ação no filme “É proibido beijar”, de Ugo Lombardi. Foto: Divulgação

1954. Uma das grandes damas do teatro brasileiro, Tônia Carrero provou que beleza, elegância e talento podiam andar lado a lado.Foto: Arquivo/Reprodução

1962. A atriz esteve em três filmes nesse ano: “Copacabana Palace”, “Esse Rio que eu amo” e “Sócio de alcova”.Foto: Arquivo

1967. Tônia e Nelson Xavier em cena da peça “Navalha na carne”, de Plínio Marcos.Foto: CDI

1968. Tônia participa da Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. À direita, o poeta e compositor Vinicius de Moraes.Foto: Agência O Globo

1970. Em cena do clássico “Macbeth”, de Shakespeare, mais uma dobradinha com Paulo Autran.Foto: Divulgação

1971. Tônia em foto da montagem da peça “Casa de bonecas”, de Ibsen.Foto: Divulgação

ção

1978. Período da novela “O cafona”. Na foto: Ary Fontoura, Maysa, Tônia, Marília Pêra e Djenane Machado.Foto: Agência O Globo

1979. Em ação no espetáculo “Teu nome é mulher”, ao lado de Maria Zilda, Marcos Waimberg e Helio Ary.Foto: Arquivo

1980. Tônia contracena com José Lewgoy, na novela “Água viva”.Foto: Agência O Globo

1990. Com o velho amigo e companheiro de palco Paulo Autran, na peça “Mundo, vasto mundo”.Foto: Arthur Cavaliéri / Arquivo

1991. Lançamento da campanha “Vá ao teatro”, no Cristo Redentor, com a participação de Tônia, Sura Berditcheski, Renata Sorrah e Wanda Lacerda, entre outras.Foto: Carlos Wrede / Agência O Globo

2007. Ao lado de Mauro Mendonça, em sua última aparição no Teatro, na peça “Um barco para o sonho”.Foto: André Wanderley / Divulgação

Tônia posa na piscina do hotel Copacabana Palace, no Rio.Foto: Carlos Moskowski / Divulgação

Pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), grupo que passou a integrar em 1953, já estabelecida em São Paulo, atuou em espetáculos como “Uma mulher do outro mundo” (1954), de Noel Coward, “Negócios de Estado”, de Louis Verneuil, e “Cândida”, de Bernard Shaw — as duas últimas dirigidas por Ziembinski.

De volta ao Rio, em 1956, a atriz formou com Celi e Autran a Companhia Tônia-Celi-Autran(CTCA), que nos anos 1950 e 1960 revolucionou a cena do teatro brasileiro ao constituir um repertório com peças de autores clássicos, como Shakespeare e Carlo Goldoni, e de vanguarda, como Sartre. Pelo coletivo, Tônia montou espetáculos como “Otelo” (1956), de Shakespeare, “Entre quatro paredes” (1956), de Jean-Paul Sartre e “Seis personagens à procura de um autor” (1960), de Luigi Pirandello, pelo qual recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz.

Em 1965, a atriz lança a Companhia Tônia Carrero, pela qual monta “A Dama do Maxim’s, de Georges Feydeau, ao lado do fiel parceiro de palco Paulo Autran, e “Navalha na carne”, de Plínio Marcos, cuja protagonista, a miserável prostituta Neusa Suely, se torna um dos marcos mais importantes de sua carreira. O papel lhe rendeu dois prêmios: Molière e Associação de Críticos Cariocas.

Na TV, um dos seus personagens mais marcantes foi a sofisticada e encantadora Stella Fraga Simpson em “Água viva” (1980), de Gilberto Braga. Tônia viria a trabalhar novamente com o autor, em 1983, na novela “Louco amor”, dessa vez interpretando a não menos charmosa e chique Mouriel. Em ambas as novelas, Tônia perdeu o papel de vilã para Beatriz Segall e Tereza Rachel, respectivamente. Mesmo assim os dois personagens que interpretou foram um sucesso.

Ainda nos anos 1980, Tônia surpreende público e crítica por sua interpretação para o texto moderno de “Quartett” (1986), de Heiner Müller, dirigida por Gerald Thomas. Pelo papel, a atriz recebe outro prêmio Molière de melhor atriz.

Em entrevista ao EXTRA, em 2015, Cécil Thiré declarou, pela primeira vez, sobre o real estado de saúde da mãe. Segundo ele, na ocasião, a atriz sofria de uma doença chamada de hidrocefalia oculta. Sem dar mais detalhes, Cécil contou que o quadro de Tônia era estável mas que, devido a doença, ela não se comunicava mais e nem conseguia andar normalmente. Tônia vivia em seu apartamento no Leblon, cercada de familiares e sempre recebia visitas de amigos próximos.