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ONG Salve a Si já ajudou 4 mil pessoas a deixaram o vícío em drogas, em Goiás (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)

Condenado por tráfico internacional de drogas, ex-usuário monta ONG para ajudar dependentes químicos

Vindo de uma família rica e influente de Brasília, José Henrique França experimentou maconha pela primeira vez aos 11 anos. Atualmente, já ajudou 4 mil pessoas a deixarem as drogas.

José Henrique França, de 42 anos, nasceu em uma rica e importante família de Brasília. Aos 11 anos, experimentou maconha pela primeira vez. Expulso de casa, chegou a se envolver com traficantes no Rio de Janeiro e levava droga para a Europa. Foi preso por tráfico internacional, voltou ao Brasil e teve que lutar contra o vício em crack. E, para tentar se redimir de sua história, hoje tem uma ONG para recuperação de dependentes químicos em Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal. Mas sua vida não é tão simples e resumida assim.

“Eu faço esse trabalho de resgatar as pessoas das drogas para buscar paz, porque estraguei muitas vidas. É um jeito de compensar o mal que eu fiz”, disse.

Administrador da ONG Salve a Si, José Henrique nasceu em uma família tradicional da capital federal. Seu avô foi deputado estadual em Minas Gerais e procurador de Contas do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Seu pai, arquiteto, trabalhou diretamente com Oscar Niemeyer na construção de Brasília.

Mas tudo isso não evitou que entrasse no mundo dos vícios. Com histórico de alcoolismo na família, experimentou maconha pela primeira vez ainda criança. Foi o início da parte negativa da história de sua vida.

“Aos 18, eu já atinha experimentado quase todas as drogas, estava em uma situação insustentável. Era jogador de polo aquático e larguei as piscinas para ficar só na droga. Já tinha sido internado à força e acabava fugindo. Então, minha família me deu um ultimato: ou me tratava, ou saia de casa”, narrou.

Escolheu o vício. Longe de casa, da família, se envolveu ainda mais nas drogas. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu traficantes e entrou para organizações criminosas. José Henrique se tornou um traficante internacional de drogas.

“Eu levava cocaína e voltava com drogas sintéticas para o Brasil. Em 2003, fui preso no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, com 15 kg de cocaína. Fui condenado a sete anos de prisão. Fiquei preso três [anos] em regime fechado e depois saí em condicional, quando fui deportado para o Brasil”, se lembra.

José Henrique França ajuda dependentes químicos a se livrarem do vício e se reincerirem na sociedade (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)
José Henrique França ajuda dependentes químicos a se livrarem do vício e se reincerirem na sociedade (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)

De volta ao Distrito Federal, teve dificuldade em se sentir parte da sociedade novamente. Entrou em depressão e se viciou em crack, se afundando cada vez mais. José Henrique conta que nessa época, sua esposa acabou engravidando e não aguentava vê-lo em situação de rua.

Assim como sua família, ainda aos 18 anos, lhe mandou escolher entre o tratamento e as drogas, sua esposa tomou a mesma atitude. Ele precisou escolher entre procurar ajuda ou ver sua mulher lhe deixar com sua filha ainda na barriga.

“Eu digo que o crack foi uma benção. Enquanto eu ainda estava usando outras drogas, eu sentia que podia continuar, que estava a mil. O crack me jogou na miséria e foi preciso quase perder minha esposa para conseguir sair do vício”, disse.

Um novo começo

Se livrar de 22 anos de dependência química não foi fácil. Foi sofrido e dolorido. “Fui para clínicas psiquiátricas que não tratavam o vício, apenas davam remédios para dormir. Em outra, eu ficava amarrado na cama e me davam injeções. Acabava fugindo dessas unidades e isso me revoltava, me mantinha nas drogas”, contou.

Conheceu, então, uma comunidade terapêutica que tinha um tratamento mais humanizado, sem encarceramento. Lá, durante o processo de recuperação, começou a ajudar também outros internos. Descobriu, então, sua vocação.

“Fiz um curso na Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas e acabei assumindo o local onde me tratei, isso em 2009. Foi assim que começou a Salve a Si, em uma fazenda emprestada por um advogado. Começou comigo, minha esposa, minha filha e 22 pessoas em situação de rua. Hoje, já foram 4 mil pessoas atendidas”, contabiliza.

ONG Salve a sí é administrada por ex-usário de drogas que conseguiu vencer o vício (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)
ONG Salve a sí é administrada por ex-usário de drogas que conseguiu vencer o vício (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)

Todo o trabalho é focado no tratamento humanitário, sem muros, grades. O objetivo é que os dependentes químicos em recuperação, ao saírem, não se sintam excluídos da sociedade, como aconteceu com José Henrique.

“Além do trabalho para vencer as drogas, temos cursos técnicos, damos bolsas de estudos na federação de comunidades terapêuticas, fazemos trabalhos assistenciais, de forma que, com o fim do tratamento, a pessoa terá uma profissão, poderá seguir seu caminho inserido na sociedade”, explicou o administrador da Salve a Si.

A ONG conta com 150 voluntários, que vão até as cracolândias com um caminhão levando alimentos, produtos de higiene, roupas limpas e, acima de tudo, muito carinho e palavras de encorajamento para que os dependentes consigam se livrar do vício.

“Vejo famílias chorando na cracolândia e penso que poderia ser a minha, me procurando. As drogas são um mundo de ilusão. O usuário acha que tem superpoder, mas é a soberba que precede a queda”, disse José Henrique.

O projeto sobrevive com parcerias com o poder público e de diversas doações. A capacidade atual é para 144 internos. São aceitos apenas homens, com idades entre 18 e 60 anos.

Casado, com dois filhos, e “limpo” há nove anos , José Henrique diz que a luta para se manter longe das drogas ainda é diária. Mas, durante os últimos anos, colocando as coisas na balança, considera o saldo positivo.

“O sentimento é de muita gratidão por tantas vidas terem sido confiadas a mim. E o que eu estou fazendo é dar uma chance para que essas pessoas escrevam a própria história”, concluiu.

Voluntários distribuem alimentos para usuários de drogas em cracolândias no Entorno do Distrito Federal (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)
Voluntários distribuem alimentos para usuários de drogas em cracolândias no Entorno do Distrito Federal (Foto: Arquivo Pessoal/José Henrique França)

Por Vitor Santana, G1 GO